Se seu comentário não aparecer de imediato é porque eles são publicados apenas depois de serem lidos por mim.
Isso evita propagandas (SPAM) e possíveis ofensas.
Mas não deixe de comentar!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Desenho: Os Vingadores - os super-heróis mais poderosos da Terra

A compra da Marvel Entertainment pela Walt Disney Company deu muito o quê falar em 2009. Muitas especulações foram feitas e vários artistas deram sua visão do que seria um novo universo de personagens. 

Encontro Disney-Marvel
Brincadeiras a parte, o importante pra nós espectadores são os resultados dessa parceria que só em meados do ano passado começaram a chegar ao grande público.

A animação para TV da Marvel Animation, Os Vingadores: Os super-heróis mais poderosos da Terra (The Avengers: Earth's Mightiest Heroes, 2010), veiculada pelo canal Disney XD é o primeiro fruto dessa união e uma grata surpresa tanto para novos quanto para os fãs de longa data.

As quatro prisões mais avançadas dos EUA sofrem pane em seus sistemas, provocando fugas em massa dos vilões mais perigosos do planeta praticamente ao mesmo tempo. Caberá aos super-heróis mais poderosos da Terra se unirem pela primeira vez para caçar os bandidos e descobrirem quem armou essa ameaça. 

Homem-de-ferro, Thor, Hulk, Homem-formiga e Vespa estrelam os primeiros episódios e só depois (num benvindo respeito a cronologia dos quadrinhos) recebem o reforço de Capitão América, Pantera Negra e Gavião Arqueiro que com a ajuda (nem sempre de boa vontade) da organização militar S.H.I.E.L.D. vão enfrentar a organização terrorista H.I.D.R.A. e vilões como Kang, Líder, Barão Zemo, Loki e vários outros.

Uma série que remete ao heroísmo clássico e consegue juntar esplendidamente referências as várias das fases que o supergrupo teve nos quadrinhos e aproveita muitas das situações já desenvolvidas nos filmes do Hulk e, principalmente, do Homem-de-ferro para apresentar os personagens.

São 26 episódios na (já terminada lá fora) primeira temporada, com mais 26 encomendados para a segunda temporada. 

Tudo planejado pelo roteirista Christopher Yost, que mostra ter realizado um ótimo trabalho de pesquisa ao utilizar nas histórias quase que somente personagens que teriam sido criados nos quadrinhos, desde vilões obscuros a heróis esquecidos na cronologia atual. O currículo do escritor não é muito extenso, mas apresenta trabalhos significativos na boa série animada X-men: Evolution (de 2002) e em algumas histórias para os quadrinhos oficiais da Marvel Comics.

Yost e sua equipe de roteiristas ganham pontos por desenvolver uma trama quase unificada que mantém o pique até o último episódio com várias sub-tramas ao longo da narrativa. 

O Capitão América, por exemplo, estrela uma história do passado no episódio 6, mas só vai se juntar aos Vingadores no episódio 9. 
Nesse mesmo episódio 6 aparece também Kang, o conquistador, que só voltaria no episódio 17. 
O robô Ultron aparece em vários episódios do início, mas só revela sua verdadeira faceta no episódio 22 e assim por diante.

Tudo isso mostra a preocupação que se teve com a história, o que também ocorre com a personalidade individual de cada um dos heróis. 

Temos o carisma cafajeste do Homem-de-ferro, a honra cavalheiresca de Thor, a raiva e esquizofrenia de Bruce Banner/Hulk, a liderança e inadequação do Capitão América, a calma e capacidade de estratégia do Pantera Negra, o amor pela ciência e o pacifismo do Homem-formiga, a intuição e impulsividade de Vespa e a impaciência e determinação do Gavião Arqueiro.

Outro ponto positivo é o estilo do desenho que com certeza foi copiado de animações de sucesso da DcComics (eterna rival da Marvel) como Batman (1992-1995), Superman (1996-2000) e Liga da Justiça (2001-2004), provavelmente apostando na familiaridade do espectador com o traço e na facilidade de animação pela simplicidade do estilo.

