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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Quadrinhos: Fábulas - Noites (e Dias) da Arábia

A outra série da VERTIGO que teve uma nova edição pela Panini editora aqui no Brasil é Fábulas da DcComics que, com o perdão no trocadilho, fica cada dia mais fabulosa.

Conforme já mencionei num post anterior, a série é considerada sucessora de Sandman (série adulta de maior sucesso da editora e que ainda hoje é líder de vendas em republicações), principalmente ao misturar personagens de contos da fadas com o mundo “real” ou mundano, como as fábulas se referem a nós.

Nesse 7º volume, Noites (e dias) da Arábia, temos duas histórias. 

Na primeira, em quatro partes, finalmente vemos as fábulas árabes, que já apareceram num volume anterior, chegando ao mundo mundano pra pedir ajuda à Cidade das Fábulas, que fica disfarçada de olhares humanos num bairro em Nova York.

O embaixador é o convencido Simbad, ex-marujo, que com uma grande comitiva de servos, escravos e concubinas é hospedado nos quartos de hóspedes a pedido do príncipe Encantado, que está as voltas com as cansativas tarefas de prefeito das fábulas. O que ninguém imagina é que os árabes trouxeram com eles umas das mais poderosas e temíveis criaturas mágicas do universo, um D´jinn, ou gênio, cujo mestre parece ter planos egoístas e mortais.

A Bela e a Fera
Com a mudança do prefeito temos uma nova equipe trabalhando com ele, prato cheio pro roteirista e criador da série Bill Willingham renovar os ares desenvolvendo melhor personagens que antes eram apenas figurantes como a Bela e a Fera que assumiram o lugar de Branca de Neve (que passa um tempo na Fazenda com os filhos ) e de Bigby Lobo (que está desaparecido pelo mundo numa investigação secreta). 

Frau Totenkinder
Destaque para Frau Totenkinder, a bruxa da casa feita de doces na história de João e Maria que, tendo seus pecados absolvidos pelo exílio na Cidade das Fábulas, tem se mostrado a cada dia mais eficiente na defesa dos exilados com feitiços simples, mas bem inteligentes. É quase um Batman das Fábulas.

Willingham é um mestre em dividir a trama em várias frentes, mostrando com sucesso a continuação de eventos acontecidos em sagas anteriores ao mesmo tempo que estabelece a trama e tensão desse novo capítulo da história. É sem dúvida um grande novelista.

O desenhista Mark Buckingham, principal nome da série desde o princípio, mantém o nível da arte, sendo sua característica enfeitar o espaço entre os quadrinhos com diferentes símbolos conforme a trama se concentra em um determinado personagem.

A segunda história, em duas partes, se passa quase que inteiramente nas terras mágicas e mostra um soldado de madeira de alto posto do exército do Adversário querendo desistir de sua quase-imortalidade por amor. E as fábulas exiladas no mundo mundano podem ter problemas no futuro com essa escolha do soldado.
Rascunho de Fern

Destaque para o desenhista convidado Jim Fern que executa bem a transição entre a aparência de madeira para a de humano conseguindo passar com sucesso também o clima de contos de fada para o de conto contemporâneo da história.

Detalhe importante: no álbum anterior finalmente conhecemos a verdadeira identidade do maldoso Adversário (que hoje se intitula Imperador) e esse volume pode estragar a surpresa pra quem ainda não o conhece.

Um belo trabalho que mexe com personagens conhecidos do grande público e consegue instigar a cada nova história.

Parabéns a Panini por investir na publicação das continuações da história em um pequeno intervalo de tempo. Tomara que continue assim.

Recomendadíssimo!

Valeu!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quadrinhos: Y - O último Homem - A senha

Raramente falo de obras mais de uma vez aqui no blog, mas a continuidade e, principalmente, a qualidade dessas séries praticamente me obrigaram a escrever esse post e o próximo.

