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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Filme: Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds)

Era uma vez na França ocupada pelos nazistas...

É a frase que estampa um dos posteres e começa o filme Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), o novo do diretor Quentin Tarantino, responsável por filmes de sucesso como Pulp Fiction, Um Drinque no inferno e Kill Bill.

Bastardos Inglórios também é o nome do grupo especial, que na história é formado de soldados judeus do exército americano, cujo único objetivo é matar nazistas.

Shosanna (Mélanie Laurent) é uma jovem judia-francesa que teve toda a família morta pelo coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz) e vive disfarçada como dona de cinema na Paris do ano 1944.
Está apenas tentando ganhar a vida quando recebe a proposta de fazer no seu cinema uma pré-estréia com a presença de todo alto-escalão do exército nazista. Não quer deixar a chance de vingança passar.
O tenente do exército americano Aldo Raine (Brad Pitt), conhecido como o Apache, também promete não deixar seus Bastardos ficarem fora dessa.

Com um roteiro escrito pelo próprio Quentin Tarantino, o filme destila ação inconseqüente, diálogos intelectuais e homenagens a filmes da década de 20 e 30.

Bom pra ver que Tarantino continua em forma.

Tanto nos absurdos, nada reprováveis, de suas tramas, quanto na verborragia presente em seus roteiros.

Por exemplo, a primeira seqüência do filme dura uns 15 minutos sendo 90% dele só de diálogos. É o diálogo mais longo do filme que serve para apresentar o personagem do coronel Hans Landa, grande vilão do filme, e a motivação da personagem Shosanna. Desnecessário dizer que termina de forma trágica.

Talvez assim pudéssemos definir os filmes de Tarantino, várias seqüências de diálogos que terminam num arroubo de ação onde morre muita gente. Mas é claro que não é só isso.

Ele é um grande mestre em mexer com as emoções do público, não tendo pena em apresentar personagens, colocá-los em situações que despertem a simpatia do espectador para depois acabar com eles sem dó nem piedade.
Por exemplo, a participação inglesa na história foi muito alongada, ficando meio solta no propósito geral do roteiro. Provavelmente o objetivo foi mostrar o personagem de Winston Churchill e destilar o conhecimento do autor sobre cinema alemão. Além da participação especial do comediante Mike Mayers, claro. Tudo, a meu ver, desnecessário para a trama central.

Atuações medianas, porém acertadas de todo o elenco, em especial de Christoph Waltz que consegue cativar e chocar o público ao mesmo tempo com a genialidade e crueldade de seu personagem.

Em menor grau, o destaque é a francesa Mélanie Laurent pela frieza, fragilidade e força de sua Shosanna.

Ao contrário do que transparece, Brad Pitt não tem muito tempo de cena, o que é uma pena, pois seu personagem Aldo, cheio de sotaques e trejeitos lingüísticos, merecia um melhor aprofundamento por parte do roteiro.

Direção competente que constrói a tensão do roteiro em movimentos de câmera reveladores e nos planos detalhes de rostos e objetos importantes para a trama.
A cena em que um filme é projetado na fumaça ao fim de película é simplesmente magnífica.

Grande homenagem de Tarantino a filmes antigos ou um filme sobre o cinema, como diria o crítico Pablo Villaça (@pablovillaca) , editor do site CinemaemCena.

Grande trilha sonora com muitas músicas que remetem a clássicos do faroeste, o que já se tornou marca do autor, inclusive com canções de Ennio Morricone, grande compositor de trilhas para filmes de cowboy.

Apesar de se passar na 2ª. Guerra Mundial, não há preocupação nenhuma do autor em preservar a verdade histórica, a frase que inicia o filme e o final da pélicula deixam isso evidente, mas ele consegue entreter o público como ninguém.

Um bom filme, que não chega a ser o melhor da carreira de Tarantino, mas diverte bastante com seus diálogos tensos,  ação abrupta e trilha sonora instigadora.

Recomendado.

