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sábado, 5 de maio de 2012

Filme: Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios

O problema de "cair no mundo" é que as feridas podem nunca cicatrizar satisfatoriamente.

É uma das conclusões tiradas ao assistir o filme Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios (2012).

Filme dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, baseado em um livro de Marçal Aquino, roteirizado pelos diretores com a ajuda do próprio autor.

Cauby (Gustavo Machado) é um fotógrafo que chega a uma cidade ribeirinha do Pará e acaba se envolvendo sexualmente com Lavínia (Camila Pitanga), mulher do pastor evangélico idealista Ernani (Zé Carlos Machado).

O problema é que esse simples envolvimento acaba se tornando algo mais forte e o relacionamento acaba atingindo a vida dos três personagens de forma implacável.

Todo artista tem sua musa.

Elas são consideradas a fonte de inspiração de toda obra de arte.

É desde os tempos antigos que se fala na figura delas. Enquanto na Grécia elas eram filhas de deuses, nos tempos atuais podem assumir a figura de qualquer coisa (ou pessoa) que inspire.

É isso que define, a princípio, o relacionamento de Cauby e Lavínia.

O jeito como ele exibe pra si mesmo as fotos dela em seu casebre, endeusando uma figura com um passado misterioso (o qual descobrimos depois de um tempo de filme), estabelece o tom de dependência-obsessão-amor entre a musa e o artista.

Com atuações elogiosas de Gustavo Machado, como o fotógrafo, e de Zé Carlos Machado, como o pastor, o destaque do filme vai mesmo para Camila Pitanga, cuja composição perfeita transita entre calma e loucura com ótima desenvoltura. Sempre expressiva, sempre confiável. 

É notável, por exemplo, seu trabalho corporal ao assumir em cena do clímax os mesmo trejeitos que tinha quando foi mostrado seu passado numa bela desconstrução da “salvação” obtida anteriormente.
  
Vale também uma menção honrosa ao ator cearense Gero Camilo.
Ótimo como o colunista de fofocas Viktor Laurence, um homossexual no limite da afetação que passa longe de um estereótipo caricatural.

Ponto positivo para o ótimo trabalho de ambientação do filme, cuja fotografia abusa de tons solares, claros e bem definidos como que se quisesse que a musa inspirasse o próprio espectador. Isso se deve, é claro, ao fato do filme destacar a perspectiva do próprio Cauby, que acompanhamos boa parte do filme.

Outro dos prós (que também pode ser um contra para algumas pessoas) são as várias cenas de sexo filmadas de forma naturalista, bem no limite da realidade, inclusive com a nudez total da própria atriz, num ótimo exemplo de entrega ao papel.
Os autores aproveitam o filme para fazer uma espécie de panfletagem pró-indígena abusando de cenas que mostram o dia-a-dia dessas comunidades nas cidades modernas (uma realidade paraense) com várias tomadas aéreas de madeireiras que devastam a região amazônica. 

É claro que isso é feito de forma sutil e orgânica, válida como um gancho para explicar o destino final de um dos personagens, mas bem discernível ao espectador, mesmo não ocupando muito tempo de tela.

Um filme sobre o amor e sobre a obsessão.

Sobre como eles nos destroem e nos constroem novamente em igual proporção. 

Tudo isso mostrado através das relações de Lavínia, incapaz de tomar uma decisão, já que depende de seus dois amantes por motivos totalmente opostos.

E como essa incapacidade de decidir pode acabar sendo atropelada pela urgência da vida.

Recomendado.

Valeu!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Livro: A Fórmula da Vida de Adriana Igrejas


No ano passado tive o prazer de ser escolhido como um dos primeiros leitores a apreciar o romance de estréia de uma querida colega de trabalho e é com imensa satisfação que publico hoje aqui no blog a resenha que fiz do livro.

Uma rocambolesca, gostosa e cativante trama de novela televisiva em forma de livro. 