Foram lançados bem recentemente pela Panini Editora dois álbuns de quadrinhos que dão continuidade a duas das melhores sagas do selo adulto VERTIGO, da editora americana DcComics, sendo publicadas atualmente.

Y - O último homem (que já comentei aqui) está em sua terceira editora brasileira, sendo que as duas primeiras não chegaram muito longe com a saga. Seja por praticarem preços exorbitantes ou seja por falência da editora.

Esse 4º. Volume do recomeço da saga pela Panini (que já republicou os três primeiros) tem 148 páginas e apresenta as edições 18 a 23 da edição original americana.

Mostra o que seria a penúltima parte da viagem do último homem da Terra, Yorick, e suas duas acompanhantes, a doutora Mann e a agente 355, ao laboratório da doutora para investigar o porquê de Yorick e seu macaquinho Ampersand terem sobrevivido ao misterioso fenômeno que matou todos os machos do planeta. São duas histórias em três partes cada uma.

A primeira história, A Senha, começa com Ampersand ferido e precisando de cuidados mais profissionais do que a doutora Mann poderia oferecer. Como Yorick sempre se mete em confusão, a agente 355 decide deixá-lo numa cabana isolada nas montanhas com sua antiga professora e amiga, a agente 711, enquanto ela e a doutora vão procurar um hospital que possa curar o macaco. Só que a agente 711 parece ter outros planos para o jovem Yorick.

É a primeira vez na série que o sexo é efetivamente abordado, mas com o roteirista Brian K. Vaughn, nada é tão simples quanto se espera. Vaughn mergulha fundo na psiquê de Yorick, que revela traumas sexuais profundos e bastante inesperados para um personagem de quadrinhos, o que o torna bem mais real e humano do que se vinha apresentando até então. 

Ótima abordagem do roteirista afinal, todos temos um pouco de loucura e, de acordo com Freud, a maioria dessa loucura vem de traumas com relação a sexo.

Não espere nada muito sensual dos desenhos de Pia Guerra, que apesar de não decepcionar ao retratar anatomias, faz questão de mostrar os traumas do personagem de forma que eles passem essa mesma sensação pro leitor. Seu estilo é realista, simples e pouco detalhado, mas consegue dar ênfase em expressões e é mestra em desenhar gente comum, sem músculos ou muitas curvas.

Rascunho de Parlov
O segundo arco, A passagem da Viúva, mostra o trio tentando cruzar uma estrada interestadual bloqueada por um grupo extremista que acredita que o governo matou todos os homens e acha que precisa resistir impedindo a passagem de pessoas (e remédios e mantimentos) de um lado a outro do país.

É a vez da Dr. Mann revelar um pouco de sua motivação e alguns segredos em relação aos experimentos com clonagem que fazia antes de todos os homens do mundo morrerem. Nesse meio tempo somos apresentados de bom grado a episódios reais da História americana que teriam inspirado Vaughn a criar a motivação pra história.

O desenhista convidado Goran Parlov dá um show a parte imitando com sucesso o traço de Pia Guerra, mas conseguindo superá-lo em dois pontos: suas mulheres são mais curvilíneas e seu traço faz a ilusão de movimento bem mais convincente que a desenhista principal da série. Espero mais desenhistas convidados assim.

Uma ótima série adulta que surpreende positivamente a cada nova história e, como já falei na minha resenha anterior, merecia uma adaptação de respeito pra televisão. 

Alô HBO, cadê os produtores de vocês que não lêem isso?

Recomendadíssimo!

Valeu!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Filme: SteamBoy (2004)

Depois do megasucesso destruindo a Tóquio do futuro na ficção-científica Akira, o autor Katsuhiro Otomo tenta destruir a Londres do Século XIX na ficção steampunk animada SteamBoy (2004).