Se tiver que citar um fator negativo seria a simplificação das adaptações de algumas tramas da cronologia atual dos quadrinhos para a telinha, mas isso já era esperado num desenho que tem como alvo o público infanto-juvenil e, pelo que já foi citado, com certeza só vai desapontar mesmo aquele tipo de fã mais chato dos quadrinhos.

Uma grande animação com foco no público adolescente que aposta em tramas (levemente) complexas com um bom desenvolvimento de personagens e que serve de preparação para o filme dos Vingadores prometido pra estrear nos cinemas em 2012.

E que venha a segunda temporada do desenho.

Recomendado.

Valeu!

domingo, 1 de maio de 2011

Filme: Thor

A Marvel finalmente começa o que há alguns anos parecia impossível: construir um universo de super-heróis conciso como o dos quadrinhos no cinema.

Sua mais recente incursão nessa empreitada é Thor (2011) dirigido por Keneth Branagh. 

Jane Foster (Natalie Portman) é uma astrofísica que investiga o surgimento de auroras-boreais na noite do Novo México quando, após um evento inexplicável, atropela no meio do deserto um mendigo musculoso que se intitula Thor (Chris Hemsworth). 

Logo é mostrado que Odin (Anthony Hopkins), senhor de Asgard, derrotou e expulsou os Gigantes de Gelo da Terra há mais de mil anos atrás e foi conclamado um deus pelos povos nórdicos da época. 

Criando Thor e Loki (Tom Hiddleston) como irmãos ele tentou coroar o primeiro, mas este se mostrou despreparado pra governar e, depois de uma série de julgamentos mal-feitos (com a influência do irmão) que levaram a promessa de guerra entre reinos, é mandado como castigo para a Terra sem força, poderes e armas. 

Caberá a Jane ajudá-lo a recuperar sua força e voltar a Asgard para impedir a guerra e enfrentar o irmão.

O roteiro, baseado numa história de J. Michael Straczynski e Mark Protosevich, apresenta a origem do personagem de quadrinhos baseado na mitologia nórdica como criado por Stan Lee e Jack Kirby para a Marvel Comics há quase 50 anos.

Tem sucesso em conseguir equilibrar as seqüências de ação com a carga dramática, principalmente nos conflitos entre Odin e Loki, mas falha ao aprofundar muitos dos personagens e ao resolver os conflitos de Thor, o personagem principal, de forma muito rápida e trivial. 

Basta apenas uma noite na Terra e meia dúzia de sorrisos para Jane Foster pra Thor virar o defensor dos humanos. 

Tirando isso, a trama até apresenta um bom desenvolvimento com destaque para as atuações de Sir Anthony Hopkins, que consegue passar toda a força, fragilidade e amor de Odin pelos filhos quando necessário, e também para Tom Hiddleston, como Loki, cujo semblante contido e carregado revela toda a dor de um personagem que se desenvolve esplendidamente num vilão durante a narrativa.

Não que o ator Chris Hemsworth, que interpreta Thor, faça feio em seu trabalho, mas o personagem, um guerreiro arrogante e egoísta, não teve um roteiro que exigiu muito dele. 

O mesmo poder ser dito de Natalie Portman, que depois de ganhar o Oscar por Cisne Negro, não faz muita força pra interpretar uma Jane Foster pessimamente desenvolvida pela trama.

Destaque para as cenas de ação e para o belíssimo visual da cidade de Asgard, um deslumbramento elaborado pela equipe do filme com muito esmero.

O filme, apesar de poder ser apreciado por qualquer um, acaba se tornando um prato cheio pra fãs dos quadrinhos com menção a várias das fases do gibi, como a que Thor assumiu a identidade do médico Donald Blake.

Além, é claro, de contar com a participação da agência militar secreta S.H.I.E.L.D.(que já apareceu nos filmes do Homem-de-ferro), com pontas de personagens como Clint Barton (o herói Gavião Arqueiro), com referências a radiação gama (que criou o Hulk) e menções a artefatos como o Cubo cósmico. 