É como posso descrever em poucas palavras o romance de estréia da escritora Adriana Igrejas, A Fórmula da Vida, pela editora LetraCapital com o apoio da Prefeitura de Mesquita-RJ.

É a história de Catarina, uma jovem herdeira atormentada pelo trauma da violenta perda do pai, que morreu dias antes de revelar a fórmula de uma substância capaz de purificar qualquer tipo de água poluída, e de como isso a levou tortuosamente pelos caminhos da vida.

O livro pode ser dividido em três partes:

Na primeira, vemos Catarina conversando com sua psiquiatra enquanto lembra os fatos mais importantes de sua vida desde o assassinato de seu pai. Aos 15 anos, vemos o fim de sua infância e como ela lidou com isso, tentando se reintegrar à sociedade após o baque psicológico, com mudanças de escola, início do treino em artes marciais, busca pela emoção de lutas ilegais e tentativas de fazer justiça com as próprias mãos.

Na segunda parte, Catarina, já formada na faculdade, tenta a sorte trabalhando como zootecnista numa fazenda no interior do Mato Grosso. A mudança brusca da trama é bem justificada por um fato no fim da primeira parte e, entre encontros e desencontros, finalmente presenciaremos um pouco de juízo e o vislumbre de felicidade na vida da personagem.

Na terceira parte, Catarina volta a se confrontar com fantasmas do passado e o mistério da morte de seu pai é, enfim, desvendado, mas não sem esforço e sofrimento da protagonista e com a volta do suspense, da tensão e de ação digna de blockbusters hollywoodianos que fecham a trama com chave de ouro.

Órfã, herdeira milionária, vingadora atormentada, lutadora marcial, justiceira clandestina, zootecnista irascível e mocinha apaixonada são algumas das personas que Catarina assume ao longo dos seis anos desenvolvidos no tempo narrativo do livro.

A autora Adriana Igrejas mistura nesse caldeirão uma série de referências que vão desde as mais clássicas, como Shakespeare e mitos gregos, até as mais atuais da cultura popular resultando numa deliciosa sopa com sabores que agradam a vários gostos.

Seu estilo narrativo lembra um bom folhetim televisivo. Num determinado momento do livro parece que estamos apreciando uma novela de Janete Clair devido às reviravoltas da trama e da força de seus personagens.

A autora também se mostra mestra na ambientação estabelecendo detalhes nas descrições que traduzem com perfeição a vida real para a trama. Destaque para a sequência na escola pública e no trem, tão reais que chegam a assustar.

O que também impressiona são as descrições das cenas de luta que mostram que a autora realmente conhece (ou teve que conhecer) o mundo das artes marciais pra escrever a história. Alguns trechos lembram seriados de ação como Nikita, por causa da força e determinação de suas protagonistas.

 Um belo estudo de personagem numa bela trajetória para encontrar, como foi dito no press-release, a fórmula da vida e uma fórmula DE vida.

Recomendado!
 
Aproveito também pra convidar a todos para o lançamento do livro que será nesse domingo (27/11/2011) às 15hs no Parque de Eventos da Prefeitura de Mesquita que fica na Rua Baronesa de Mesquita, s/No., no Bairro de Cosmorama em Mesquita-RJ. Pertinho da estação de trem de Edson Passos.

Eu já confirmei minha presença pra fazer a leitura de um dos meus trechos favoritos do livro. Compareça, garanta seu exemplar e ajude a prestigiar uma autora nacional.
 
Valeu!
Ps.: Mais informações sobre a obra em: http://aformuladavida.blogspot.com/

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Quadrinhos: Daytripper

O que seria da existência sem os contrastes?

Não daríamos valor a luz das estrelas se não fosse a escuridão. Ao lazer se não fosse o trabalho. Ao chocolate se não fosse o morango. Aos momentos felizes se não fossem os tristes. À vida se não fosse morte.

É por esses contrastes que passeia Daytripper (258 pág., 2011) a última obra em quadrinhos dos gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá, publicada primeiro lá fora numa minissérie em 10 edições pela VERTIGO, o selo de quadrinhos adultos da editora americana DCComics, e que só agora chega aqui em terras brasileiras pela Panini editora. 

