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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Seriado: American Horror Story

"Uma das séries mais surpreendentes de 2011.” 

“Os sustos estão de volta a televisão.” 

“Você vai morrer (de medo) assistindo isso aqui.”

São algumas das frases atribuídas a esse seriado em 2011. E com absoluta razão.

American Horror Story é uma série em 12 episódios que foi ao ar de outubro a dezembro de 2011 no canal a cabo FX nos EUA e ainda se encontra em exibição por aqui no canal FOX Brasil.

É uma série de terror adulto que bebe na fonte de filmes clássicos como Os outros, O Iluminado, O Bebê de Rosemary, Sexto Sentido e vários outros com direito a sustos provindos de um suspense sobrenatural constante.

A família Harmon está em crise após o marido Ben (Dylan McDermott) ser pego traindo a esposa Vivien (Connie Britton) que tinha acabado de ter um aborto. É quando resolvem se mudar junto com a filha adolescente Violet (Taissa Farmiga) para tentar superar a crise num lugar diferente.

O problema é que a casa escolhida para isso em Los Angeles já foi palco de muitos crimes e assassinatos violentos guardando em suas paredes várias gerações de espíritos, cada qual com sua história horripilante e com diferentes objetivos reservados para a inocente família.

O sucesso de público e crítica que a série teve em míseros três meses de exibição se deve a vários fatores.

Sua estrutura narrativa não-convencional, com várias voltas ao passado para contar a história de cada fantasma ou aprofundar a personalidade dos personagens vivos (como já feito em LOST) é um desses fatores que instigam e surpreendem o espectador por revelar fatos novos a cada episódio.

Seu clima sombrio, resultado da mistura da trilha sonora pontual e econômica com a paleta de cores sombrias em contraste os vibrantes vermelho e verde junto com os ângulos de câmera inclinados e tomadas constantemente desfocadas em momentos de tensão ajudam a manter o clima de suspense da série.

A escolha do elenco sem dúvida também ajudou muito, com destaque para a veterana Jéssica Lange, vencedora de dois Oscars e vários outros prêmios de atuação, que aqui interpreta Constance, a vizinha enxerida, que revela ter mais a ver com a casa e seus fantasmas do que o espectador suspeitaria.

Outro dos fatores é a homenagem aos clássicos do terror (já citados) em que passeiam pela trama fantasmas obsessivos, bebês demoníacos, doutores frankensteins, assassinos seriais, monstros deformados e imitadores de assassinatos, com destaque para genocidas adolescentes (como aqueles que atacam escolas) e profecias apocalípitcas.

Tudo isso apenas nos 12 episódios dessa primeira temporada, que fecha história da família Harmon, deixando, claro, várias pontas que podem ser desenvolvidas na (já confirmada) segunda temporada, sobretudo em relação ao passado (e a promessa de futuro) da vizinha Constance.

Supreendentemente criada e produzida pelos mesmos autores de Glee, Ryan Murphy e Brad Falchuk, American Horror Story vem, segundo o próprio Murphy, em resposta a um apelo de um lado diferente lado de sua própria personalidade.

Os episódios mais assustadores são os da primeira metade da temporada que estabelecem as bases para o clima do seriado, que acaba perdendo um pouco do suspense na metade final.

O que já podia ser esperado, principalmente por conta da necessidade de aprofundamento das relações entre os personagens que serviu para amarrar a trama para o final da temporada.

É claro que essa perda do suspense não altera a qualidade da série, que se torna difícil de largar desde o primeiro episódio.

É o terror clássico revisitado com modernas técnicas narrativas, mas mantendo aspectos dos suspenses de sucesso com privilégio de mais tempo de tela a ser desenvolvido pela trama.

Recomendado!  (Até pra quem não gosta de filmes de terror.)

Valeu!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Livro: O Primeiro Relato da Queda de um Demônio

O Primeiro Relato da Queda de um Demônio (devir editora, 234págs, 2004) é o livro de estréia da escritora brasileira Marcela Godoy que trata de um triângulo amoroso entre uma humana e dois conhecidos seres sobrenaturais: um vampiro e um lobo.

Por que se diferencia de outros romances do gênero?

Porque Marcela, que também é roteirista de HQs e professora de roteiro na Quanta Academia de Artes, trabalha esse triângulo amoroso de forma bastante orgânica e incidental, apresentando episódios históricos da inquisição espanhola com uma incrível clareza de detalhes, abordando a origem quase bíblica dessas duas raças fantásticas e discutindo a essência do amor e do que nos faz humanos de forma poética e filosófica. 

Azael é o demônio-lobo albino guardião de Lucien, um vampiro rico, bem apessoado e recluso que vive na cidade espanhola de Ávila.

