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domingo, 6 de maio de 2012

Quadrinhos: O Eternauta

Uma das coisas boas da globalização (entre tantas outras) é conhecer melhor a cultura de outros países.
       
É a essência da expressão “aldeia global”, criada há pouco mais de 40 anos, que explica como países distantes vão ficar cada vez mais próximos e se mesclar em busca de identidade.
  
Por conta disso é de se estranhar o porquê de só agora começar a chegar ao grande público brasileiro, vinda de um país próximo como Argentina, uma História em Quadrinhos da qualidade de O Eternauta (El Eternauta, 360 págs.), que demorou mais de 50 anos para aportar por aqui.
    
Editada pela Martins Fontes e prefaciada pelo professor, jornalista e quadrinista brasileiro Paulo Ramos, a HQ, roteirizada por Héctor Germán Oesterheld (1919-1977) e desenhada por Francisco Solano Lopez (1928-2011) apresenta um personagem que, junto com a esperta e ideológica Mafalda (das tiras do quadrinista Quino), é o mais famoso e iconográfico da Argentina.
    
É a história do viajante do tempo Juan Salvo, que aparece de surpresa na casa de um assustado roteirista de quadrinhos e conta como ficou “ilhado” em casa junto com sua esposa, filha e um grupo de amigos, numa corriqueira noite de jogo de truco, vítimas de uma estranha nevasca que mata ao menor contato com a pele.
                                            
Tem início então uma verdadeira odisseia de sobrevivência do grupo com direito a guerrilhas, fugas desesperadas, homens-robô zumbis, armas estranhas, gigantescos monstros de quatro patas e alienígenas que podem escravizar ou acabar com a Terra.
                         
A trama surgiu quando Héctor Oesterheld decidiu fundar sua própria revista semanal e levou consigo vários colaboradores, entre eles Lopez, que em 1957 recebeu a proposta de desenhar a HQ.
                               
Segundo Paulo Ramos, Solano diz a Oesterheld que gostaria de desenhar uma ficção científica realista e contemporânea com personagens de fácil identificação com o leitor.
Foi então que Hector surgiu com essa história que, segundo ele, começou baseada num de seus romances de aventura preferidos quando criança, Robinson Crusoé (do autor inglês Daniel Defoe), e depois acabou se tornando algo que ele mesmo não esperava.
 
Publicada durante dois anos num formato semanal, com tiras horizontais de 8 a 12 quadros por página, O Eternauta é uma perfeita ficção científica de vanguarda bebendo nas fontes de Edgar Rice Burroughs (Conan, A Princesa de Marte) e H.G.Wells (Homem Invísivel, A máquina do Tempo, Guerra dos mundos), prestando grande homenagem ao segundo por conta da invasão alienígena.
 
Os desenhos de Solano Lopez são realistas na medida certa, evocando um estilo de época e traduzindo com perfeição alguns pontos turísticos da cidade de Buenos Aires como o estádio do River Plate

Francisco Solano Lopez em 2010
Seu talento para desenhar fisionomias e expressões humanas é invejável, mesmo com tantos personagens que passam pela narrativa, são todos facilmente identificáveis.
  
Oesterheld consegue a façanha de criar personagens humanos de personalidades bem definidas, os jogando constantemente em situações dramáticas e emocionantes numa trama que se torna difícil de largar. 

Oesterheld
O formato semanal exige uma tensão constante com muitas reviravoltas, colocadas justamente pra prender o leitor, que poderiam se tornar cansativas, mas acabam te deixando mais interessado no destino dos personagens, o que é a tradução do imenso talento do escritor.
  
É uma pena que Oesterheld (que entre outros também escreveu uma biografia em quadrinhos de Che Guevara resenhada aqui), foi vítima da ditadura Argentina e tenha sido dado como desaparecido em 1977 por conta de suas idéias de esquerda.

Fato que também se repetiu com suas quatro filhas adultas e aproximadamente 30 mil pessoas enquanto os militares ficaram no poder.
 
Tudo que sobrou do autor foram suas obras nas HQs, sua esposa e um dos netos, para contarem sua história.

Lamentável, não só pela sua contribuição a arte latina e mundial, mas pelo fato de ali se encontrar um ser humano.
 