Valeu!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Filme: 500 dias com ela (500 days of Summer)

Quem nunca fantasiou com o amor?

Alguns dizem que todos temos alguém certo pra encontrar, uma alma gêmea.
Outros dizem que não passa de um mito inventado para estimular a reprodução da nossa espécie.

São duas opiniões contraditórias, cada uma defendida por uma parte do casal do filme 500 dias com Ela (500 days of Summer, 2009) do diretor Marc Webb.

Roteirizado por Scott Neustadter e Michael H. Weber, o filme, conforme o título diz, conta a história dos 500 dias de uma paixão.

A chamada do cartaz do filme já resume bastante a história.
Rapaz encontra moça. Rapaz se apaixona. Moça não.

Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) é um arquiteto frustrado que trabalha numa empresa que confecciona cartões de saudação (Natal, Aniversário e etc). Também é o rapaz que acredita piamente no amor. Summer Finn (Zoey Deschanel) é a assistente recém-contratada da firma que acha que o amor  não existe. Os dois se envolvem e se separam, mas acabam se aproximando novamente.

Não conto mais para não estragar, mas basta saber que o roteiro foi escrito de forma não-linear, ou seja, o início do filme não é necessariamente o início do romance entre os dois.
Eles já começam separados e através de uma amostragem aparentemente aleatória de dias - ou seja, indo do dia 290 até o 28, depois para o 240 e voltando ao dia 12 e assim por diante - vamos desvendando o que os levou até ali e principalmente como essa história poderá acabar.

Um tipo de montagem que subverte a expectativa do públicos de romances criando uma ótima surpresa. Você fica em dúvida até o último momento sobre o que vai acontecer.

O diretor abusa de recursos cinematográficos variados que deixam o filme bastante simpático ao ilustrar o olhar pessoal de Tom sobre sua trajetória com Summer.

Por exemplo, há o uso de um narrador que, apesar de não falar o tempo todo, pontua de maneira bem-humorada o início, o meio e o fim da trama, dando um toque de contos de fada ao filme, que é  contemporâneo até demais.

Outro exemplo é ao contar fatos do passado fazendo a tela diminuir, ficando na proporção de TV(4:3), e assumindo um tom documental em preto-e-branco, lembrando filmes educativos americanos da década de 50 e 60.

Um recurso utilizado competentemente é a tela dividida ao meio em três momentos do filme. O melhor deles é a seqüência que ilustra a ida de Tom a uma festa, mostrando sua expectativa de um lado e a realidade do outro. Com a realidade impiedosamente tomando a tela inteira no fim da seqüência. Poesia pura.
Destaque também para a sequência que mostra a tristeza de Tom indo ao cinema e se vendo atuando em cenas famosas de filmes da Nouvelle Vague (movimento de cineastas franceses dos anos 60), com direito a jogar xadrez com o cupido e tudo.

Não há do que reclamar dos atores. Joseph Gordon-Levitt, que ficou famoso por comédias de TV, está mais contido que de costume e até consegue convencer como sofredor apaixonado. Zoey Deschanel também está bem, mas podia estar mais expressiva.
O destaque mesmo fica para Chloe Moretz, que interpreta Rachel, a irmã mais nova de Tom. Com apenas 12 anos, ela acaba roubando todas as cenas em que aparece ao dar sérios conselhos sentimentais para tentar levantar a moral do irmão.

Um ponto importante que vale ressaltar é o título original, 500 days of Summer, que faz referência a personagem e também a uma das quatro estações, já que summer em inglês é verão. Numa tradução literal, o título seria 500 dias de verão. Isso também rende uma inesperada piada final ao filme. Coisas que se perdem na tradução.

Um filme de amor com uma trama meio comum, mas montada de forma excepcional e ilustrada com vários recursos que declaram o amor dos autores ao cinema e te fazem pensar que um filme pode sim, ser considerado poesia. Grande filme de estréia do diretor de videoclipes Marc Webb.

Recomendado.