Num baile comemorativo na noite da assinatura do Tratado de Tordesilhas em 1494, eles conhecem a bela Miriam, cortesã preferida de Glauco, um arcebispo e poderoso inquisidor espanhol.

A atração de Lucien por ela é imediata e entre encontros furtivos e cartas secretas de amor, ele e Azael terão que livrá-la do maldoso Glauco para garantir-lhe a felicidade.

O que Lucien, e o próprio Azael, não contavam é que a curiosidade do lobo pela jovem se transformará em um sentimento puro e maior do que ele e sua missão como guardião serão capazes de suportar.

A história é narrada por Azael (já transformado em humano) à própria Morte, que deve julgar o pedido do demônio-lobo que o leve para o além junto com a mulher que carrega nos braços.

Nesse pano de fundo anunciado de romance trágico, autora Marcela Godoy integra conceitos de filosofia platônica, hindu e até mesmo teosófica como base do aprendizado e discussão do demônio-lobo em busca de sua própria humanidade. 

Por exemplo, Os Sete Princípios do Homem, que rondam Azael depois que ele descobre seu sentimento por Miriam, são bases da Teosofia, uma doutrina que envolve conhecimentos filosóficos, científicos e esotéricos de diversas épocas e lugares do mundo divulgados pela ucraniana Helena Blavatsky no fim do século XIX.

O romance também pende para o lado filosófico da física quântica, principalmente pela máxima dita por Azael do "Tempo dotado de vontade" (que é repetida algumas vezes durante a trama) e que guiaria a vida daqueles que não tem força de vontade o suficiente para tomar as rédeas da própria vida.

Marcela ainda surpreende por inserir na narrativa referências ao Sandman de Neil Gaiman (na figura de Onírus, o deus-dos-sonhos) e ao jogo de RPG Vampiro: a Máscara, sucesso no mundo todo no início dos anos 1990.

Na mitologia do jogo, que é reconstruída e ampliada no livro, o primeiro dos vampiros foi Caim, amaldiçoado e marcado eternamente por Deus após matar seu irmão Abel por inveja.

Na trama do livro, logo depois disso, Caim faz um pacto com o anjo caído Lúcifer, que resulta na criação de Seth, o primeiro demônio a caminhar sobre a Terra na forma de lobo. O primeiro Guardião do Mito do Homem.

Dessa forma, a autora estabelece uma genealogia para a origem de Azael, que é mostrado não com a estética ocidental de “demônio = maldade” e sim com a idéia de que demônios são seres vazios, criados para servir de forma cega, sem aspirações ou desejos pessoais. 

É claro que, a partir de um determinado ponto, Azael não consegue mais afastar a curiosidade que tem pelo sentimento que seu mestre Lucien cultiva pela humana e nem sua própria fascinação pela mesma.

É aí que acontece sua primeira transformação em homem, prenunciada desde o início pelo medalhão que carrega no pescoço, e é o significado da “Queda” alardeada no título da obra.

Publicada um ano antes da famosa série Crepúsculo de Stephenie Meyer, o livro não é recomendado para crianças e nem pessoas de cabeça fraca pela complexidade dos conceitos já abordados acima e também por conter várias cenas de sexo (algumas até não-convencionais).

É claro que os fãs de fantasia gótica poderão apreciar sem moderação, inclusive com as belas e impactantes ilustrações de Marcelo Campos que acompanham a trama.

A história é fechada, mas existe gancho para continuações e é inevitável o gostinho de "quero-mais" deixado pela construção narrativa ao final da leitura. 

A autora, inclusive já começou a publicar os primeiros capítulos da sequência (intitulada "O Mensageiro de Ararat") em seu blog: http://oblogdamarcelagodoy.blogspot.com/2010/04/1-ultrapassam-em-barbarismo-tudo-o_23.html

Só nos resta esperar que a continuação das aventuras de Azael cheguem logo.

Muito recomendado.

Valeu!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Seriado: Supernatural

E como estou falando de seriados, não custa chamar a atenção para a 5a. temporada do seriado de fantasia-suspense-terror Supernatural, que passa atualmente no Warner Channel Brasil e narra as aventuras dos irmãos Sam e Dean Winchester caçando demônios e todo tipo de criatura sobrenatural na base da faca, estaca de madeira, espingarda de sal e outras armas não tão óbvias pelos Estados Unidos.

Admito que nunca fui muito fã do seriado e, apesar de ter assistido ocasionalmente, não acompanhei as três primeiras temporadas.
Meu interesse mudou a partir da 4a temporada, quando Dean (Jensen Ackles), o irmão mais velho, foge do inferno com uma ajudinha de nada menos que anjos (que não tinham aparecido na série até agora) e dá início ao rompimento dos 7 selos que trarão o apocalipse.