Talvez motivada pelo mistério em torno do desaparecimento do autor, a história fez tanto sucesso que hoje, depois de várias republicações, tornou o personagem um símbolo da resistência Argentina ante a qualquer tipo de crise, sendo inclusive lembrado recentemente em diversas pixações feitas nos muros de Buenos Aires durante a crise econômica e no governo Kischner.
 
A trama ainda apresentou continuações (muitas não-oficiais), mas pelo menos uma delas, feita pelos autores originais antes da morte de Oesterheld, poderia aparecer por aqui no encalço dessa obra.

Uma ficção científica inteiramente produzida no nosso país hermano, que estreita nossas fronteiras quadrinistícas e que, mesmo passada há 50 anos atrás, está pronta para entrar para a História por não dever nada aos grandes autores do gênero.
 
Recomendado.
 
Valeu!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Filme: As Aventuras de Tintin

Diz a lenda que em 1981, quando lia críticas do seu lançamento Os Caçadores da Arca Perdida (o primeiro filme de um tal Indiana Jones), o diretor Steven Spielberg viu sua película ser comparada a histórias de um jovem jornalista que teve origem em quadrinhos franco-belgas, o intrépido e viajado Tintin.

Hergé
Com 23 álbuns produzidos pelo belga Hergé (pseudônimo do quadrinista Georges Remi), o aventureiro personagem, criado em 1929, aquela altura já havia sido traduzido para 40 idiomas diferentes, além de ter estrelado dois filmes e uma animação para o cinema europeu. Apesar disso, Steven Spielberg e a maioria dos americanos, não o conheciam.

O diretor tratou de remediar isso e dois anos mais tarde, se dizendo apaixonado pelos quadrinhos, iniciou negociações com o próprio Hergé para levar o personagem ao cinema. 

O quadrinista, extremamente animado com a perspectiva de seu personagem finalmente fazer sucesso nos EUA, haveria lido o contrato de licenciamento enviado pela produtora e só não assinou por uma causa, ou melhor, uma cláusula que dizia que Spielberg poderia passar a responsabilidade pela direção do filme a outra pessoa se assim quisesse.

Hergé, as vésperas de completar 76 anos de idade, queria que Spielberg dirigisse o filme, mas faleceu meses mais tarde, antes do diretor rever o contrato. 

E foi só mais de 20 anos depois Spielberg retomou as negociações com a viúva do quadrinista para finalmente começar a produção de As Aventuras de Tintin, filme que mescla animação com a mais moderna tecnologia de motion capture (a mesma usada no filme Avatar), que estreou mundialmente em janeiro de 2012 e apresenta o personagem para toda uma nova geração. 

Tintin (voz e trejeitos de Jamie Bell) é um jornalista investigativo de renome que, ao comprar uma réplica miniatura de um navio do século XVII numa feira de rua, se vê envolvido numa caça ao tesouro de um antepassado do dramático e bonachão Capitão Haddock (voz e trejeitos de Andy Serkis), encabeçada pelo malvado Sakharine (voz e trejeitos de Daniel Craig). 

Com a ajuda do sempre fiel cãozinho Milu e dos atrapalhados detetives Dupond e Dupont (vozes e trejeitos de Nick Frost e Simon Pegg) eles viajarão até o Marrocos, passando por tempestades marítimas, naufrágios no deserto do Saara e perseguições alucinantes para descobrir o segredo do navio Licorne.

Spielberg mostra sua assinatura como um grande cineasta dirigindo seu filme mais divertido em muito tempo.


Jamie Bell e Spielberg
Sua habilidade de gerenciar fatores tão diversos quanto atuações em frente a tela verde (o jeito que o filme captou os gestos dos atores), inserções sonoras, renderizações 3D e, principalmente, engenhosos posicionamentos de câmera, se mostra resultado da mistura de uma grande experiência acumulada na sua estrelada carreira com as infinitas possibilidades que um filme em computação gráfica pode gerar.

Isso pode ser comprovado na emoção que o filme passa tanto nas sequências de perseguição (como a centrada no cãozinho Milu no início do filme e na envolvendo vários personagens na metade final), nas lutas no navio pirata (uma homenagem aos filmes de capa-e-espada que deixa Piratas do Caribe no chinelo) e na sequência final no cais do porto (com uma engenhosa luta de guindastes).