James Ray Steam é um rapaz inglês de 13 anos cuja genialidade como mecânico e inventor só é superada pela do pai Eddy e do avô Lloyd que estão, há bastante tempo, trabalhando numa nova invenção nos Estados Unidos. É quando algo dá errado e seu avô volta sozinho pra casa trazendo consigo a perseguição da perigosa fundação O´Hara, que quer a todo custo colocar as mãos na poderosa “Bola de Vapor” inventada por ele e seu filho no Alaska. Caberá a Ray protegê-la e impedir que a fundação O´Hara atrapalhe a Grande Exposição de 1866 em Londres.

Há mais de dez anos longe da direção em longa-metragens, Otomo assume a tarefa dupla de dirigir e co-escrever a história do garoto inventor.

Trazendo do último sucesso seu esmero na produção, Steamboy se destaca bem como uma grande produção animada, com seqüências cheias de detalhes que, segundo a lenda, levaram quase 10 anos, além do equivalente a 26 milhões de dólares para serem produzidas.

Isso é visível, principalmente nas seqüências finais onde ocorrem as batalhas dentro e fora do gigantesco castelo a vapor que sobrevoa Londres. Outro ponto interessante são as armas, canhões e aparatos voadores mostrados na história. O nível de detalhes no castelo e na própria cidade é absolutamente incrível e merece ser visto numa tela grande ou mesmo em alta definição.

O filme tem boas seqüências de ação na sua metade inicial com a fuga de Ray das máquinas a vapor da fundação O´Hara, primeiro com seu monociclo e depois pegando carona num trem, mas perde força depois.

O roteiro tenta trazer uma discussão anti-armamentista a baila, principalmente pelas palavras do avô de Ray, mas acaba sendo algo bastante superficial.

O problema acaba acontecendo depois da metade, onde a história deveria ganhar mais carga emocional e isso não acontece de forma satisfatória.

Um bom exemplo disso é o pai de Ray, Eddy, que não funciona como um vilão, não tendo a personalidade bem definida e sendo inconstante em suas decisões que não combinam com um personagem obcecado. 

Também há várias outras coisas pequenas, que colocadas juntas atrapalham a apreciação do filme:

- As motivações dos personagens são fracas e mal explicadas. 

- A menina Scarlett, mimada herdeira da fundação, fica completamente perdida na trama e, tirando uma cena descartável no final, parece servir apenas pra causar identificação com o público feminino. 

- Os constantes embates entre o pai e avô de Ray nunca são decididos.

- A seqüência final toma muito tempo de projeção sempre com uma nova e completamente descartável reviravolta que não adicionam valor nenhuma a trama principal.

- O epílogo, mostrado em cenas semi-animadas na subida dos créditos finais, parecem mais interessantes que o final do filme.

- Sem falar na verossimilhança da história que é bastante prejudicada por todos esses detalhes.

Resumindo: O tempo gasto nas seqüências de ação poderia ser melhor aproveitado no processo de desenvolvimento e aprofundamento de personagens, o que não acontece tornando a história chata na metade final.

Um filme do gênero steampunk que pode ser apreciado pela ação, pela bela fotografia e pelo grande design de produção, mas que tem um fraco aproveitamento de personagens é o que esperar de SteamBoy.

Pelo menos podemos ficar com as belas imagens e a linda estética steampunk.

Valeu!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Quadrinhos: Três Dedos - Um Escandâlo Animado

Quem é o rato mais famoso dos desenhos animados? Aposto que você não pensou muito pra obter essa resposta. 

Então aqui vai outra: por que ele fez tanto sucesso? 

Foi tentando responder essa pergunta que o quadrinista americano Rich Koslowski fez Três Dedos – Um Escândalo Animado (140págs., 2009) um álbum lançado aqui pela Gal Editora. 

Antes de tudo é necessário saber que nos Estados Unidos o polegar não é considerado um dedo e sim uma espécie de apêndice auxiliar dos quatro dedos principais, os quais (não se sabe porquê) são reduzidos a três na maioria dos desenhos animados. 