Brás de Oliva Domingos é um escritor de obituários com aspirações a grande literatura que vive a sombra do sucesso do pai, um escritor multipremiado e membro da academia brasileira de letras.

Em cada uma das dez histórias somos apresentados a momentos importantes da vida de Brás como o nascimento do filho, as férias de infância com os avós, a viagem pela Bahia com o melhor amigo, o dia que conheceu a esposa e vários outros. 

Contada de forma não-linear, cada capítulo é nomeado com a idade que Brás se encontra e pontuado, num ótimo emprego de realismo fantástico, pela morte do personagem após momentos de alegria ou mesmo de tristeza.

Abordando um tema específico como família, amor, amizade, trabalho, em cada um deles, sempre de um jeito diferente, subvertendo todas as expectativas. 

A obra merece a quantidade de prêmios que vem ganhando atualmente nos EUA e tem muitos méritos que justificam isso. Um deles é causar a identificação imediata através da descrição de episódios que poderiam estar na vida vários leitores.

Os gêmeos continuam afiados nos textos trabalhando de forma poética temas comuns como idas ao sítio, encontros românticos na padaria e até assaltos no botequim. 

Melhoraram bastante na arte, principalmente nas expressões genuínas dos personagens, nos detalhes dos cenários e ao retratar pontos turísticos da Bahia e de São Paulo

Na verdade, toda a caracterização da obra merece destaque. 

Brás, por exemplo, é a cara do cantor e compositor Chico Buarque

E a Bahia representada consegue se apresentar ao mesmo tempo de forma mística e verossímil tendo todas as idiossincrasias dos textos de Jorge Amado

Sem falar nas cores aquareladas que dão um toque todo especial ao sentimento de poesia cotidiana da história. Sem dúvida feita pra emocionar.

Dá até orgulho de ser brasileiro ao ver uma história totalmente produzida por autores nacionais ganhando três dos principais prêmios de quadrinhos nos EUA agora em 2011. Orgulho que não vem só da inegável qualidade da obra, mas pelo fato dela representar tão bem o Brasil.

Moon e Bá, avessos a super-heróis desde o início, começaram a carreira profissional há mais de 10 anos publicando de forma independente o fanzine em quadrinhos 10 Pãezinhos em São Paulo (que já rendeu 5 álbuns por grandes editoras).

Hoje, depois de vários prêmios por aqui que lhe renderam contatos e incursões ocasionais (e premiadas) no mercado americano, mostram que o Brasil pode fazer diferença nos quadrinhos dos EUA não só pela habilidade do traço, mas também nos roteiros.

A vida é feita de escolhas e Brás faz todas elas, algumas certas, outras erradas, e acaba construindo uma trajetória tão particular quanto fascinante.

Uma bela história sobre contrastes que pontua com realismo fantástico os sonhos, as aspirações e os episódios da vida cotidiana de um sujeito comum, com o maior mérito de transformar o mundano em poético.

Recomendadíssimo!

Valeu!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Livro: O Primeiro Relato da Queda de um Demônio

O Primeiro Relato da Queda de um Demônio (devir editora, 234págs, 2004) é o livro de estréia da escritora brasileira Marcela Godoy que trata de um triângulo amoroso entre uma humana e dois conhecidos seres sobrenaturais: um vampiro e um lobo.

Por que se diferencia de outros romances do gênero?

Porque Marcela, que também é roteirista de HQs e professora de roteiro na Quanta Academia de Artes, trabalha esse triângulo amoroso de forma bastante orgânica e incidental, apresentando episódios históricos da inquisição espanhola com uma incrível clareza de detalhes, abordando a origem quase bíblica dessas duas raças fantásticas e discutindo a essência do amor e do que nos faz humanos de forma poética e filosófica. 