Ele também se mostra inspiradíssimos nos raccords por analogia (cenas de passagem em que um elemento de uma cena se transforma em outro na cena seguinte) utilizados no filme, como as dunas do deserto se transformando em mar revolto nas lembranças/delírios do Capitão Haddock, e também com a transformação das dunas na mão de um personagem em uma sequência posterior.
Sua utilização do ponto de fuga, situando objetos e movimentos importantes a narrativa exatamente na convergência de linhas de profundidade no desenho (técnica inventada por pintores no Renascimento e adotada por cineastas inteligentes) revela muito de sua postura sobre o filme, trabalhado a película como se fosse uma pintura.

O roteiro, escrito a seis mãos pelos ingleses Joe Cornish, Steven Moffat (da série de TV Dr. Who) e Edgar Wright (roteirista e diretor do filme Scott Pilgrim Contra o Mundo), adapta para a telona a trama de dois dos álbuns de Hergé: O segredo do Licorne e O Tesouro de Racham, o Terrível, além de mesclar passagens de um terceiro álbum, O Caranguejo das Pinças de Ouro.

A homenagem e respeito ao criador do personagem são claros em todo o filme.

Em especial na sequência de abertura, com uma animação de silhuetas que faz referências a vários álbuns da série e na cena inicial em que o próprio Hergé aparece como um caricaturista de rua pintando o rosto de Tintin igualzinho ao dos quadrinhos. Uma grande apresentação e transposição do personagem para o estilo quase realista do filme.

O filme se caracteriza também, em sua parte cômica, por prestar homenagens a um tipo de humor antigo, bem mais inocente e centrado em gags físicas típicas de fases áureas dos Trapalhões ou de filmes mais antigos ainda como os estrelados por Charlie Chaplin e Buster Keaton. É um tipo de humor raro de encontrar atualmente em produções pro cinema ou TV, mas que ainda encantam crianças e adultos com disposição de ir ao circo e se encantar com o tão subestimado personagem do palhaço.

Dupont e Dupond
Aliás, os próprios quadrinhos utilizam desse tipo de recurso inocente pra criar seus alívios cômicos, principalmente na figura dos detetives Dupond e Dupont.

Ponto positivo pra equipe do filme por não se preocupar em atualizar o personagem ou mesmo situar suas aventuras em determinada época, deixando suas interações anacrônicas, podendo se ligar a qualquer período.

Não dá pra deixar de esboçar um sorriso quando Tintin diz que sabe o melhor jeito de pesquisar a história do navio e vai direto a uma biblioteca e não digitar no Google.

Necessário dizer também que um dos grandes responsáveis pelo filme foi nada mais, nada menos que Peter Jackson, o diretor responsável pela trilogia Senhor dos Anéis, assumindo aqui a tarefa de produzir o filme ao lado de Spielberg e, eventualmente, ser o diretor de segunda unidade da equipe do filme.

Jackon já declarou inclusive que trocará de lugar com Spielberg na continuação (já confirmada) do filme.

Personagens extremamente cativantes, que já encantaram várias gerações em quadrinhos e TV, apresentados a uma nova geração de um jeito belíssimo e extremamente digno, sem perder em nada de sua essência original é o que esperar de As Aventuras de Tintin.

É Steven Spielberg se superando como não fazia há muito tempo.

Recomendadíssimo!

Valeu!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Filme: Sherlock Holmes - O Jogo de Sombras

Definitivamente, não é Sherlock Holmes o personagem que Robert Downey Jr interpreta nesta nova adaptação cinematográfica do célebre personagem literário.

Novamente dirigido por Guy Ritchie, esse Sherlock Holmes- O Jogo de Sombras (A Game of Shadows, 2011) é uma ótima pedida para os fãs de ação e dá sequência aos acontecimentos mostrados no final do primeiro filme de 2009.

Watson (Jude Law) está prestes a se casar deixando Sherlock (Downey Jr) responsável por sua despedida de solteiro.

Acontece que o brilhante detetive, após semanas recluso, está com uma nova obsessão: ele acredita que o professor de matemática James Moriarty (Jared Harris) é o cabeça de uma organização responsável por vários crimes que tem ocorrido com frequência em toda a Europa e planeja iniciar uma guerra mundial entre as nações.
Mycroft (Stephen Fry)
Caberá a Sherlock desvendar mais esse mistério viajando pelas fronteiras europeias com a cigana Simza (Noomi Rampace), trazendo um contrariado Watson a tiracolo e sendo auxiliados ocasionalmente pelo irmão mais velho (e mais inteligente) de Sherlock, o observador Mycroft (Stephen Fry), funcionário do governo britânico.