Rickey Rat foi o pioneiro que inaugurou a era de ouro das animações. Sua parceria com o cineasta humano Dizzy Walters fez dele o ator animado de maior sucesso de todos os tempos.

Mas, como todos sabem, nem tudo são flores em Hollywood e através de cenas de arquivo, fotos antigas e entrevistas, ficamos sabendo dos escândalos que permearam a carreira do ator e de seu único diretor, um homem que construiu todo um império baseado no sucesso de um rato animado.

A obra é um típico Mockumentário (documentário falso) em forma de quadrinhos que trabalha com paródias de figuras animadas que todo mundo conhece tratando-as como se fossem reais e pudessem interagir com os seres humanos ao seu bem entender.

Nesse ponto lembra muito Uma Cilada para Roger Rabbit, um filme de Robert Zemeckis produzido em 1988 que misturava atores reais com personagens animados numa comédia com jeito de filme de detetive.

Comparações terminadas aí, a HQ não é uma comédia. Ainda é uma obra de humor, porém contada num tom sério como um verdadeiro documentário. Escolha acertada do autor que acaba conquistando e divertindo o espectador por envelhecer e dar um ar de decadência aos personagens animados.

Com um narrativa linear que começa com a história de Dizzy Walters e elucida toda a trajetória dele e de Rickey, o álbum é cheio de participações especiais de celebridades do século XX e outros atores animados como Esgasguinho, Patonildo, Leon Rey e Pernalouca (pra mim a melhor participação).

Koslowski ainda consegue traduzir a personalidade das animações nas entrevistas e adaptá-las com sucesso ao mundo “real”, digamos assim.

Seu desenho é extremamente detalhista ao retratar as animações na época atual exaltando rugas, pelancas outras reentrâncias que envelheceram os personagens.

E como o álbum é todo em preto-e-branco ainda consegue exaltar mais os detalhes e é bastante competente mostrando fotos antigas que assumem um ar quase real, como se o autor simplesmente copiasse fotos verdadeiras (o que provavelmente aconteceu).

O principal escândalo da HQ é o chamado Ritual, feito por supersticiosos aspirantes a atores animados que achavam que Rickey fez sucesso por causa de seus três dedos. Já dá pra ter uma idéia, mas dizer mais que isso é estragar a surpresa pra quem pretende ler a HQ.


Uma boa HQ de humor (não-recomendada pra crianças) que funciona extremamente bem por causa de seu tom documental e por parodiar tentando dar um ar verdadeiro a personagens de nossas infâncias.

Recomendado.

Valeu!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Animê: Last Exile

O termo Steampunk foi cunhado no fim da década de 1980 pra definir histórias passadas no século XIX, mas com aparatos tecnológicos com base em vapor (daí o “steam”) e avançados demais pra época. 

Toda uma estética foi desenvolvida a partir de então e outras histórias que não se passavam no século XIX e muito menos na Terra puderam ser consideradas Steampunk por terem características do estilo. O animê (desenho animado japonês) Last Exile é uma delas.

Num mundo onde a água pura é escassa, a humanidade se abriga em cumes de montanhas e navios de guerra voadores são comuns, Claus Valca e Lavie Head são pilotos de Vanships ou Couriers (pequenos e velozes aviões de 2 lugares) que vivem de entregar mensagens e de participar de corridas na cidade onde vivem. 

Numa dessas corridas, um Courier abatido aparece de repente e o piloto, mortalmente ferido, pede que o casal assuma sua missão: levar a menina Alvis, alguns anos mais nova que os dois, até os cuidados de Alex Row, capitão do navio de guerra mais temido dos ares, o Silvana. A menina carrega consigo um grande mistério relacionado ao lendário Exílio, algo que existe dentro da região do planeta conhecida como Grande Fluxo, onde furacões e ciclones nunca cessam.

