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domingo, 6 de maio de 2012

Quadrinhos: O Eternauta

Uma das coisas boas da globalização (entre tantas outras) é conhecer melhor a cultura de outros países.
       
É a essência da expressão “aldeia global”, criada há pouco mais de 40 anos, que explica como países distantes vão ficar cada vez mais próximos e se mesclar em busca de identidade.
  
Por conta disso é de se estranhar o porquê de só agora começar a chegar ao grande público brasileiro, vinda de um país próximo como Argentina, uma História em Quadrinhos da qualidade de O Eternauta (El Eternauta, 360 págs.), que demorou mais de 50 anos para aportar por aqui.
    
Editada pela Martins Fontes e prefaciada pelo professor, jornalista e quadrinista brasileiro Paulo Ramos, a HQ, roteirizada por Héctor Germán Oesterheld (1919-1977) e desenhada por Francisco Solano Lopez (1928-2011) apresenta um personagem que, junto com a esperta e ideológica Mafalda (das tiras do quadrinista Quino), é o mais famoso e iconográfico da Argentina.
    
É a história do viajante do tempo Juan Salvo, que aparece de surpresa na casa de um assustado roteirista de quadrinhos e conta como ficou “ilhado” em casa junto com sua esposa, filha e um grupo de amigos, numa corriqueira noite de jogo de truco, vítimas de uma estranha nevasca que mata ao menor contato com a pele.
                                            
Tem início então uma verdadeira odisseia de sobrevivência do grupo com direito a guerrilhas, fugas desesperadas, homens-robô zumbis, armas estranhas, gigantescos monstros de quatro patas e alienígenas que podem escravizar ou acabar com a Terra.
                         
A trama surgiu quando Héctor Oesterheld decidiu fundar sua própria revista semanal e levou consigo vários colaboradores, entre eles Lopez, que em 1957 recebeu a proposta de desenhar a HQ.
                               
Segundo Paulo Ramos, Solano diz a Oesterheld que gostaria de desenhar uma ficção científica realista e contemporânea com personagens de fácil identificação com o leitor.
Foi então que Hector surgiu com essa história que, segundo ele, começou baseada num de seus romances de aventura preferidos quando criança, Robinson Crusoé (do autor inglês Daniel Defoe), e depois acabou se tornando algo que ele mesmo não esperava.
 
Publicada durante dois anos num formato semanal, com tiras horizontais de 8 a 12 quadros por página, O Eternauta é uma perfeita ficção científica de vanguarda bebendo nas fontes de Edgar Rice Burroughs (Conan, A Princesa de Marte) e H.G.Wells (Homem Invísivel, A máquina do Tempo, Guerra dos mundos), prestando grande homenagem ao segundo por conta da invasão alienígena.
 
Os desenhos de Solano Lopez são realistas na medida certa, evocando um estilo de época e traduzindo com perfeição alguns pontos turísticos da cidade de Buenos Aires como o estádio do River Plate

Francisco Solano Lopez em 2010
Seu talento para desenhar fisionomias e expressões humanas é invejável, mesmo com tantos personagens que passam pela narrativa, são todos facilmente identificáveis.
  
Oesterheld consegue a façanha de criar personagens humanos de personalidades bem definidas, os jogando constantemente em situações dramáticas e emocionantes numa trama que se torna difícil de largar. 

Oesterheld
O formato semanal exige uma tensão constante com muitas reviravoltas, colocadas justamente pra prender o leitor, que poderiam se tornar cansativas, mas acabam te deixando mais interessado no destino dos personagens, o que é a tradução do imenso talento do escritor.
  
É uma pena que Oesterheld (que entre outros também escreveu uma biografia em quadrinhos de Che Guevara resenhada aqui), foi vítima da ditadura Argentina e tenha sido dado como desaparecido em 1977 por conta de suas idéias de esquerda.

Fato que também se repetiu com suas quatro filhas adultas e aproximadamente 30 mil pessoas enquanto os militares ficaram no poder.
 
Tudo que sobrou do autor foram suas obras nas HQs, sua esposa e um dos netos, para contarem sua história.

Lamentável, não só pela sua contribuição a arte latina e mundial, mas pelo fato de ali se encontrar um ser humano.
 
Talvez motivada pelo mistério em torno do desaparecimento do autor, a história fez tanto sucesso que hoje, depois de várias republicações, tornou o personagem um símbolo da resistência Argentina ante a qualquer tipo de crise, sendo inclusive lembrado recentemente em diversas pixações feitas nos muros de Buenos Aires durante a crise econômica e no governo Kischner.
 
A trama ainda apresentou continuações (muitas não-oficiais), mas pelo menos uma delas, feita pelos autores originais antes da morte de Oesterheld, poderia aparecer por aqui no encalço dessa obra.

Uma ficção científica inteiramente produzida no nosso país hermano, que estreita nossas fronteiras quadrinistícas e que, mesmo passada há 50 anos atrás, está pronta para entrar para a História por não dever nada aos grandes autores do gênero.
 
Recomendado.
 
Valeu!

domingo, 27 de março de 2011

Filme: TRON- O Legado

Admito que fiquei com medo de assistir esse filme. Minha expectativa era grande, mas o excesso de críticas ruins me fez adiar a apreciação do filme até agora. 

E, justiça seja feita, TRON: O Legado (TRON: Legacy, 2010) dirigido pelo estreante Jospeh Kosinski, não é um filme ruim.