Como fã e apreciador dos contos escritos por Arthur Conan Doyle, me atrevo novamente a dizer que esse não é o detetive dos livros. 

Simza (Noomi Rampace)
Enquanto no primeiro filme dava pra relevar uma coisa ou outra em função da ação divertida e das referências jogadas na trama, nesse segundo o personagem assume definitivamente o caráter de um herói de ação, como um típico agente secreto inglês do início do século XX.

Só pra dar um exemplo numa das cenas da metade inicial do filme, Sherlock luta sozinho com cinco ou seis capangas de Moriarty e, apesar de levar bastante porrada e demorar um pouco, vence todos no final da luta.


O personagem em si apresenta durante todo o filme um fôlego digno de um Ethan Hunt vitoriano, só pra citar o personagem vivido por Tom Cruise na série Missão: Impossível (da qual falei no post anterior). Inclusive com uma cena de ressurreição parecida com a que Hunt viveu em M:I 3.

É claro que a inteligência de Sherlock ainda está presente nesse filme, mas ela se deve muito mais a sua capacidade de prever os acontecimentos (sempre revelada a nós espectadores na hora H) do que a capacidade dedutiva propriamente dita e amplamente conhecida.

A câmera subjetiva, em que Holmes previa os movimentos de uma luta antes dela começar, está de volta nesse segundo filme, sendo utilizada bem mais vezes do que no primeiro, inclusive com uma inteligente e benvinda subversão dessas previsões no confronto final com Moriarty.
Moriarty (Jared Harris)

Um Moriarty que merece o destaque de atuação do filme, pois seu intérprete Jared Harris consegue passar com absoluta calma todo tom de ameaça contida que o personagem desvela.

Se a regra em toda a continuação é fazer um filme maior, o diretor Guy Ritchie seguiu a cartilha risca filmando em muito mais locações que o primeiro filme, aumentando consideravelmente as explosões e efeitos especiais e quase exagerando em sua assinatura estilística de diminuir e aumentar a velocidade de uma mesma cena.


A grande sequência nesse sentido, que com certeza entra em seu currículo como uma das melhores de sua carreira, é a fuga de Sherlock e companhia por entre as árvores enquanto os homens de Moriarty atiram e bombardeiam a floresta desenfreadamente. 

O nível de detalhes, com estilhaços de madeira voando para todos os lados, fumaça, fogo, tiros cortando os ares e personagens lutando para garantir a fuga é capaz de deixar o espectador sem fôlego e deve ter demorado meses para ficar pronta.


Destaque para a edição de som que acompanha com louvor as aceleradas e freadas do diretor e mais uma vez para a trilha sonora de Hans Zimmer que deixou a trilha já construída no filme anterior bem mais grandiosa com a entrada de Moriarty na trama.


A trama ainda contém bastante referências aos livros e um espectador mais atento vai perceber várias delas. 

A mais óbvia de todas é em relação ao conto O Problema Final em que Holmes narra a Watson a descoberta de uma mente criminosa tão inteligente quanto ele: o professor Moriarty, que chefiava o crime em quase toda a Europa.

No conto, Holmes abandona a Inglaterra para perseguir Moriarty e tem um encontro fatal (para os dois) nas cataratas de Reichenbach na Suíça. Fatalidade essa que não demoraria muito tempo para ser revertida pelo próprio Conan Doyle na literatura.

Enfim, mesmo se distanciando ainda mais do personagem literário, O Jogo de sombras é um bom filme de ação com cenas de tirar o fôlego do espectador, diálogos rápidos, boas atuações, ótimos efeitos e uma bela trilha sonora.

Recomendado.

Valeu!

Filme: Missão: Impossível 4 - Protocolo Fantasma

Depois de três filmes e prestes a fazer 50 anos, todos desconfiavam que o astro Tom Cruise não teria fôlego pra voltar pra mais um episódio da série Missão: Impossível. E não é que estavam enganados?