Azael é o demônio-lobo albino guardião de Lucien, um vampiro rico, bem apessoado e recluso que vive na cidade espanhola de Ávila.

Num baile comemorativo na noite da assinatura do Tratado de Tordesilhas em 1494, eles conhecem a bela Miriam, cortesã preferida de Glauco, um arcebispo e poderoso inquisidor espanhol.

A atração de Lucien por ela é imediata e entre encontros furtivos e cartas secretas de amor, ele e Azael terão que livrá-la do maldoso Glauco para garantir-lhe a felicidade.

O que Lucien, e o próprio Azael, não contavam é que a curiosidade do lobo pela jovem se transformará em um sentimento puro e maior do que ele e sua missão como guardião serão capazes de suportar.

A história é narrada por Azael (já transformado em humano) à própria Morte, que deve julgar o pedido do demônio-lobo que o leve para o além junto com a mulher que carrega nos braços.

Nesse pano de fundo anunciado de romance trágico, autora Marcela Godoy integra conceitos de filosofia platônica, hindu e até mesmo teosófica como base do aprendizado e discussão do demônio-lobo em busca de sua própria humanidade. 

Por exemplo, Os Sete Princípios do Homem, que rondam Azael depois que ele descobre seu sentimento por Miriam, são bases da Teosofia, uma doutrina que envolve conhecimentos filosóficos, científicos e esotéricos de diversas épocas e lugares do mundo divulgados pela ucraniana Helena Blavatsky no fim do século XIX.

O romance também pende para o lado filosófico da física quântica, principalmente pela máxima dita por Azael do "Tempo dotado de vontade" (que é repetida algumas vezes durante a trama) e que guiaria a vida daqueles que não tem força de vontade o suficiente para tomar as rédeas da própria vida.

Marcela ainda surpreende por inserir na narrativa referências ao Sandman de Neil Gaiman (na figura de Onírus, o deus-dos-sonhos) e ao jogo de RPG Vampiro: a Máscara, sucesso no mundo todo no início dos anos 1990.

Na mitologia do jogo, que é reconstruída e ampliada no livro, o primeiro dos vampiros foi Caim, amaldiçoado e marcado eternamente por Deus após matar seu irmão Abel por inveja.

Na trama do livro, logo depois disso, Caim faz um pacto com o anjo caído Lúcifer, que resulta na criação de Seth, o primeiro demônio a caminhar sobre a Terra na forma de lobo. O primeiro Guardião do Mito do Homem.

Dessa forma, a autora estabelece uma genealogia para a origem de Azael, que é mostrado não com a estética ocidental de “demônio = maldade” e sim com a idéia de que demônios são seres vazios, criados para servir de forma cega, sem aspirações ou desejos pessoais. 

É claro que, a partir de um determinado ponto, Azael não consegue mais afastar a curiosidade que tem pelo sentimento que seu mestre Lucien cultiva pela humana e nem sua própria fascinação pela mesma.

É aí que acontece sua primeira transformação em homem, prenunciada desde o início pelo medalhão que carrega no pescoço, e é o significado da “Queda” alardeada no título da obra.

Publicada um ano antes da famosa série Crepúsculo de Stephenie Meyer, o livro não é recomendado para crianças e nem pessoas de cabeça fraca pela complexidade dos conceitos já abordados acima e também por conter várias cenas de sexo (algumas até não-convencionais).

É claro que os fãs de fantasia gótica poderão apreciar sem moderação, inclusive com as belas e impactantes ilustrações de Marcelo Campos que acompanham a trama.

A história é fechada, mas existe gancho para continuações e é inevitável o gostinho de "quero-mais" deixado pela construção narrativa ao final da leitura. 

A autora, inclusive já começou a publicar os primeiros capítulos da sequência (intitulada "O Mensageiro de Ararat") em seu blog: http://oblogdamarcelagodoy.blogspot.com/2010/04/1-ultrapassam-em-barbarismo-tudo-o_23.html

Só nos resta esperar que a continuação das aventuras de Azael cheguem logo.