Valeu!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Filme: Sherlock Holmes (2010)

Sherlock Holmes é o personagem criado pelo médico inglês Arthur Conan Doyle em 1887. Um detetive que ficou famoso por resolver casos na base da observação e dedução.

Podemos encontrá-lo em quatro romances e em uma diversidade de contos. Todos escritos por Doyle e publicados durante um intervalo de 40 anos.

Apesar de puramente mental, o personagem de Conan Doyle usava o método científico e muitas vezes experimentativo para trabalhar, o que pode ter dado origem a vários outros personagens em diversas mídias.

Alguns seriados de televisão famosos foram claramente inspirados pelo personagem. Dois inclusive fazem bastante sucesso atualmente.
Um deles, o mais direto, é Monk, um detetive obssessivo-compulsivo que faz deduções incríveis só pela observação.
O outro, menos direto, é House, um médico arrogante especialista em descobrir e tratar doenças raras, muitas vezes sem conhecer os pacientes.

É claro que o personagem já teve muitas adaptações fora da literatura (teatro, cinema e tv) e elas contribuíram aos poucos para a formação de uma imagem clássica do detetive.

Alto, magro, porte atlético, nariz comprido, chapéu de abas e sempre com um cachimbo curvado à mão. O problema é que algumas delas nunca foram citadas por Doyle nos escritos originais.
O filme atual, Sherlock Holmes, foi dirigido por Guy Ritchie e abandona algumas dessas características.


Sendo inspirado numa HQ escrita e desenhada por Lionel Wingram, o filme é a tentativa de revitalizar esse que é um dos personagens mais famosos da literatura, trazendo-o com muita ação a atitude ao século XXI.


Holmes (Robert Downey Jr) e seu parceiro, o médico John Watson (Jude Law), prendem Lord Blackwood (Mark Strong), que matava meninas por meio de rituais de magia negra, e alguns meses depois são obrigados a persegui-lo novamente após sua execução e misteriosa ressurreição.
Com a ajuda de Irene Adler (Rachel McAdams), a única mulher que conseguiu enganar Holmes duas vezes, e do burocrático inspetor Lestrade (Eddie Marsan), eles tem que recapturar Blackwood e desvendar sua ressurreição e conspiração que ameaçam a sanidade e segurança do povo inglês.

Robert Downey Jr. interpreta competentemente um Sherlock obstinado que usa seus casos, mistérios e tentativas de invenções para ocupar a mente inquieta. Quase como uma dependência química. Seu olhar arregalado e contemplativo diz muito sobre o personagem.

Jude Law faz um John Watson mais másculo encarnando um militar reformado, durão e companheiro. Ele consegue trabalhar bem as nuances da divisão do personagem entre a noiva e a emoção de suas aventuras ao lado de Holmes.

A relação entre os dois personagens é meio simbiótica. Estão acostumados a ter um ao outro por perto o que justifica a estranheza e certo ciúme que Holmes sente pela noiva de Watson.
Não há na película uma preocupação em apresentar a história anterior dos personagens. O roteiro aposta num conhecimento prévio do público pela figura mítica do detetive infalível para dar mais espaço a ação. Eles já começam o filme no meio da perseguição e aos poucos vamos conhecendo quem eles são.

Escolha acertada do diretor por economizar tempo para desenvolver a trama principal, mas por vezes o filme parece ter ação demais pra uma história de detetive.

Seqüências como a da luta perto de um navio no estaleiro, e a da armadilha no abatedouro, ficam meio soltas e quase desnecessárias em relação ao mistério central.

No meu entender, isso é feito de propósito para atrair um público maior que está acostumado a ir ao cinema ver destruições e explosões.

Destaque para a fotografia, figurinos e direção de arte que fizeram um bom trabalho na ambientação da Londres vitoriana. Apesar dela parecer escura demais em algumas cenas.

Ponto positivo também para a câmera subjetiva em que Holmes narra em câmera lenta como poderia nocautear sistematicamente o adversário. Um grande mergulho na mente do detetive que revela por dentro seu modo de pensar peculiar. Pena que isso só é feito em dois momentos do filme.