Missão: Impossível 4 – Protocolo Fantasma é um filme inacreditavelmente divertido, equilibrando as sequências de ação de tirar o fôlego com diálogos cômicos e cenas dramáticas de maneira bem melhor que seus antecessores.

Depois de fugir de uma prisão russa e executar uma mal-sucedida missão em Moscou, o agente secreto Ethan Hunt (Tom Cruise) e sua equipe são acusados de explodir o Kremlin (a sede do governo russo). Isso obriga o governo americano a executar o Protocolo Fantasma, que desativa completamente a agência secreta IMF (Impossible Mission Force) deixando Hunt e seus colegas por conta própria. Restará a equipe, sem qualquer tipo de apoio e com equipamentos capengas, procurar o verdadeiro autor dos atentados para provar a própria inocência.

O roteiro, escrito a seis mãos, inova ao trabalhar (como já disse acima) diálogos cômicos para diluir a tensão dos momentos dramáticos além de desenvolver satisfatoriamente a personalidade de cada elemento da equipe, que acabam tornando-se mais verossímeis e tangíveis como seres humanos aos olhos do espectador. 

Isso vai desde o sentimento de vingança de Jane Carter (Paula Patton), passando pela insegurança de Benji Dunn (Simon Pegg) e indo até o inesperado sentimento de culpa de William Brandt (Jeremy Renner).

Por incrível que possa parecer é o personagem de Tom Cruise, que acaba perdendo a profundidade que havia ganho no filme anterior, deixando mais espaço para os seus colegas brilharem. 

Mas você que é fã de Cruise, não se engane com a frase anterior, o ator ainda tem bastante tempo de tela e protagoniza a maioria das cenas de ação do filme.

Como a ótima sequência de perseguição dentro de uma tempestade de areia no meio de uma cidade e a luta dentro de um estacionamento vertical, só pra citar algumas delas.

O diferencial desse M:I 4 é que ele não é mais o centro da equipe, apesar de ainda ser o cabeça dela.

O diretor Brad Bird, vindo de animações de sucesso como Gigante de Ferro, Os Incríveis e Ratatouille, estréia muito bem em seu primeiro grande filme com atores reais em cena, não fazendo feio ao coordenar as cenas de ação bem como aquelas envolvendo apenas diálogos entre os atores. Sem dúvida o grande responsável pelo bom entrosamento de toda a equipe.

O destaque vai pras sequências (já citadas) da tempestade de areia e da luta no estacionamento, com menção especial a homenagem do diretor ao primeiro filme da série colocando o personagem de Jeremy Renner quase na mesma posição em que Tom Cruise esteve no filme inicial na famosa sequência da invasão a uma sala de computadores pendurado por uma corda e com o suor escorrendo da testa.

Uma ótima pedida para os fãs de ação, principalmente aos fãs de Missão: Impossível, com sequências inacreditáveis e uma atuação satisfatória de todo o elenco.

Recomendado.

Valeu!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Livro: A Fórmula da Vida de Adriana Igrejas


No ano passado tive o prazer de ser escolhido como um dos primeiros leitores a apreciar o romance de estréia de uma querida colega de trabalho e é com imensa satisfação que publico hoje aqui no blog a resenha que fiz do livro.

Uma rocambolesca, gostosa e cativante trama de novela televisiva em forma de livro. 

É como posso descrever em poucas palavras o romance de estréia da escritora Adriana Igrejas, A Fórmula da Vida, pela editora LetraCapital com o apoio da Prefeitura de Mesquita-RJ.

É a história de Catarina, uma jovem herdeira atormentada pelo trauma da violenta perda do pai, que morreu dias antes de revelar a fórmula de uma substância capaz de purificar qualquer tipo de água poluída, e de como isso a levou tortuosamente pelos caminhos da vida.

O livro pode ser dividido em três partes:

Na primeira, vemos Catarina conversando com sua psiquiatra enquanto lembra os fatos mais importantes de sua vida desde o assassinato de seu pai. Aos 15 anos, vemos o fim de sua infância e como ela lidou com isso, tentando se reintegrar à sociedade após o baque psicológico, com mudanças de escola, início do treino em artes marciais, busca pela emoção de lutas ilegais e tentativas de fazer justiça com as próprias mãos.