Apesar de não estar subordinado a nenhuma hierarquia militar, Alex Row navega com o Silvana em missão secreta para o imperador do reino de Anatoray, que há muito tempo está numa guerra com o reino vizinho Disith


Sua missão é tentar alcançar o Exílio para obter o segredo da tecnologia avançada da temida Guilda, uma sociedade a parte que vive em naves acima das nuvens agindo como juiz, júri e até executor para os reinos abaixo.

Essa é a sinopse mais resumida que consegui fazer pra dar apenas uma idéia da trama que permeia os 26 episódios do animê dirigido por Koichi Chigira e produzido pelo estúdio Gonzo (responsável por séries como Gantz, AfroSamurai, Full Metal Panic,  Samurai Girl e outros), que foi exibido em 2003 na TV japonesa e pouquíssimo tempo depois comprado pela TV americana.

Fugindo da tradição de começar primeiro nos mangás (quadrinhos japoneses) o desenho foi feito diretamente pra TV e apresenta um gigantesco investimento do estúdio que mesclou animação computadorizada em grande quantidade com a tradicional feita a mão. 

Ponto positivo para o trabalho dos desenhistas Range Murata e Mahiro Maeda que criaram desde talheres e objetos pequenos a cidades, figurinos e naves característicos dos três povos principais do animê. 

Tudo inspirado em estilos artísticos de países europeus no início do século XX. Segundo os próprios autores, o povo de Anatoray teve inspiração na Alemanha e os Disith na Rússia, por exemplo. Belíssimo trabalho de produção.

Como é comum nas tramas japonesas, a história começa bem simples, apresentando a dupla principal Claus e Lavie e aos poucos acrescenta outros personagens que vão se mostrando importantes e acrescentando complexidade a narrativa. 

Interessante é dizer que, como também é comum na Japão, mesmo os personagens aparentemente inócuos possuem motivações para fazerem o que fazem, ganhando profundidade e a simpatia do público conforme a história avança.
Um ponto negativo, se é que se pode dizer assim, é que os primeiros episódios gastam muito tempo na seqüência de situações que movem a trama só começando a apresentar algumas motivações, explicações ou mesmo desenvolvendo as relações entre os personagens depois de uns 7 ou 8 episódios. É quase como se os autores quisessem que o espectador se acostumasse com o mundo apresentado antes de explicar alguma coisa.

Ou seja, se você é um cara ansioso ou mesmo alguém que gosta de tudo mastigadinho esse anime não é para você. É claro que não é tão complexo e confuso quanto um Evangelion, por exemplo, mas, pra se ter uma idéia, todos os episódios são entitulados com referências a termos, movimentos ou peças do jogo de xadrez

Não existem muitas respostas óbvias na trama, que acaba se desenvolvendo numa ficção científica com colonização de planetas e terraformaçãomas fique tranquilo que tudo é explicado em algum momento do animê. 

Enquanto as respostas não vêm, existe uma grande chance de você ser conquistado e se pegar admirando o trabalho de produção, o design das naves, as emocionantes cenas de batalhas aéreas, as empolgantes corridas de Couriers (cheia de referências a Star Wars) e a simpatia dos personagens.

Um belo e instingante animê de ficção científica que se encaixa perfeitamente no gênero Steampunk e deve ser consumido pelos amantes do gênero sem moderação.

Ah! Ia me esquecendo: foi exibido aqui no Brasil pelo canal Animax em 2005 e é muito fácil de encontrar a ótima versão dublada disponível na rede.

Recomendado.

Valeu!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Filme: Amor & Outras Drogas

Toda atriz verdadeiramente talentosa tem um momento na carreira de esquecer o pudor e nos fazer felizes exibindo um pouco mais de sua intimidade por um papel. 

Algumas não dão muito certo como Leandra Leal e Paola de Oliveira (só pra citar filmes que eu já resenhei aqui), mas outras até que geram bons resultados como aconteceu com Anne Hathaway em Amor & Outras Drogas (Love and Other Drugs, 2011) do diretor  Edward Zwick.