A caracterização dos anjos como criaturas que, apesar de se manifestarem na Terra possuindo o corpo de humanos somente com a sua permissão, não são tão bonzinhos quanto parecem, podendo ser tão cruéis, sádicos e manipuladores quanto os demônios (o que me lembrou o ótimo filme Anjos Rebeldes) é o que a princípio me atraiu para a 4ª temporada da série.
Além do envolvimento de anjos trazer renovação a uma trama que antes que era dominada pela busca ao pai desaparecido, confrontos com demônios e vingança pela morte da mãe, o que mais me prendeu a essas 4a e 5ª temporadas foi a capacidade do seriado em não se levar tão a sério.
Não me entenda mal, os irmãosWinchester estão realmente preocupados em impedir o apocalipse de acontecer e tal, mas os produtores e escritores aprenderam a usar com sucesso o humor como elemento de diluição da tensão. Geralmente no relacionamento entre os irmãos ou em situações absurdas que os personagens reconhecem como tal, mas ainda tem que achar um jeito de sair delas.

Uma delas em especial, que teve início na 4ª temporada, é o fato dos irmãos descobrirem que foram transformados em personagens de uma série de livros de relativo sucesso que relata todas as aventuras que viveram desde o início do seriado. Isso se dá através de um escritor denominado pelos anjos como profeta moderno, que consegue sintonizar nos seus sonhos a vida dos irmãos Winchester e vê na literatura a forma de tirar proveito econômico dessas visões que não o deixam em paz.

Sam e Dean não gostam nada de ter suas vidas, aventuras e desventuras devassadas para um bando de pessoas que acham que eles não são reais e isso acaba rendendo um dos mais engraçados episódios, tanto da 4a quanto da 5a temporada, pela metalinguagem explícita através de críticas ao próprio formato da série, sempre na fala de outros personagens, claro.
Pra quem quer saber o rola atualmente na trama (quem não quiser não precisa ler o que vem a seguir):
No final da 4ª temporada, Sam (Jared Padalecki), o irmão mais novo, mata o demônio Lilith e acidentalmente quebra o sétimo e último selo que prendia Lúcifer (Mark Pellegrino) ao inferno, trazendo-o para a Terra e dando origem ao apocalipse bíblico. No início da 5a temporada, eles descobrem que todo o processo de quebra dos selos foi na verdade um plano dos anjos para apressar a destruição do mundo, já que Deus há tempos os abandonou nos Céus para vagar na Terra e eles não fazem idéia de onde ele possa estar.
Agora, os irmãos, ajudados pelo anjo rebelado Castiel (Misha Collins) tem que enfrentar tanto anjos quanto demônios, impedir Lúcifer de despertar os 4 cavaleiros do apocalipse, enquanto procuram Deus e adiam a utilização da Terra como campo da batalha final entre anjos a demônios.
A sub-trama da busca por Deus, mesmo que ainda não encarada até o 10º episódio, me surpreendeu e me fez acompanhar esta 5ª temporada por lembrar o gibi Preacher, um dos quadrinhos adultos mais elogiados dos últimos tempos.


A história de Preacher (já finalizada nos EUA) trazia um Pastor acidentalmente encarnado com o poder da voz de Deus (que obriga a qualquer um fazer o que ele quer) acompanhado de sua ex-namorada, que agora é assassina de aluguel, e de um vampiro irlandês beberrão procurando por Ele através dos EUA. Foi uma série muito bem escrita, que não é recomendada para pessoas fracas, por freqüentemente abordar temas pesados, além de ter muitas cenas fortes.

Com atuações que vão de boas a medianas, produção acima da média, trilha regada a Rock´N Roll Clássico e roteiros inspirados em filmes, quadrinhos e na própria bíblia, a 5ª temporada de Supernatural é uma ótima pedida pra quem procura uma série de fantasia-suspense-terror com uma pegada diferente.

Recomendado!

Valeu!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Dica de Livro: Coisas Frágeis

Devo ficar afastado daqui durante um tempo, já que as provas começam essa semana.

Então vou tentar falar um pouco sobre esse livro que comecei a ler já tem quase um ano e só terminei agora.

Calma, calma. Não é que o livro seja difícil ou qualquer coisa assim. É um livro de contos. E bons contos geralmente são melhores apreciados se lidos com um espaço de tempo de um para o outro.

E são contos escritos por um dos meus autores favoritos: Neil Gaiman.

Ele já foi citado aqui no blog algumas vezes, mas não custa nada recapitular.

Gaiman é um escritor nascido e criado na Inglaterra que alcançou fama mundial por ter escrito todas as histórias das 75 edições da série em quadrinhos Sandman, para a editora DCComics americana.