Tudo isso mostra a concisão do universo cinematográfico e a preparação para um cada vez mais certo filme dos Vingadores, equipe que reune os já desenvolvidos na telona: Hulk e Homem-de-ferro, além de Thor e Capitão América (cujo filme está sendo finalizado).

Um conto de inveja entre irmãos e uma conturbada relação familiar permeado por grandes cenas de ação e paisagens de tirar o fôlego é o que esperar de Thor.

Recomendado.

E que venham os Vingadores!

Valeu!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Quadrinhos: Hellblazer - Pandemônio

John Constantine é um verdadeiro filho da p#$@. 

Politicamente incorreto, fumante inveterado, beberrão, ardiloso, zombeteiro, cheio de lábia e manipulador são alguns dos adjetivos comumente atribuídos a ele que é o anti-herói por excelência.

Dono de um passado que envolve a liderança de uma banda de Punk Rock, invocações de demônios mal-feita, uma visita involuntária ao inferno, dois anos de internação num hospício e perda de vários amigos pra uma maldição, Constantine vive tendo que aplicar seu conhecimentos das artes arcanas acumulados em todos esses anos pra tirar amigos de enrascadas ou salvar a própria pele.

Criado por Alan Moore (V de Vingança, Watchmen) em 1985 pra ser coadjuvante numa nova fase do Monstro do Pântano, o mago inglês (idealizado com a cara do cantor Sting) viria a ganhar revista própria alguns anos mais tarde.

Os 23 anos de publicação da revista mensal (na edição 278 nos EUA) pela DcComics americana comprova o sucesso do personagem que já teve publicados vários especiais, minisséries e participações que fez em outros quadrinhos ao longo dos anos. Sem falar no filme de 2005, estrelado por Keanu Reeves.

Arte de Rick Veitch em 1985
Junto com o Monstro do Pântano de Alan Moore e o Sandman de Neil Gaiman foi um dos que ajudaram a fundar o selo VERTIGO (de quadrinhos adultos) da editora em 1993.

É óbvio que com tantas edições e histórias, existem várias fases diferentes do personagem dependendo da equipe criativa por trás dele, mas algumas características são mantidas.

As principais são seu inseparável sobretudo (ou capote) e o fato de John recorrer a magia somente em último caso, preferindo depender de sua própria astúcia e charme pessoal para sair da maioria das situações na base da conversa. Mas é claro que nem sempre isso é possível.

Seu primeiro escritor na revista própria foi Jamie Delano que estabeleceu os principais pontos do passado sofrido do personagem tornando-o mais humano. É Delano que retorna agora numa história escrita pra edição especial de 25 anos do personagem lançada em março pela Panini editora aqui no Brasil.

John Constantine: HellBlazer – Pandemônio (132págs, 2010) é uma história completa que traz Constantine de visita ao Iraque após a Guerra do Golfo e a queda de Saddam.

Depois de um sonho premonitório com tanques de guerra, jogos de azar e mulheres com cabeça de leão, John encontra uma misteriosa muçulmana de burca (peça de roupa que só deixa visível os olhos) no metrô de Londres. 

Vai atrás dela e se vê envolvido num atentado terrorista. Descobrindo ser tudo um esquema do governo, John é ameaçado e mandado ao Iraque para ajudar no interrogatório de um prisioneiro.

Tudo porquê ninguém consegue ficar na mesma sala com o homem por muito tempo sem sofrer algum tipo de ataque de pânico involuntário com conseqüências bem nojentas. É quando John se vê no meio de um jogo entre demônios, D´jinns (gênios) e deuses sumérios esquecidos que pode custar sua vida.

O roteiro de Delano é bastante crítico e atual, tendo sucesso ao fazer John destilar comentários ácidos sobre a suposta segurança almejada pela constante vigilância imposta aos ingleses pelo medo após os atentados de 11 de setembro.

Uma ligação com o caso do brasileiro Jean Charles, morto por policiais londrinos ao ser confundido com um terrorista, por exemplo, pode ser feita.