Grande destaque para o som da película.
A edição de som arrebentou, principalmente ao reproduzir a percepção sonora de Holmes em dois momentos: um no início, ao ter um tiro ricocheteado perto de seu ouvido, e outro depois da metade, ao tentar se recuperar de uma explosão.

A trilha sonora de Hans Zimmer também é muito boa. As músicas num tom folclórico irlandês, abusando de violinos e outros instrumentos nativos do norte da Europa, seguem direitinho tanto as seqüências de luta quanto as de suspense. Na sala que eu estive uma funcionária do cinema quase deu um show de dança com a música de subida dos créditos finais.
Outro ponto importante para os fãs é que, apesar de lutar contra um maquiavélico e astuto Lord Blackwood, o filme é pontuado por algumas intervenções do maior inimigo de Holmes na literatura, o Professor Moriarty. E, para quem conhece o personagem, isso acaba tirando um pouco da força de Blackwood como antagonista. Principalmente no fim com a promessa de embate entre Holmes e Moriarty, que não chega a mostrar o rosto, para um próximo filme.
Certeza de continuação.

Para não dar a impressão errada, existem sim as magníficas deduções de Holmes em vários momentos do filme, sendo a maior de todas no final, claro. Alguns críticos até já reclamaram que a explicação final de Holmes é muito mastigadinha e um tanto desnecessária, mas esquecem (ou ignoram) que isso também é feito em quase todas as histórias escritas por Arthur Conan Doyle.

Um filme que cumpre muito bem seu objetivo de atualizar Sherlock Holmes para o novo milênio, primando pela ação, apesar de vermos as deduções do detetive em vários momentos, com boas atuações dos personagens principais e com uma grande trilha sonora é o que esperar desse filme.

Recomendado.

E que venha Moriarty.

Valeu!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Quadrinhos: Um Dia Uma Morte

O que quatro moradores de uma favela, dois fantasmas, um relógio antigo, um militar reformado e um mapa do tesouro tem em comum?

Simples, a HQ Um dia, uma morte (88págs.), ótima publicação independente do grupo mineiro responsável pela revista Graffiti 76% Quadrinhos.

Publicada com o apoio da prefeitura de Belo Horizonte, o grupo é um dos bastiões da resistência dos novos autores no meio quadrinístico nacional.


Luís, Farofa, Gil e Jaime são rapazes nos seus vinte e poucos anos, amigos e moradores de uma favela que não chega a ter nome, mas poderia se localizar em qualquer cidade grande do Brasil.

Farofa trabalha no IML e acha uma carta com um mapa dentro de um dos bolsos do recém-falecido Sô Antão, seu vizinho, que promete um grande tesouro a quem estiver disposto a procurar. O problema é que o tesouro está enterrado no quintal de um dos grandes traficantes da favela. É então que os quatro jovens, esperançosos de obter uma vida melhor, armam e tentam executar um plano mirabolante para pôr as mãos no tesouro do velho militar falecido.

A edição é dividida em capítulos intercalando presente e passado. Numerados ao contar a trama presente, e nomeados com o nome de um personagem ao enfocar seu passado.

Muito bom é o desenvolvimento dos personagens.


Cada um dos jovens tem um capítulo individual que explica um pouco de sua história e motivações principais em flashbacks não-lineares e por vezes interligados, ou seja, temos o recurso de ver uma mesma cena em dois capítulos diferentes, mas sob outro ponto de vista.
Um recurso muito usado no cinema em filmes como Cidade de Deus e Cães de Aluguel, só pra citar duas referências.

O roteiro ainda tem citações ao grande enigma do que é o Tempo, principalmente ao enfocar o jovem Luís, que vive cercado de fantasmas que lhe dão conselhos (as vezes nem tão bons) sobre como viver sua vida. O livro até abre com uma citação do escritor argentino Jorge Luis Borges sobre a simultaneidade do Tempo.