Na segunda parte, Catarina, já formada na faculdade, tenta a sorte trabalhando como zootecnista numa fazenda no interior do Mato Grosso. A mudança brusca da trama é bem justificada por um fato no fim da primeira parte e, entre encontros e desencontros, finalmente presenciaremos um pouco de juízo e o vislumbre de felicidade na vida da personagem.

Na terceira parte, Catarina volta a se confrontar com fantasmas do passado e o mistério da morte de seu pai é, enfim, desvendado, mas não sem esforço e sofrimento da protagonista e com a volta do suspense, da tensão e de ação digna de blockbusters hollywoodianos que fecham a trama com chave de ouro.

Órfã, herdeira milionária, vingadora atormentada, lutadora marcial, justiceira clandestina, zootecnista irascível e mocinha apaixonada são algumas das personas que Catarina assume ao longo dos seis anos desenvolvidos no tempo narrativo do livro.

A autora Adriana Igrejas mistura nesse caldeirão uma série de referências que vão desde as mais clássicas, como Shakespeare e mitos gregos, até as mais atuais da cultura popular resultando numa deliciosa sopa com sabores que agradam a vários gostos.

Seu estilo narrativo lembra um bom folhetim televisivo. Num determinado momento do livro parece que estamos apreciando uma novela de Janete Clair devido às reviravoltas da trama e da força de seus personagens.

A autora também se mostra mestra na ambientação estabelecendo detalhes nas descrições que traduzem com perfeição a vida real para a trama. Destaque para a sequência na escola pública e no trem, tão reais que chegam a assustar.

O que também impressiona são as descrições das cenas de luta que mostram que a autora realmente conhece (ou teve que conhecer) o mundo das artes marciais pra escrever a história. Alguns trechos lembram seriados de ação como Nikita, por causa da força e determinação de suas protagonistas.

 Um belo estudo de personagem numa bela trajetória para encontrar, como foi dito no press-release, a fórmula da vida e uma fórmula DE vida.

Recomendado!
 
Aproveito também pra convidar a todos para o lançamento do livro que será nesse domingo (27/11/2011) às 15hs no Parque de Eventos da Prefeitura de Mesquita que fica na Rua Baronesa de Mesquita, s/No., no Bairro de Cosmorama em Mesquita-RJ. Pertinho da estação de trem de Edson Passos.

Eu já confirmei minha presença pra fazer a leitura de um dos meus trechos favoritos do livro. Compareça, garanta seu exemplar e ajude a prestigiar uma autora nacional.
 
Valeu!
Ps.: Mais informações sobre a obra em: http://aformuladavida.blogspot.com/

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Livro: Frente de Tempestade - Os Arquivos Dresden Vol.1

Num universo onde a magia existe, mas é ignorada pela maioria das pessoas, um bruxo chamado Harry tem que procurar e confrontar um bruxo praticante de magia negra para salvar seus amigos, sua comunidade e sua própria vida.

Não, a sinopse acima não foi escrita como referência a mais um volume de Harry Potter.

É a sinopse mais simples que consegui fazer do romance de estréia do escritor americano Jim Butcher, Frente de Tempestade (322págs, 2011), publicado nos EUA no ano de 2000 e que está a venda desde junho desse ano aqui no Brasil pela Editora Underworld.

Harry Dresden é o único bruxo particular listado na lista telefônica com escritório na cidade de Chicago nos EUA. Como poucas pessoas no mundo acreditam em magia, ele não tem muitos trabalhos a vista, e vive com pouco dinheiro no bolso. Eventualmente, ele dá consultoria para a polícia em casos que não tem muita explicação lógica, o que ajuda bastante a pagar o aluguel. 

Até o dia em que uma série de assassinatos, em que as vítimas têm o coração explodido misteriosamente dentro do peito, o colocam na mira de mafiosos, vampiros, repórteres, traficantes de drogas, demônios e fiscais do conselho branco de magia. Tudo isso por causa de um misterioso e poderoso bruxo praticante de magia negra que dará trabalho para ser identificado e encontrado.

Narrado em primeira pessoa, livro pode ser descrito como uma mistura de romance de detetives e fantasia contemporânea.

O clima detetivesco/noir se faz presente em vários clichês do gênero como a narração irônica de Dresden, suas condições cada vez piores de trabalho, o descrédito e crescente desconfiança dos outros personagens para com ele, seu rígido senso moral, sua facilidade em se dar mal e as constantes (mas bem embasadas) reviravoltas na trama. Até mesmo a mulher problemática a procura do marido e um casaco-sobretudo inseparável para o personagem se fazem presente na narrativa.