Pra quem não sabe Sandman (ou Morpheus) é a personificação dos sonhos e faz parte de uma família de sete irmãos conhecida como Perpétuos.

São eles Destino, Morte, Sonho (o próprio Sandman), Desejo e Desespero (gêmeos), Delírio (que já foi Deleite) e Destruição. São entidades mais poderosas que deuses (já que não precisam serem adorados pra existirem), mas que estão abaixo dos humanos na escala de importância do universo, já que dependem de vida inteligente pra existir. Qualquer dia falarei mais deles aqui.

Antes de Sandman porém, Gaiman já era jornalista e escritor na Inglaterra e de vez em quando tinha alguns contos publicados em publicações coletivas. A primeira coletânea de contos só dele, com histórias dessa primeira fase pré-Sandman chama-se Fumaça e Espelhos: Contos e Ilusões e foi publicada aqui no Brasil em 2002.

O livro que acabo de ler é a segunda coletânea de contos do autor chamada de Coisas Frágeis (Editora Conrad, 2008, 205 pág.) e reúne contos escritos por ele depois do sucesso da série Sandman.

Alguns contos inclusive já haviam saído em publicações estrangeiras e entram aqui por uma questão de homenagem do autor ao tentar captar estilos ou se aventurar em universos de seus autores favoritos.

A edição brasileira contém 9 contos e Gaiman fez questão de falar de como foi escrever cada um deles na introdução. A grande maioria foi feita por encomenda a pedido de editores, amigos escritores e até de uma das filhas dele, mas isso não diminui sua qualidade.

Vou tentar falar dos que mais gostei.

"Um Estudo em Esmeralda" se passa na Inglaterra vitoriana do século XIX e mostra o famoso detetive Sherlock Holmes conhecendo seu parceiro John Watson enquanto tenta desvendar um assassinato na família real inglesa. Só que a família real inglesa não pertence muito a esse mundo. Gaiman diz ter sido uma tentativa de juntar as aventuras de Sherlock Holmes com o universo de montros de H.P. Lovecraft. Arrepiante!

"Golias" foi escrita para o site do filme Matrix e publicada meses antes do filme estrear nos cinemas. É a carta de despedida de um sujeito a sua esposa. Ele conta como descobriu que o mundo era uma mentira tendo sua vida reiniciada por duas vezes dentro devido a uma falha na Matrix causada por ataque alienígena a Terra do mundo real. O mais interessante é a passagem de tempo no mundo real em comparação com o tempo dentro da Matrix.

"O Pássaro-do-Sol" foi uma tentativa de Gaiman homenagear R. A. Lafferty, escritor falecido em 2002, ao mesmo tempo que atendia ao desejo de sua filha de um conto como presente de aniversário. É a história de um clube gastronômico que se entediava de já terem experimentado todo tipo de animal que há para se comer no mundo, desde abutres e morcegos até pandas e mamutes achados preservados em blocos de gelo. É então que um de seus integrantes mais antigos e excêntricos propõe uma caça ao misterioso Pássaro-do-Sol. A aparição de uma Fênix no final é bastante empolgante.

"O Monarca do Vale" se passa dois anos depois do fim do romance Deuses Americanos (também escrito por Gaiman). Shadow (o personagem principal do romance) está viajando pela Europa quando encontra na Escócia uma chance de ganhar um bom dinheiro sendo segurança de uma festa particular. Mas nem tudo é o que parece e alguns ricaços parecem estar dispostos a se aproveitarem de sua semi-divindade. Podem esperar participações especiais de deuses e monstros de mitos antigos. O autor até pede para fazerem uma comparação de uma personagem recente da atriz Angelina Jolie com um personagem presente neste conto.

Nos outros cinco contos restantes ainda há homenagens às Crônicas de Nárnia, treinos para romances posteriores, inspirações no movimento punk e até uma história inspirada num desenho de Frank Frazetta (dei uma pesquisada rápida e acho que é esse aí do lado).

Gaiman já esteve três ou quatro vezes no Brasil sendo a última delas em 2008 na FLIP (Feira Literária) em Paraty. Suas vindas são famosas pelas filas de autógrafos gigantescas.

Eu mesmo cheguei a me aventurar numa dessas na Bienal do Livro aqui no Rio em 2001 e peguei um autógrafo numa edição de contos organizados por ele, mas escritos por outros autores, sobre o universo do personagem Sandman.

Posso ser meio suspeito pra falar, mas suas histórias valem muito a pena.

Só não espere resultados muito comuns nas histórias saídas da mente desse que é um dos melhores escritores de fantasia-suspense-terror em atividade atualmente.

Como ele mesmo diz na introdução: muitos contos são pensados de um jeito, mas ao serem escritos assumem caminhos próprios e completamente inesperados.

Valeu!
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