Uma das coisas boas da globalização (entre tantas outras) é conhecer melhor a cultura de outros países.
É a essência da expressão “aldeia global”, criada há pouco mais de 40 anos, que explica como países distantes vão ficar cada vez mais próximos e se mesclar em busca de identidade.
Por conta disso é de se estranhar o porquê de só agora começar a chegar ao grande público brasileiro, vinda de um país próximo como Argentina, uma História em Quadrinhos da qualidade de O Eternauta (El Eternauta, 360 págs.), que demorou mais de 50 anos para aportar por aqui.


Tem início então uma verdadeira odisseia de sobrevivência do grupo com direito a guerrilhas, fugas desesperadas, homens-robô zumbis, armas estranhas, gigantescos monstros de quatro patas e alienígenas que podem escravizar ou acabar com a Terra.
A trama surgiu quando Héctor Oesterheld decidiu fundar sua própria revista semanal e levou consigo vários colaboradores, entre eles Lopez, que em 1957 recebeu a proposta de desenhar a HQ.
Segundo Paulo Ramos, Solano diz a Oesterheld que gostaria de desenhar uma ficção científica realista e contemporânea com personagens de fácil identificação com o leitor.
Foi então que Hector surgiu com essa história que, segundo ele, começou baseada num de seus romances de aventura preferidos quando criança, Robinson Crusoé (do autor inglês Daniel Defoe), e depois acabou se tornando algo que ele mesmo não esperava.

Os desenhos de Solano Lopez são realistas na medida certa, evocando um
estilo de época e traduzindo com perfeição alguns pontos turísticos da
cidade de Buenos Aires como o estádio do River Plate.
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Francisco Solano Lopez em 2010 |
Seu talento para desenhar fisionomias e expressões humanas é invejável,
mesmo com tantos personagens que passam pela narrativa, são todos
facilmente identificáveis.
Oesterheld consegue a façanha de criar personagens humanos de personalidades bem definidas, os jogando constantemente em situações dramáticas e emocionantes numa trama que se torna difícil de largar.
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Oesterheld |
É uma pena que Oesterheld (que entre outros também escreveu uma biografia em quadrinhos de Che Guevara resenhada aqui), foi vítima da
ditadura Argentina e tenha sido dado como desaparecido em 1977 por conta
de suas idéias de esquerda.
Fato que também se repetiu com suas quatro
filhas adultas e aproximadamente 30 mil pessoas enquanto os militares
ficaram no poder.

Tudo que sobrou do autor foram suas obras nas HQs, sua esposa e um dos netos, para contarem sua história.
Lamentável, não só pela sua contribuição a arte latina e mundial, mas pelo fato de ali se encontrar um ser humano.

A trama ainda apresentou continuações (muitas não-oficiais), mas pelo menos uma delas, feita pelos autores originais antes da morte de Oesterheld, poderia aparecer por aqui no encalço dessa obra.
Uma ficção científica inteiramente produzida no nosso país hermano, que estreita nossas fronteiras quadrinistícas e que, mesmo passada há 50 anos atrás, está pronta para entrar para a História por não dever nada aos grandes autores do gênero.
Recomendado.
Valeu!