A trama também promove o retorno de um demônio velho conhecido de Constantine, mas fica a dever na aparição das divindades sumérias que poderiam ser melhor aproveitadas (ou contextualizadas) por parte do autor, ou mesmo com um glossário por parte dos editores.

Delano também parece definir abertamente a idade do mago inglês (algo raramente feito com um personagem de quadrinhos tão duradouros) como algo próximo aos 60 anos (mas com corpinho de 40), ao contextualizar um flashback de sua infância no fim de década 1950. É bem provável que a editora reveja isso em pouco tempo já que o personagem não tem nenhuma previsão de cancelamento.

Os desenhos do escocês Jock (pseudônimo de Mark Simpson) são um caso a parte. Num estilo anguloso quase surrealista que lembra bastante Bill Sienkiewicz (artista de Elektra Assassina), Jock se destaca, entre outras coisas, pela divisão irregular de quadros na página que dão bastante dinâmica a narrativa. 

Sua escolha de cores que dominam ambientes e, as vezes páginas inteiras, são o ponto forte do álbum. Ajudando a criar e estabelecer os climas inóspitos dos lugares que John visita, desde o verde frio de Londres, passando pelo marrom claro e seco do deserto ao vermelho desesperador do inferno.

Uma boa história do personagem que mesmo sendo um filho da p#$@, ainda consegue estar no coração de muitos leitores por discutir temas relevantes como segurança, ética, guerra, tortura, responsabilidade social e vingança, demonstrando que o mago inglês desbravador do inferno (Hellblazer) ainda tem força pra mais 25 anos de sucesso.

Recomendado.

Valeu!

domingo, 27 de março de 2011

Filme: TRON- O Legado

Admito que fiquei com medo de assistir esse filme. Minha expectativa era grande, mas o excesso de críticas ruins me fez adiar a apreciação do filme até agora. 

E, justiça seja feita, TRON: O Legado (TRON: Legacy, 2010) dirigido pelo estreante Jospeh Kosinski, não é um filme ruim.

7 anos depois de sua aventura no mundo virtual (retratada no filme de 1982), o programador Kevin Flynn (Jeff Bridges) desaparece misteriosamente deixando sua empresa ENCOM e seu filho Sam Flynn (Garrett Hedlund) ao julgo do destino. Passados 20 anos desde seu desaparecimento, seu amigo Alan (Bruce Boxleitner) recebe uma mensagem eletrônica e avisa Sam que o pai pode estar vivo.

O jovem Flynn vai ao antigo fliperama do pai e é transportado para o mundo virtual onde descobrirá uma conspiração do programa CLU (um jovem Jeff Bridges) para tomar de assalto o mundo virtual e até o real.

Roteirizado a quatro mãos por Edward Kitsis e Adam Horowitz, responsáveis por vários episódios da série LOST, o filme tem uma trama bem estruturada em termos de filme de ação, porém bastante superficial dada às implicações que a existência de um mundo virtual praticamente independente poderia trazer. 

O primeiro filme foi uma verdadeira revolução digital pelo pioneirismo no uso de computação em larga escala em sua pós-produção e fez bastante sucesso por isso, mas também compartilhava do mesmo problema de roteiro. O que não foi grande coisa na época já que o mundo computadorizado apenas começava a ser explorado no cinema.

Hoje em dia, com tantas produções sobre mundos virtuais já produzidas (vide Matrix e outros), esse TRON: O Legado já chega datado por seu roteiro que se preocupou mais em homenagear o filme de 1982 do que situar a trama num mundo mais palpável.

Apesar disso consegue empolgar na atuação de Jeff Bridges em três papéis bastante distintos: o empreendedor Kevin Flynn de 1989, o invejoso vilão CLU e o quase “mestre-zen” do Kevin Flynn atual.

Boa composição do ator que, ajudado por seu rejuvenescimento digital, cativa em todas as cenas que aparece.

Grande fase de Bridges, que tem tido várias indicações a prêmios nos últimos dois anos, inclusive ganhando o OSCAR em 2010 por outro filme.

Outro ponto empolgante é a trilha sonora da dupla francesa Daft Punk que, emulando sons eletrônicos dos anos 1980, consegue criar músicas que homenageiam a trilha original e concebem perfeitamente a emoção de cada cena.