É claro que esses clichês são apenas o fio-condutor da história, que surpreende por conseguir integrar organicamente elementos fantásticos bastante estranhos ao universo de tramas de detetives como fadas, poções, amuletos, espíritos elementais, artefatos mágicos e manipulação de elementos naturais a um cenário quase que estritamente urbano. 

Tudo isso aparece na trama de forma bem natural e é o maior mérito do autor Jim Butcher. Mérito esse que deveria ser o almejado por qualquer autor: construir uma lógica própria e consistente pro seu universo narrativo. Os elementos mágicos, por exemplo, são explicados com teorias de manipulação energética, tornando o sobrenatural, senão verossímil, pelo menos bastante aceitável.

A trama também decorre de forma bastante rápida e a narrativa faz a leitura fluir muito bem.

Sendo apenas o primeiro volume de uma série com 13 livros públicos até o momento nos Estados Unidos, o livro apresenta uma história completa que serve de apresentação do universo do personagem Harry Blackstone Copperfield Dresden, filho de um ilusionista e nomeado pelo pai em homenagem aos maiores ilusionistas da história. 

Assim como esse, vários elementos do passado do personagem são citados e provocam no expectador aquele gostinho de quero mais. Esse pode ser um dos defeitos da narrativa, que estabelece Harry como personagem verossímil com várias características contraditórias inerentes aos seres humanos, mas é superficial em detalhar suas motivações pra fazer o que faz. É claro que isso pode ser uma simples estratégia pra nos fazer comprar o próximo livro.

Dresden é um personagem fascinante, pois mesmo estando sempre na pior, não abandona seu rígido código moral, que o faz ser cavalheiro com as mulheres e tentar não desobedecer as leis da magia estabelecidas pelo conselho branco. Mesmo assim o rígido Morgan, fiscal do conselho, está sempre na sua cola.

Uma ressalva a essa primeira edição brasileira são os constantes erros tipo: “comoque nem” e “estoutô” encontrados várias vezes durante o volume. Como se o tradutor tivesse deixado como opção para o editor revisar e o editor tenha deixado passar.

Erros até perdoáveis devido a qualidade da trama e a pouca experiência da editora Underworld no mercado, mas que não seriam recomendáveis em novas edições e em futuros volumes da série.

O sucesso da série lá fora deu origem a áudio-livros, vídeo-games, quadrinhos e uma série de tv em 12 episódios exibida pelo canal Sci-fi na temporada 2007.

Uma trama de magia fantástica com ares urbanos contemporâneos tendo como fio-condutor um mistério de assassinatos e o clima noir de romances detetivescos, cheia de ação e reviravoltas surpreendentes e com um personagem fascinante é o que esperar desse livro.

Recomendado!

Valeu!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Filme: Lanterna Verde

Um show de personagens mal-aproveitados, conflitos superficiais e situações explicadas de forma simplista, quase que subestimando a inteligência do espectador.

É como pode ser definido Lanterna Verde (Green Lantern, 2011) a aposta da Warner Bros e da DC Comics para tentar alçar um personagem que já foi secundário na HQs (mas que nos últimos anos tem uma base de fãs crescente) ao status de sucesso em outras mídias (a exemplo do que a Marvel fez com o Homem-de-Ferro).

Há milhões de anos uma raça de alienígenas imortais forjaram anéis que manipulam energia da força de vontade e escolheram seres de diferentes partes do universo para usá-los e proteger os inocentes. 

Hal Jordan (Ryan Reynolds) é um piloto de teste talentoso, mas bastante irresponsável, que é escolhido para substituir o alienígena Abin Sur (Temuera Morrison) em sua missão na proteção do setor espacial 2814 (no qual a Terra está incluída). 

Uma vez usando o anel ele conhecerá seus colegas lanternas, enfrentará o cientista Hector Hammond (Peter Sarsgaard) e acabará por confrontar o responsável pela morte de seu predecessor.

O roteiro sem dúvida é o maior problema do filme. Escrito por quatro pessoas (o que quase sempre é um mau sinal) surpreende por prometer muito e cumprir bem pouco, preferindo ficar num nível superficial.