Os desenhos espantam pela aparente simplicidade de traços que acabam revelando bonitas e complexas composições, principalmente nas páginas inteiras que dão um panorama da favela. Destaque também para o colorido da história, lindamente aquarelada.
Belo trabalho de estréia em Graphic Novels da dupla Fabiano Barroso e Piero Bagnoriol, que antes dessa HQ só tinham histórias curtas publicadas em revistas como a Graffiti 76% Quadrinhos.

Iniciando a Coleção 100% Quadrinhos do grupo da Graffiti em 2007, essa ótima HQ surpreende pela qualidade do texto, pela disposição não-linear do roteiro, pelo cenário inusitado onde se passa a caça ao tesouro e pela escolha de belíssimas cores aquareladas para preencher seus desenhos.

Prova de que bons quadrinhos ainda são produzidos no Brasil.

Recomendado.

Para quem não tem acesso, ela pode ser lida de graça na Internet: http://www.graffiti76.com/hq_um%20dia.html

Valeu!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Quadrinhos: Fábulas - A Marcha dos Soldados de Madeira

Conhece a história da moça que mordia uma maçã envenenada? E a do boneco que queria virar menino? E aquela de como um lobo derrubou no sopro a casa onde morava um porquinho?

Tenho certeza que, se teve uma infância bem vivida, você conhece, ou ouviu falar, de todas essas histórias. Mas e se elas não acabassem depois do tão adorado “Felizes para Sempre”?

Foi o que pensou o escritor Bill Willingham ao criar a série Fábulas para o selo VERTIGO da editora americana DCComics em 2003.

Ele interligou várias das nossas fábulas de infância e colocou os personagens delas tendo que conviver juntos num condomínio de vários prédios na cidade de Nova York em pleno século XXI.

O condomínio, conhecido como Cidade das Fábulas, foi fundada há alguns séculos atrás pelas primeiras fábulas que fugiram do mundo mágico. Ele abrange um quarteirão inteiro de Nova York, e nele, as fábulas com formas humanas, podem viver sem envelhecer entre nós, mas mantendo segredo sobre suas reais identidades, claro.

Acontece que há séculos o mundo das fábulas foi atacado pelo misterioso Adversário (cuja identidade é um dos mistérios da série), que clamou para si o mundo mágico destruindo, escravizando ou matando com seu exército qualquer um que ficasse em seu caminho. Sem alternativa, os seres mágicos que não concordaram com ele, tanto os bondosos quanto alguns malvados, acabam fugindo para o mundo “real”.

O autor, e seus desenhistas colaboradores, já ganharam vários prêmios no meio dos quadrinhos pela série que é aclamada como a verdadeira sucessora do Sandman de Neil Gaiman, a série adulta de maior sucesso da editora.

A aclamação é bastante válida. Um dos fatores que comprovam isso é que Willingham fez muita pesquisa para povoar seu universo de fábulas, já que nem só dos mais conhecidos vive a série. Várias fábulas obscuras, saídas de histórias dos mais distantes cantos do mundo também vivem em sua Cidade das Fábulas.

Outro fator é a personalidade e profundidade que ele deu a todas elas, inclusive às mais famosas, subvertendo e atualizando com uma deliciosa malícia, nossos contos de infância.

Por exemplo:
Branca de Neve, que se divorciou há muitos séculos do Príncipe Encantado, é a real administradora da Cidade das Fábulas, já que seu prefeito, o Rei Cole, não é muito bom em governar. Ao contrário do que dizem os contos, é uma mulher de fibra, inteligente e de muita personalidade.

O Lobo Mau, ou simplesmente Bigby Lobo (como ele gosta de ser chamado), se redimiu de suas maldades lutando contra o Adversário, séculos atrás. Hoje, conseguindo assumir a forma humana, é o atual xerife da Cidade das Fábulas. Além de inteligente e bom de faro pra resolver mistérios, é um cara bastante confiável e durão, mesmo admitindo ter uma quedinha pela Branca de Neve.