Prato cheio não só pra quem gosta de música eletrônica, mas também pra quem viveu a época homenageada. 

Mas o principal mesmo é o visual do filme.

Atualizando os efeitos do primeiro, esse filme impressiona bastante pela paleta de cores escolhida, por rejuvenescer as cenas de ação do filme anterior e por criar muitas novas seqüências computadorizadas na pós-produção.

Seqüências que, se não se destacam pelos detalhes ou pelo nível de computação gráfica utilizada, causam um grande impacto visual no espectador.

Um bom filme de ação, que apesar do roteiro fraco, se destaca pela atuação de seu protagonista, pelos efeitos e pela empolgante trilha sonora com apelo oitentista.

Não é uma maravilha da sétima arte, mas valeria o ingresso pra ver no cinema.

Recomendado.
Valeu!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Livro: Crônicas do Mundo Emerso 1 - A Garota da Terra do Vento

A Fantasia é um gênero literário que após um período de baixa voltou com força total no final dos anos 1990 com o sucesso de livros como Harry Potter e versões em filme de O Senhor dos Anéis. 

Desde então surgem a cada dia novos autores que almejam alcançar apenas metade do sucesso de J.K. Rowling e J.R.R. Tolkien. 

E com essa verdadeira avalanche de novos títulos, trilogias e infindáveis séries nas livrarias, até agora pouquíssimos conseguiram. Principalmente devido a qualidade extremamente duvidosa desses novos textos.
 
Não é o caso da italiana Licia Troisi, formada em Astrofísica, que publicou em 2004 o primeiro dos livros da trilogia Crônicas do Mundo Emerso - A garota da Terra do Vento (320págs.) lançado pela Editora Rocco em 2006 aqui no Brasil. 

Nihal é uma menina de 12 anos que quer ser uma guerreira. Sempre se destacou pela força e resistência, sem falar nos cabelos azuis, orelhas pontudas e olhos cor de violeta. Morando na cidade-torre de Salazar, uma das maiores da Terra do Vento, ela foi criada desde bebê pelo ferreiro Livon, mestre em confecção de armas e veterano de muitas batalhas. 

O que ela não imagina é que é a última semi-elfa viva no Mundo Emerso (um continente com nove terras habitadas), e seu desejo de lutar vai levá-la a conhecer magos e ninfas, cavalgar com cavaleiros-dragão, viajar pra terras distantes, descobrir suas origens e perder entes-queridos. Tudo isso antes de conseguir, com muito custo, ser treinada como guerreira e vislumbrar o mal que a guerra faz. 

Guerra essa movida pelo misterioso Tirano, que ao conquistar a Grande Terra (o território central do continente) com seu exército alguns anos atrás, se move sistemática e violentamente por outras terras destruindo e matando tudo que se opõe a ele.

Mapa original da autora
Com uma construção de mundo digna de um Tolkien (com direito a mapa do continente e tudo), a autora se inspira no mestre em vários momentos pra redigir sua trama. Não dá pra ler sobre o Tirano e não lembrar de Sauron, por exemplo. 

Mas ela acaba se distanciando do autor de Senhor dos Anéis ao não dar tanta ênfase a descrições (extremamente) detalhadas de ambientes e focar mais na ação.

Isso acaba sendo um ponto bastante positivo, pois dinamiza a narrativa que pode ser assimilada rapidamente sem perda de entendimento ou esquecimento de nomes de pessoas ou lugares da história.

E mesmo com uma trama um pouco batida, em que seis anos se passam do início ao fim do primeiro volume, a autora consegue inovar principalmente ao trazer uma personagem feminina como centro da narrativa.

Nihal foi criada por um homem e sempre viveu no meio masculino, criando uma espécie de defesa psicológica desenvolvendo jeito, sonhos e irascibilidade de menino, mas conforme cresce vai descobrindo sua própria fragilidade. 

Não são raros os momentos em que chora, mas sempre depois de lutar, enfrentar desafios e se provar pros outros e pra si mesma.