Muito recomendado.

Valeu!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Filme: Cilada.com

Quem vai ao cinema esperando ver um ótimo seriado de TV na tela grande pode ir tirando o cavalinho da chuva. 

Cilada.com (2011), filme nacional dirigido por José Alvarenga Jr. (diretor de Os Normais 1 e 2), passa longe do divertido, inteligente, metalingüístico e até um pouco trash seriado criado e estrelado por Bruno Mazzeo para o canal a cabo Multishow.

O que mais impressiona é que a culpa por isso não pode ser atribuída apenas ao diretor visto que Mazzeo também estrela e divide com Rosana Ferrão o crédito pelo roteiro do filme.

Bruno (Bruno Mazzeo) é exposto traindo a namorada Fernanda (Fernanda Paes Leme) numa festa de casamento e ela, pra se vingar, coloca na internet um vídeo de uma transa em que ele terminou muito rápido. 

A princípio ele tenta refutar o vídeo através de depoimentos de ex-namoradas, depois tenta gravar outro vídeo com uma transa mais longa para só então se dar conta que deve voltar pra namorada.

O roteiro é uma coleção de cenas e piadas até divertidas, mas falha em dois quesitos primordiais: consistência narrativa e identificação do público com o personagem.

Os autores do filme declaram (Mazzeo mesmo disse em várias entrevistas) que se trata de uma comédia ROMÂNTICA, mas fica difícil de crer nisso quando, em determinado ponto do filme, tudo leva a crer que os problemas do personagem serão resolvidos quando ele conseguir dizer “eu te amo”, algo que ele nunca disse a namorada em dois anos de relacionamento.

Outra coisa que atrapalha o romantismo do filme é o fato do roteiro fazer questão de frisar, através de algumas lembranças do personagem (a do acampamento e do cinema), o quanto Fernanda é uma boa namorada pra ele, mas não nos convence em nenhum momento que Bruno é um bom namorado pra ela.

Nem mesmo o comprovado carisma do ator nos fazem torcer pelo personagem visto que depois do vídeo ele tenta se vingar da namorada pegando algumas mulheres (e sem querer um travesti) e só após ter falhado nessas tentativas, com pouquíssimas demonstrações de arrependimento, é que decide falar as palavrinhas mágicas e tentar voltar pra ela.

Num outro tipo de análise, a relação entre os dois estaria mais pra uma co-dependência afetiva. Algo mais doentio num sentido psicológico do que explicitamente romântico.

No quesito comédia o filme é até bom (considerando que o humor é só metade da narrativa).

O destaque aí vai pros personagens que rodeiam o protagonista como o vidente (Luis Miranda) e o cineasta Marconha (Serjão Loroza) que roubam as cenas em que aparecem.

Fúlvio Stefanini também está muito bem caracterizado como chefe de Bruno e sua atuação na sequência em que conversa com a filha por telefone provoca gargalhadas na platéia.

É uma pena que a subtrama em que Stefanini aparecia (mais um exemplo da falta de consistência do roteiro) não tem um fechamento, sendo esquecida num determinado ponto do filme.

Há sim boas idéias que confirmam o talento de Mazzeo pra escrever comédias (como as já citadas seqüências do vidente, cineasta e do chefe), mas outras (como a escatológica seqüência de grupo de apoio a ejaculação precoce) passariam bem melhor sendo apenas idéias.

No final do filme a sensação que se tem é que a história foi construída com base num piada alongada demais permeada por uma coleção de piadas menores que não se sustentam como narrativa longa e, muito menos, como comédia romântica.

É melhor continuar na TV.

Valeu!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Filme: Bruna Surfistinha

Tirando uns pequenos problemas com drogas, deve ser fácil ser uma garota de programa. 

É o que concluí após a sessão de Bruna Surfistinha (2011), primeiro longa-metragem do diretor Marcus Baldini.