Jamie (Jake Gyllenhaal) é um vendedor extremamente simpático e charmoso que, após ser pego com a mulher do chefe, acaba sendo demitido da loja de eletrônicos onde trabalhava. Vindo de uma família de médicos e sem vontade de terminar a faculdade, resolve aceitar a proposta do irmão de lhe conseguir um cargo como representante de indústria farmacêutica.
É trabalhando nisso que conhece Maggie (Anne Hathaway) uma jovem e alegre artista plástica que foi diagnosticada com Mal de Parkinson muito cedo. Fica logo interessado, mas Maggie só quer saber de viver relacionamentos baseados em sexo e quando Jamie começa a se apaixonar começam a aparecer os problemas.

O roteiro, escrito pelo próprio diretor com mais dois colaboradores, foi inspirado no livro Hard Sell: The Evolution of a Viagra Salesman de James Reidy que conta os bastidores da indústria farmacêutica e do lobby feito por elas na venda de remédios com ênfase na criação do Viagra nos anos 90. 

Com uma estrutura não-convencional para comédias românticas, a trama investe bastante tempo revelando os bastidores da venda e aceitação direta de novos remédios e inova ao conseguir fazer isso sem cansar o espectador, alternando explicações e discussões relevantes com as reações engraçadas e situações inusitadas vividas por Jamie ao adentrar nesse mundo novo. 

A película ainda consegue não tomar (muito) partido na guerra não-declarada entre essas empresas e o povo.

À todo momento médicos recitam os males de remédios prescritos sem necessidade e Jamie chega até a sofrer um efeito colateral do Viagra em uma seqüência. Tudo, é claro, mostrado sem sair do tom leve e divertido do filme.

Seria bom se o roteiro conseguisse manter esse charme inesperado o tempo inteiro, mas acaba não conseguindo fugir da fórmula de comédias românticas em seu terceiro ato, apelando pra cartilha: separação-reecontro-sacrifício-reaproximação-felicidade.

É claro que até chegar nesse final cafona, o espectador provavelmente já estará cativado pela simpatia de Jake Gyllenhaal e pelo carisma e sensualidade de Anne Hathaway, que esboçam uma química bem convincente na telona.

Voltando a frase inicial dessa resenha, o destaque de atuação vai pra Hathaway, a estrela do filme com seus olhos gigantescamente expressivos que ainda consegue esbanjar sinceridade tanto nas cenas com roupa quanto nas que está sem (e não são poucas).

A quem se perguntou: não há nu frontal ou mesmo cenas de mau-gosto, mas peitos descobertos e bunda aparecendo são recorrentes.

A direção competente de Zwick não tem virtuosismos de edição ou jogo de câmeras, preferindo (acertadamente) assumir sempre planos mais comuns e deixar todo o trabalho de contagem da história e conquista do espectador nas mãos dos atores.

Como o filme se passa em 1996, há uma tentativa da direção de arte para recriar a época fazendo Jamie carregar pagers e celulares grandes ou mesmo fazendo Maggie vestir roupas rasgadas e com estampas xadrez, mas não vai muito além disso e logo o espectador se esquece que o filme se passa nos anos 90.

Uma pena, pois uma época cultural tão heterogênea merecia ser melhor retratada na telona.

Um filme bem divertido que informa e incita a discussão sobre a indústria farmacêutica, regado com várias cenas de sexo e que você só vai lembrar que é comédia romântica no final.

Recomendado.

Valeu!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Filme: O Mágico

Jacques Tati (1907-1982) foi um ator e diretor francês que fez grande sucesso no cinema da década de 50 a 70. Começando a vida artística como mímico, evoluindo para comediante de palco e só então cineasta, seus filmes se caracterizam por dominar o humor inocente e sem palavras

Isso pode ser comprovado em seus maiores sucessos como As férias do Sr. Hulot (1953), Meu Tio (1958) e outros filmes que inspiraram toda uma geração que veio depois dele.