O Príncipe Encantado, já divorciado de sua terceira mulher, é, além de excelente espadachim, um falastrão galanteador que vive de seu charme e fala-mansa, dando golpes em mulheres (solteiras ou casadas) em toda a Nova York. Branca de Neve lamenta sempre que encontra com ele.


João das Lorotas (aquele mesmo do pé-de-feijão) é um trambiqueiro que só quer saber de se dar bem contando histórias mirabolantes que muitos não conseguem saber serem verdade ou não. É o personagem que encarna quase todos os Joãos (Jack, no original) das histórias fantásticas. Também é chamado de matador de gigantes.

Isso só pra falar dos principais. São personagens recorrentes Rosa Vermelha (a irresponsável irmã mais nova de Branca de Neve), Pinóquio (um mal-humorado menino que não conseguiu crescer), o Príncipe-sapo (que não consegue largar o hábito de comer moscas), o pirata Barba Azul, a Bela e a Fera e muitos outros.

A HQ que acaba de ser lançada no Brasil pela editora Panini é a 4ª compilação encadernada de histórias que dão continuidade ao “Felizes Para Sempre” na Cidade das Fábulas.


Fábulas - A Marcha dos Soldados de Madeira (244 págs.) compreende a edição especial O Último Castelo e mais oito edições da revista regular de Fábulas.


O Último Castelo é a primeira história da edição e conta como foi a última batalha contra os exércitos do Adversário ocorrida no mundo mágico, antes de todos os portais para o mundo “real” serem fechados.

Logo a seguir começa a trama principal que pode ter seu início resumido em alguns acontecimentos:
- Branca de Neve está grávida.
- O Príncipe Encantado tenta se eleger prefeito da Cidade das Fábulas.
- Uma crescida Chapeuzinho Vermelho, que muitos achavam estar morta, atravessa um portal mágico fechado há mais de 100 anos e pede asilo a comunidade das fábulas.
- Bigby Lobo desconfia e começa a investigá-la.
- E João das Lorotas apanha de três homens feitos de madeira.

É uma trama simples e sem muitos rodeios, mas competentemente escrita e montada por Willingham, cujo desenvolvimento leva a um clímax sangrento e emocionante, com muitas baixas do lado das fábulas.

Desnecessário dizer que é uma história para adultos então há palavrões, sexo, violência e sangue, embora não seja nada muito explícito ou gratuito.

Os desenhos são um caso a parte. O desenhista principal, Mark Buckingham tem um traço realista simples e leve. Muito bom ao ilustrar expressões faciais, seu traço pode deixar a história tanto divertida quanto sombria num passar de quadro.
O grande diferencial da série são os personagens (com um apelo óbvio) e o relacionamento entre eles, desenvolvidos com maestria por Willingham. Talvez nem precisasse da trama de fundo sobre a luta contra o Adversário pra fazer sucesso. Dá pra ler edições inteiras sem uma menção a isso e ainda assim se divertir com essa HQ. Mas é claro que um bom autor tem que deixar o público interessado no que está por vir e isso ele fez muito bem.

Uma edição cuja primeira história é um ótimo ponto de partida para quem não conhecia nada da série e com a trama principal tendo um desenrolar dramático importantíssimo que promete ainda mais emoções para os próximos volumes. É aqui que as fábulas finalmente percebem que, depois de séculos, não estão tão seguras no mundo “real” quanto gostariam.

Tudo isso numa ótima, bem produzida e relativamente barata edição da Panini que vale a pena para quem sempre quis saber o que aconteceu depois do “Felizes Para Sempre”.

Recomendado!

Valeu!
Ps.: A edição apresenta toda a história, ou seja, conclui a trama que foi começada (e abandonada) pela editora anterior.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Filme: Lula, o filho do Brasil

O presidente Lula é um grande filhinho da mamãe.

É o que pude concluir após assistir Lula, o Filho do Brasil no cinema.