O que não aconteceria se desenvolvessem melhor algumas situações como o passado de Hal (que tem pouquíssimas cenas com o pai) e seus conflitos familiares (cujos irmãos aparecem numa cena até boa só pra serem esquecidos depois). 

Até mesmo o passado e motivação da Dra. Amanda Waller (Angela Basset), explicado num flashback, fará sentido pra quem conhece a personagem dos quadrinhos, mas que não acrescenta nada a trama do filme.

O roteiro abusa de diálogos expositivos (um recurso estilístico não-recomendável) para explicar muitas situações e ainda emprega o uso de narração em seu início, que some de repente pra só voltar no final, com a clara intenção de mostrar que alguém contava a história. O problema é que nunca saberemos quem contava e pra quem era contado.

Há também um excesso de situações que se resolvem de surpresa (num ótimo emprego de deus ex-machina), sem nenhum pouco de sutileza por parte do roteiro. 

A explicação que Sinestro (Mark Strong), por exemplo, usa pra convencer os Guardiões a criarem um anel amarelo energizado pelo medo (que eles combatem há milhões de anos) é totalmente simplista e inverossímil se considerarmos que a raça tem milhões de anos de existência (e deveria compartilhar o equivalente em sabedoria). Uma criança de 5 anos acreditaria nele. Uma de 6, já não dá pra garantir.

A aparição de Hal em situações-chave de confronto do filme (como a revolta de Hammond após ser preso pelo exército e o já citado diálogo entre Sinestro e os Guardiões) também é gratuita e nada explicada, num claro descaso com os espectadores.

Ryan Reynolds apresenta grande carisma e algum conflito como personagem, mas sua incapacidade de esboçar mais que três expressões (e também seu topete impecável) não empolgam em nenhum momento.

O único personagem bem desenvolvido é Hector Hammond, e o ator Peter Sarsgaard se mostra bastante a vontade com o personagem. Só é uma pena que ele perca a vez pro insosso vilão Parallax, cuja motivação não é explicada (ou foi tão mal explicada que eu esqueci).

O design de produção está de parabéns na criação do planeta Oa, dos alienígenas e dos uniformes em CGI, mas a lanterna que abastece o anel ficou bem descaracterizada em relação aos quadrinhos.

Ponto negativo para o trabalho de edição que em determinados momentos parecem fazer o possível pra sabotar o filme. Como na cena da primeira viagem de Hal ao planeta Oa, que é interrompida a todo momento pra vermos partes da primeira transformação de Hector Hammond. Dava pra passar as duas cenas inteiras alternadamente sem prejudicar a história.

A trilha sonora ainda tenta evocar alguma emoção, mas na primeira aparição de Hal ao público, quando soam alguns acordes da trilha clássica de Superman - o filme de 1978 no vôo de partida do personagem, fica parecendo uma muleta emocional gratuita de muito mau-gosto.

O diretor Martin Campbell (que tem dois 007 e os dois Zorros no currículo) se mostra competente apenas nas cenas de ação, demonstrando muita má vontade pela falta de tato e coordenação com todo o resto já citado.

Em relação a semelhança com as HQs, a impressão que se tem é de que foram lidos quadrinhos de várias épocas do personagem e tentaram incluir muitas referências no filme, mas não conseguiram integrar uma ligação orgânica que dê sentido a muitos delas.

A inclusão de Amanda Waller (mesmo que totalmente descaracterizada) no filme dá a entender que poderá haver uma integração entre personagens da DC no cinema (como a Marvel está fazendo), mas é algo difícil de imaginar depois dessa bomba.

Não dá nem pra acreditar que Geoff Johns, o roteirista que atualizou grande parte da mitologia dos Lanternas nos quadrinhos para o século XXI (e hoje é editor de todo universo de super-heróis da DC), foi consultor criativo do filme. O que o dinheiro não faz, né?

Me senti como se estivesse assistindo hoje um episódio do desenho dos Superamigos do início dos anos 80. Quem consegue apreciar aquele desenho hoje em dia por algo além do saudosismo da época poderá até gostar do filme. 

O problema é que com tanta coisa boa que veio depois fica difícil baixar a barra de qualidade.

Um filme que não empolga, encabeçado por um ator canastrão liderado por um diretor preguiçoso num roteiro superficial é o que esperar desse filme.

Valeu!
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