Ela termina esse primeiro livro aos 18 anos e, depois de matar muitos Fâmins (uma espécie de ogro ruivo criado pelo Tirano), acaba tendo um vislumbre de sua própria feminilidade.

Essas primeiras Crônicas são compostas de três livros que aparentemente (já que ainda não li outros) fecham a história de Nihal, mas a série é um sucesso tão grande na Itália que Licia Troisi já escreveu mais duas trilogias que se passam nesse mesmo universo enfocando personagens e épocas diferentes.

Outro indicador de seu sucesso são as adaptações em quadrinhos do livro lançadas pela Panini Editora na Itália e o jogo de computador baseado na história de Nihal sendo desenvolvido atualmente. (Mais detalhes em http://www.cronachedelmondoemerso.it/home)

Um belo estudo de personagem inserido numa trama de fundo fantasioso e medieval é o que esperar desse primeiro volume.

Fiquei com muita vontade de ler os próximos.

Recomendado!

Valeu!

Ps.: Pra quem quiser saber mais sobre a série:
Site especial da Rocco pros livros (em português): http://www.mundoemerso.com.br/
Site oficial da autora (em italiano e inglês): http://www.liciatroisi.it/
Blog de fã com quadrinhos e várias informações (em português): http://mundoemersobr.blogspot.com/

quinta-feira, 17 de março de 2011

Filme: Bruna Surfistinha

Tirando uns pequenos problemas com drogas, deve ser fácil ser uma garota de programa. 

É o que concluí após a sessão de Bruna Surfistinha (2011), primeiro longa-metragem do diretor Marcus Baldini.

O filme é baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, best-seller de 2005 onde a ex-garota de programa Raquel Pacheco (que ficou famosa em 2004 por criar um blog de histórias de clientes) conta parte de sua trajetória, motivações e curiosidades de programas que fez como a prostituta Bruna Surfistinha.

Estruturado de forma episódica, o filme mostra Raquel (Deborah Secco) antes de ser prostituta, entrando pra “vida”, aprendendo a profissão, montando seu flat, conhecendo as drogas, criando o blog, fazendo sucesso e sendo dominada pelas drogas até se esgotar.

Apesar de conseguir divertir em muitos momentos, o roteiro peca por não detalhar a motivação dos personagens. 

A voz de Deborah Secco narra boa parte da história, mas mesmo assim depois que você sai do cinema fica com dificuldade de lembrar porque ela começou a ser prostituta.

Existe até um esboço de explicação que não é desenvolvido (como a indiferença do pai e o ódio do irmão), sendo sumariamente abafado por outros aspectos.

Aspectos esses que ele aborda melhor, como a diversidade de clientes, o relacionamento entre as prostitutas, as dificuldades da carreira e o malefício das drogas.

Além da falta de motivação, outro aspecto negativo é que, mesmo tendo o sexo como pano de fundo, o filme pouco menciona a questão da responsabilidade sexual, as paixões das prostitutas e gravidez indesejada além de ignorar completamente qualquer tipo de DST.

Ou seja, tirando um ou outro sonho, aspiração ou problema com droga, o filme apresenta um olhar bastante machista sobre o assunto visto que as garotas de programas do filme são quase robôs sexuais, transando muito e praticamente sem reclamações.

Sem falar na parte final que lembra aquelas histórias de ascensão-queda-retorno como se a personagem fosse algum tipo de artista, político ou mesmo estrela da música que aprende a lição e muda completamente no fim, o que não ocorre aqui, afinal ela tem uma meta a cumprir.

O que salva o filme é sem dúvida o elenco muito bem escolhido com atores talentosos ou ao menos carismáticos que mantém os olhos do espectador pra tela. 
 
Deborah Secco está lindíssima como Bruna Surfistinha e sua transformação de adolescente tímida a mulher-fatal é bastante admirável. Belo trabalho de composição da atriz que, mesmo com tantos problemas de roteiro, consegue tornar o filme assistível. 

Atuação elogiosa também de Cássio Gabus Mendes, que como Huldson, consegue fazer milagres pelo papel pouco desenvolvido.