O filme conta a trajetória de parte da vida do atual presidente da república, de 1945, ano de seu nascimento, até 1980.
Apesar do título, o filme é todo pontuado por dona Lindu, a mãe de Lula, e podia se chamar facilmente de Lula, o filho de Lindu, pela sua importância na história.

Vivida por uma competente e econômica Glória Pires, que está bem convincente no papel da mãe do presidente, o filme ainda tem boas atuações de Cléo Pires como a primeira mulher de Lula, Lurdes, e Juliana Baroni (linda) como a atual mulher do presidente, Marisa.

O que decepciona mesmo é Rui Ricardo Diaz, que faz Lula na maior parte do filme, dos 18 aos 35 anos.
Sua atuação como futuro presidente do Brasil é até boa, mas fica extremamente prejudicada pela tentativa de imitar o jeito de falar peculiar de Lula.

Ponto negativo para os produtores e para o diretor Fábio Barreto que parece não ter exigido, ou ao menos discutido pouco, se o ator deveria ou não imitar o presidente. Há o absurdo de numa mesma cena o ator começar num tom de voz mais normal e logo depois assumir uma imitação tosca do falar de Lula. Mudança ocorrida quase que num mesmo discurso. Existem vários humoristas de sucesso que conseguem imitar o presidente com mais veracidade do que ele.

É difícil avaliar a história de um filme-biografia, já que por se tratar de um tempo narrativo extenso, muitos acontecimentos importantes ficam de fora, mas o filme cumpre bem o papel de pontuar a vida do presidente através de algumas passagens importantes de sua vida.
 Tirando essa questão da fala, importantíssima por sinal, o filme consegue cumprir com sucesso o objetivo de mostrar a trajetória pessoal do presidente.
Destaque para a cena do discurso no estádio, muito bem ensaiada, e para a montagem com cenas do filme mesclando-se a cenas de reportagens reais para dar uma idéia da repercussão nacional da greve dos metalúrgicos no fim dos anos 70.

Antes de assistir, li várias críticas falando do filme, meio que para me preparar para a bomba que iria encontrar e me surpreendi ao ver que isso não aconteceu.

Alguns jornalistas falam mal do filme dizendo como ele é fraco ao mostrar o jogo político, raso na transcrição dos discursos e forçado ao tentar desenvolver a verdadeira importância que Lula teve como líder sindical.

Tudo isso é verdade, mas após sair do cinema percebi que isso é feito propositadamente, e não chega a prejudicar o filme, pois o objetivo da trama foi focar muito mais no homem e nos desafios superados com a ajuda de sua mãe, essa sim o grande destaque da história.
Um fator importante que comprova isso é que a narrativa acaba logo após a morte de Dona Lindu, restando a recordatórios escritos situarem o espectador no que viria depois.
Figurinos bem ambientados, fotografia talvez um pouco exagerada nos planos fechados (planejados pra emocionar) e trilha sonora original muito bonita completam esse filme que tem tudo pra ser um marco na história do cinema nacional.

Um marco tanto do ponto de vista do momento histórico, quanto do ponto de vista de patrocínio, já que é o primeiro filme em anos que não tem o apoio financeiro da lei de incentivo a cultura. Isso, é claro, para evitar o discurso óbvio de que o filme foi feito pelo governo.

Só é uma pena as empresas privadas esperarem fazer um filme sobre a emblemática figura do atual presidente para colocar dinheiro no cinema nacional. Que pelo menos eles descubram o caminho da cultura do cinema e voltem a andar muito por ele depois disso.

Impossível negar a importância política do filme num ano de eleições presidenciais, mas é importante dizer que o filme não trata do Lula político e sim do Lula nordestino, filho, trabalhador, marido e sindicalista. E não é necessário gostar dele como político para admirar essa parte de sua trajetória de vida.

Veja esse filme, mas não esperando ver o caminho político trilhado pelo atual presidente e sim os bastidores familiares e pessoais de sua vida.

Recomendado!

Valeu!
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