O personagem Mr. Bean, interpretado por Rowan Atkinson, por exemplo, é quase uma cópia do Sr. Hulot que Tati representou várias vezes no cinema.

Falecido em 1982 após amargar seus dois últimos filmes quase fracassarem nas bilheterias, ele agora retorna, ao menos em idéia e espírito numa adaptação e homenagem de Sylvain Chomet, responsável pelo longa-animado O Mágico (L'illusionniste, 2010) produção conjunta da França e Reino Unido. 

Tatischeff é um mágico ilusionista de meia-idade que começa a perder trabalhos por causa do surgimento de bandas de rock na Europa da década de 60. Apresentando seus shows em eventos cada vez menos badalados, ele acaba indo parar no interior da Escócia onde encanta a adolescente Alice que, acreditando ser ele um verdadeiro mago, decide deixar a pequena ilha onde morava para acompanhá-lo. Como a menina não tinha um tostão no bolso, caberá ao modesto e bondoso ilusionista sustentá-la enquanto enfrenta a constatação que talvez o mundo moderno não tenha mais lugar pra alguém como ele.

Inspirado num roteiro jamais filmado do próprio Tati, a história surpreende em dois aspectos: quase não ter falas e por não fazer concessões a padrões animados de final feliz pra todos.

A dura realidade da forçada mudança de perspectiva sofrida pelo mágico está presente em todo filme, que é contado com bastante sensibilidade, bom-humor e melancolia.

Num determinado momento do filme Tatischeff se hospeda num hotel onde convive com outros artistas como ele, cujos arcos acabam se revelando mais tristes do que se poderia imaginar num desenho animado.

A(s) seqüência(s) de desilusão do palhaço e o reencontro do mágico com o ventríloquo são exemplos de como alguns podem encarar negativamente o fim da própria carreira. O que não acontece com os trigêmeos trapezistas que trataram de manter o otimismo e se reinventar mesmo que seja atrás dos holofotes.

O mágico faz várias tentativas durante o filme, algumas gerando seqüências bem engraçadas como a da garagem noturna e a da vitrine da loja. 

Seu relacionamento com Alice, cuja motivação só é revelada no último quadro da película, também gera cenas hilárias como a do cozido de coelho. 

O fim do filme, sobretudo, é bastante emblemático trazendo o ilusionista de cabeça erguida, mas encarando um futuro incerto pela frente.

Destaque para a seqüência em que Tatischeff entra acidentalmente num cinema e dá de cara com o próprio Jacques Tati, cujo visual foi inspiração pro personagem animado, no filme que está sendo veiculado na telona.

Com um estilo simpático, caricato e bastante incomum no desenho de personagens, que lembra muito o último filme de Chomet, o premiado As bicicletas de Belleville, O mágico demonstra alguma evolução na animação desde 2003 pra cá. 

Isso é visível em cenas com muitos personagens, como a da taverna escocesa, onde as figuras ganham vida e personalidades individuais através de ações e trejeitos específicos. Tem-se que rever a cena várias vezes para prestar atenção no cada um está fazendo.

Outro ponto importante é a mistura quase imperceptível das animações em 2D dos personagens e figuras vivas com a perfeita integração da renderização em 3D de veículos, cenários e objetos de cena.

Talvez a gigantesca Disney pudesse aprender uma ou duas coisas com os franceses que ainda se aventuram nos desenhos em que o computador não é o principal elemento de animação.

Ponto positivo para a trilha sonora original composta pelo próprio Chomet, que tem grande destaque e responsabilidade ao ajudar a contar a história numa película de pouquíssimas palavras. É a grande responsável pelo tom melancólico do filme.

Uma animação que foge dos padrões e encanta pelo nível de realidade e sensibilidade com que a história é contada.

Recomendada pra todas as idades.

Valeu!
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