O filme é baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, best-seller de 2005 onde a ex-garota de programa Raquel Pacheco (que ficou famosa em 2004 por criar um blog de histórias de clientes) conta parte de sua trajetória, motivações e curiosidades de programas que fez como a prostituta Bruna Surfistinha.

Estruturado de forma episódica, o filme mostra Raquel (Deborah Secco) antes de ser prostituta, entrando pra “vida”, aprendendo a profissão, montando seu flat, conhecendo as drogas, criando o blog, fazendo sucesso e sendo dominada pelas drogas até se esgotar.

Apesar de conseguir divertir em muitos momentos, o roteiro peca por não detalhar a motivação dos personagens. 

A voz de Deborah Secco narra boa parte da história, mas mesmo assim depois que você sai do cinema fica com dificuldade de lembrar porque ela começou a ser prostituta.

Existe até um esboço de explicação que não é desenvolvido (como a indiferença do pai e o ódio do irmão), sendo sumariamente abafado por outros aspectos.

Aspectos esses que ele aborda melhor, como a diversidade de clientes, o relacionamento entre as prostitutas, as dificuldades da carreira e o malefício das drogas.

Além da falta de motivação, outro aspecto negativo é que, mesmo tendo o sexo como pano de fundo, o filme pouco menciona a questão da responsabilidade sexual, as paixões das prostitutas e gravidez indesejada além de ignorar completamente qualquer tipo de DST.

Ou seja, tirando um ou outro sonho, aspiração ou problema com droga, o filme apresenta um olhar bastante machista sobre o assunto visto que as garotas de programas do filme são quase robôs sexuais, transando muito e praticamente sem reclamações.

Sem falar na parte final que lembra aquelas histórias de ascensão-queda-retorno como se a personagem fosse algum tipo de artista, político ou mesmo estrela da música que aprende a lição e muda completamente no fim, o que não ocorre aqui, afinal ela tem uma meta a cumprir.

O que salva o filme é sem dúvida o elenco muito bem escolhido com atores talentosos ou ao menos carismáticos que mantém os olhos do espectador pra tela. 
 
Deborah Secco está lindíssima como Bruna Surfistinha e sua transformação de adolescente tímida a mulher-fatal é bastante admirável. Belo trabalho de composição da atriz que, mesmo com tantos problemas de roteiro, consegue tornar o filme assistível. 

Atuação elogiosa também de Cássio Gabus Mendes, que como Huldson, consegue fazer milagres pelo papel pouco desenvolvido.

Mas o destaque mesmo vai pra Drica Moraes, como a cafetina Larissa, que rouba sempre as cenas em que aparece com suas expressões e jeito de falar bem peculiares, conseguindo imprimir realidade e profundidade a uma personagem escrita no limite do cartunesco. Uma atriz acostumada com comédias que merecia mais papéis dramáticos no cinema.

O filme ainda tem uma boa direção de fotografia que faz questão de mostrar os corpos nus tanto das garotas quanto dos homens em diferentes posições e modalidades sexuais em eterno contraste entre o belo, o feio e o aceitável.

Um filme bastante razoável cujo roteiro funciona melhor como pequenas anedotas episódicas e falha como narrativa longa, sendo salvo pelo talento e carisma dos protagonistas que carregam o filme nas costas.

Valeu!

sábado, 15 de janeiro de 2011

Filme: De Pernas Pro Ar

É fato notório e consumado que o brasileiro gosta muito de sexo. Explicação pra isso? Várias. Uma indiscutível é o clima tropical que nos obriga a mostrar muito mais pele do que outras pessoas no planeta, exaltando assim a atração entre os pares.

Por conta disso, o sexo está enraizado em nossa cultura diária muito mais do que em várias partes do mundo. O que não nos torna necessariamente uma sociedade de depravados e nem mesmo avançados sexualmente. Ou seja, apesar do excesso de sensualidade, o sexo ainda é abordado com muito tabu na sociedade brasileira.

O filme De pernas pro ar do cineasta Roberto Santucci tenta mudar essa visão.