Mas o destaque mesmo vai pra Drica Moraes, como a cafetina Larissa, que rouba sempre as cenas em que aparece com suas expressões e jeito de falar bem peculiares, conseguindo imprimir realidade e profundidade a uma personagem escrita no limite do cartunesco. Uma atriz acostumada com comédias que merecia mais papéis dramáticos no cinema.

O filme ainda tem uma boa direção de fotografia que faz questão de mostrar os corpos nus tanto das garotas quanto dos homens em diferentes posições e modalidades sexuais em eterno contraste entre o belo, o feio e o aceitável.

Um filme bastante razoável cujo roteiro funciona melhor como pequenas anedotas episódicas e falha como narrativa longa, sendo salvo pelo talento e carisma dos protagonistas que carregam o filme nas costas.

Valeu!

sábado, 12 de março de 2011

Animação: Rango

Ótimo faroeste + Boa comédia + Bela animação infantil = Rango (2011), o novo filme do diretor Gore Verbinski, responsável pela franquia Piratas do Caribe, e a primeira animação em longa metragem produzida pela IL&M, produtora de George Lucas, o criador de Star Wars.

Rango é um solitário camaleão doméstico com aspirações a dramaturgo e ator que sofre um acidente de carro e acaba perdido no meio do deserto de Nevada. Vai parar na cidadezinha de Poeira, onde outros animais vivem no estilo do velho oeste e, numa tentativa de re-inventar, se torna o xerife da cidade, que sofre com políticos corruptos, criminosos violentos e, principalmente, a falta de água.

O roteiro de John Logan é redondinho e segue a cartilha das animações infantis a risca com a jornada do herói cheia de personagens marcantes. Surpreende por conseguir integrar as piadas e homenagens (que não são poucas) de forma orgânica à narrativa, ou seja, não há desvio na trama principal somente para uma única piada como é feito em várias comédias populares da atualidade.

Outro ponto importante é o texto, bem mais elaborado que o de animações infantis comuns, o que soa como um elemento coringa no filme, podendo conquistar mais adultos do que crianças.

O fato de Rango ser um aspirante a ator, por exemplo, rende um ótimo momento metalingüístico no início do filme que provavelmente pouquíssimas crianças entenderão.

Caracterização perfeita que abusa de cores sóbrias nos rostos sujos e roupas surradas no primeiro ato para ilustrar belamente a dificuldade passada pelos habitantes da cidade, que acabam entrando em contraste com o tom vivo das roupas e pele de Rango e mudando gradativamente a paleta de cores conforme o filme avança.

A animação, muitíssimo bem trabalhada, impressiona absurdamente no nível dos detalhes de cada personagem. É possível, por exemplo, ver cada ruga da tartaruga Prefeito ou cada pêlo no rosto do coala Seu Colher, só pra citar alguns exemplos.

Os detalhes impressionam tanto que, ao final da sessão é inevitável que se pense que, fazendo algumas adaptações, a animação funcionaria muito bem com seres humanos no lugar de animais.

A fotografia ajuda muito nesse sentido. Destaque para as cenas de cavalgada sob o Sol ou sob a Lua ou mesmo aos enquadramentos em horas de crepúsculo. Todas grandes homenagens aos antigos faroestes.

Voltando as homenagens, elas estão por todo o filme e vão desde aparições do jornalista Hunter S. Thompson e do ator Clint Eastwood, passando pela caracterização dos vilões (imagens cuspidas de John Houston e Lee Van Cleef), até o toque da Cavalgada das Valquírias na seqüência de perseguição com morcegos.

A trilha sonora é um caso a parte, toda trabalhada em clássicos de faroestes italianos, favorece bem a tensão e expectativa de cada cena. Extremamente empolgante!

Uma grande animação da IL&M que, com o olhar sensível de Verbinski, pode conquistar crianças e, principalmente, a adultos com suas várias referências a faroestes e comédias antigas muitíssimo bem adaptadas a realidade atual.

Recomendado!

Valeu!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 
Tweet