Alice (Ingrid Guimarães) é a gerente de marketing de uma grande empresa de brinquedos as vésperas de receber uma grande promoção. Viciada em trabalho, ela dá pouca atenção ao marido (Bruno Garcia) e ao filho até que, por causa de um erro numa apresentação, ela é demitida sumariamente e ainda é abandonada pelo marido no mesmo dia. Sem perspectivas, vê uma alternativa de trabalho (e de mudança de vida) ao entrar de sócia com a vizinha Marcela (Maria Paula) numa SexShop.

O tema do filme é a liberação e o preconceito sexual e o arco dramático de Alice é muito bem montado pelo roteiro que consegue apresentar e desenvolver satisfatoriamente a personagem em três fases: a quebra do preconceito, a descoberta do prazer pela auto-satisfação e o enfim bom relacionamento com a família.

Prato cheio pra imediata identificação feminina.

Tudo isso trabalhando com piadas e tiradas muito bem-humoradas (algumas já clássicas) sobre sexo, que sem nenhum tipo de apelação ou mau-gosto conseguem evocar o riso certo em qualquer tipo de espectador.

Ingrid Guimarães mostra que tem força pra levar um personagem principal ao mostrar muito carisma interpretando Alice. Apesar de parecer um pouco burocrática em algumas cenas, é sem dúvida a alma do filme.

Maria Paula não decepciona, mas não mostra muito aprofundamento de atuação, fazendo praticamente o mesmo que já fazia no programa de tv dos Cassetas.

E Bruno Garcia... bem, Bruno Garcia faz o mesmo marido charmoso e preocupado que já deve ter feito algumas vezes na TV.

E esse é um ponto ruim do filme: praticamente todos os atores já são conhecidos da televisão e nenhum deles consegue entregar algo além do que já foi visto na telinha.

Menção honrosa para a veterana Denise Weinberg, premiada atriz e professora de teatro que interpreta a mãe de Alice, Marion, muito a vontade e engraçada no papel de uma senhora aposentada que só quer saber de viver a vida.

Com um trabalho satisfatório de direção e edição que cumprem claramente o papel de servir ao texto e ao carisma dos atores, o filme merece o sucesso que está fazendo principalmente pelos temas discutidos e pelas gargalhadas que algumas situações inusitadas dessa discussão evocam pelo caminho.

Recomendado.

Valeu!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Filme: Tropa de Elite 2

“Os artistas usam a mentira para revelar a verdade, enquanto os políticos usam a mentira para escondê-la.”

É uma das (muitas) frases marcantes escritas por Alan Moore em uma de suas mais impactantes HQs, V de Vingança (que foi adaptada para o cinema em 2005), e também é a frase que me veio a cabeça ao fim da sessão de Tropa de Elite 2 (2010) do diretor José Padilha.

Dando seqüência ao violento, crítico e ótimo filme de 2007, cuja importância da mensagem foi sobrepujada pela polêmica do lançamento de uma cópia pirata meses antes da estréia oficial, este novo filme não deixa nada a dever ao original. Muito pelo contrário.

O capitão Nascimento (Wagner Moura) agora é coronel e comanda o BOPE (Batalhão de Operações Especiais da polícia militar do RJ). É então que , numa rebelião no presídio de segurança máxima Bangu 1, as coisas dão errado e Nascimento é demovido de seu posto. Apesar disso, ganha um cargo na segurança pública do estado e, por causa de pendências pessoais com um ativista de direitos humanos chamado Fraga (Irandhir Santos), demora a perceber que o verdadeiro mal que assola o Rio de Janeiro pode não ser os traficantes que combateu com tanto afinco esses anos todos, e sim os currais eleitorais de políticos corruptos controlados pelas milícias, como Fraga sempre fez questão de frisar. O problema é que até ele perceber isso pode ser tarde demais.

Além de Padilha e Moura, grande parte da equipe retornou para essa continuação e muito do sucesso do filme (que em pouco mais de uma semana em cartaz já levou 4 milhões de pessoas aos cinemas e arrecadou mais de 12 milhões de reais) com certeza se deve a isso. 

O roteiro, por exemplo, é do mesmo escritor do filme anterior, Bráulio Mantovani, baseado num argumento do próprio Padilha e de Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, que também colaborou com primeiro filme e dividiu os créditos pelo livro Elite de Tropa. Dizem que o personagem de Nascimento, por exemplo, teria sido inspirado no próprio Pimentel. 

Enquanto o primeiro se passava em 1997, esse segundo filme mostra dois momentos distintos. O primeiro terço se passa em 2006, mostrando todo o problema ocorrido em Bangu 1 e suas conseqüências a curto prazo, enquanto que os outros dois terços mostram a formação das chamadas milícias (grupos formados por policiais, bombeiros e outros que intimidam moradores e monopolizam a venda de produtos em comunidades desfavorecidas) e o arco de amadurecimento pessoal do próprio Nascimento com mudanças radicais, embora muito bem pautadas e justificadas, em sua postura mostrada no filme original.

Mas não se engane com a frase acima, Nascimento ainda é um personagem sanguinário que se torna carismático devido a sua divisão entre o seu determinado senso de dever e justiça e os questionamentos sobre o que faz.

O que acontece aqui é o crescimento do personagem através de um confronto direto com a culpa, o que já esboçava indiretamente no primeiro filme através de seus ataques de pânico e conversas com psicólogos. 


Wagner Moura realmente dá um show, tanto nas expressões, quanto na impostação de voz e na postura do personagem que em certo ponto do filme fica claramente encurvada demonstrando seu cansaço.

O rapper André Ramiro, que interpreta o agora capitão André Matias, também retorna e, apesar de não ter tanto tempo de tela como no primeiro filme, consegue se sair muito bem para quem não tem formação de ator.

Destaque para Irandhir Santos, intérprete de Fraga, cuja emoção e a seriedade com que leva o personagem conseguem passar toda a nobreza de seus sentimentos. É o terceiro filme em que o ator tem papel de destaque esse ano (os outros foram comentados por mim aqui e aqui). E com personagens bem diferentes. Mais um ponto no crescimento desse que se revela um dos melhores e mais atuantes atores do cinema nacional da atualidade.

Vale ressaltar também a participação de André Mattos como Fortunato, um apresentador de TV cujo mote do programa é destacar crimes e ações policiais e que, por conta disso, acaba se elegendo deputado e virando um dos líderes da milícia combatida por Fraga e Nascimento. Quem é do Rio de Janeiro sem dúvida vai identificar a polêmica inspiração do personagem num apresentador real de um popular programa que costuma passar na hora do almoço na filial carioca da emissora de um bispo evangélico.

E ainda tem a volta de Milhem Cortez, como o impagável e corrupto Fábio, que, apesar de agora ser coronel, continua engraçado, cagão e imoral como sempre.

Parte técnica invejável, com seqüências de ação extremamente bem feitas e realistas filmadas em locações verdadeiras, com algumas sequências na própria sede do BOPE e com equipamentos reais do batalhão. 

A câmera firme e o olhar de José Padilha se estabelecem cada vez mais como uma das melhores da atualidade no Brasil. Resta saber se o diretor demonstraria talento se arriscando em filmes com outra temática que não violência e crítica social. Mas, mesmo assim, ele está ótimo onde está.

Uma grande crítica a formação política e policial brasileira com toques de violência embasados pelo arco de desenvolvimento pessoal do coronel Nascimento é o que esperar desse ótimo filme.

Aliás, a crítica política é tão contundente que já ouvi alguém dizer que se o filme estreasse antes das eleições desse ano teríamos uma avalanche de votos nulos nas mãos.

Seria interessante ver os políticos numa situação dessa afinal, citando Alan Moore e seu V de Vingança mais uma vez: "O povo não deve temer seu governo. O governo deve temer seu povo."

Recomendado!

Valeu!
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