7 anos depois de sua aventura no mundo virtual (retratada no filme de 1982), o programador Kevin Flynn (Jeff Bridges) desaparece misteriosamente deixando sua empresa ENCOM e seu filho Sam Flynn (Garrett Hedlund) ao julgo do destino. Passados 20 anos desde seu desaparecimento, seu amigo Alan (Bruce Boxleitner) recebe uma mensagem eletrônica e avisa Sam que o pai pode estar vivo.

O jovem Flynn vai ao antigo fliperama do pai e é transportado para o mundo virtual onde descobrirá uma conspiração do programa CLU (um jovem Jeff Bridges) para tomar de assalto o mundo virtual e até o real.

Roteirizado a quatro mãos por Edward Kitsis e Adam Horowitz, responsáveis por vários episódios da série LOST, o filme tem uma trama bem estruturada em termos de filme de ação, porém bastante superficial dada às implicações que a existência de um mundo virtual praticamente independente poderia trazer. 

O primeiro filme foi uma verdadeira revolução digital pelo pioneirismo no uso de computação em larga escala em sua pós-produção e fez bastante sucesso por isso, mas também compartilhava do mesmo problema de roteiro. O que não foi grande coisa na época já que o mundo computadorizado apenas começava a ser explorado no cinema.

Hoje em dia, com tantas produções sobre mundos virtuais já produzidas (vide Matrix e outros), esse TRON: O Legado já chega datado por seu roteiro que se preocupou mais em homenagear o filme de 1982 do que situar a trama num mundo mais palpável.

Apesar disso consegue empolgar na atuação de Jeff Bridges em três papéis bastante distintos: o empreendedor Kevin Flynn de 1989, o invejoso vilão CLU e o quase “mestre-zen” do Kevin Flynn atual.

Boa composição do ator que, ajudado por seu rejuvenescimento digital, cativa em todas as cenas que aparece.

Grande fase de Bridges, que tem tido várias indicações a prêmios nos últimos dois anos, inclusive ganhando o OSCAR em 2010 por outro filme.

Outro ponto empolgante é a trilha sonora da dupla francesa Daft Punk que, emulando sons eletrônicos dos anos 1980, consegue criar músicas que homenageiam a trilha original e concebem perfeitamente a emoção de cada cena.

Prato cheio não só pra quem gosta de música eletrônica, mas também pra quem viveu a época homenageada. 

Mas o principal mesmo é o visual do filme.

Atualizando os efeitos do primeiro, esse filme impressiona bastante pela paleta de cores escolhida, por rejuvenescer as cenas de ação do filme anterior e por criar muitas novas seqüências computadorizadas na pós-produção.

Seqüências que, se não se destacam pelos detalhes ou pelo nível de computação gráfica utilizada, causam um grande impacto visual no espectador.

Um bom filme de ação, que apesar do roteiro fraco, se destaca pela atuação de seu protagonista, pelos efeitos e pela empolgante trilha sonora com apelo oitentista.

Não é uma maravilha da sétima arte, mas valeria o ingresso pra ver no cinema.

Recomendado.
Valeu!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quadrinhos: Y - O último Homem - A senha

Raramente falo de obras mais de uma vez aqui no blog, mas a continuidade e, principalmente, a qualidade dessas séries praticamente me obrigaram a escrever esse post e o próximo.

Foram lançados bem recentemente pela Panini Editora dois álbuns de quadrinhos que dão continuidade a duas das melhores sagas do selo adulto VERTIGO, da editora americana DcComics, sendo publicadas atualmente.

Y - O último homem (que já comentei aqui) está em sua terceira editora brasileira, sendo que as duas primeiras não chegaram muito longe com a saga. Seja por praticarem preços exorbitantes ou seja por falência da editora.

Esse 4º. Volume do recomeço da saga pela Panini (que já republicou os três primeiros) tem 148 páginas e apresenta as edições 18 a 23 da edição original americana.

Mostra o que seria a penúltima parte da viagem do último homem da Terra, Yorick, e suas duas acompanhantes, a doutora Mann e a agente 355, ao laboratório da doutora para investigar o porquê de Yorick e seu macaquinho Ampersand terem sobrevivido ao misterioso fenômeno que matou todos os machos do planeta. São duas histórias em três partes cada uma.

A primeira história, A Senha, começa com Ampersand ferido e precisando de cuidados mais profissionais do que a doutora Mann poderia oferecer. Como Yorick sempre se mete em confusão, a agente 355 decide deixá-lo numa cabana isolada nas montanhas com sua antiga professora e amiga, a agente 711, enquanto ela e a doutora vão procurar um hospital que possa curar o macaco. Só que a agente 711 parece ter outros planos para o jovem Yorick.

É a primeira vez na série que o sexo é efetivamente abordado, mas com o roteirista Brian K. Vaughn, nada é tão simples quanto se espera. Vaughn mergulha fundo na psiquê de Yorick, que revela traumas sexuais profundos e bastante inesperados para um personagem de quadrinhos, o que o torna bem mais real e humano do que se vinha apresentando até então. 

Ótima abordagem do roteirista afinal, todos temos um pouco de loucura e, de acordo com Freud, a maioria dessa loucura vem de traumas com relação a sexo.

Não espere nada muito sensual dos desenhos de Pia Guerra, que apesar de não decepcionar ao retratar anatomias, faz questão de mostrar os traumas do personagem de forma que eles passem essa mesma sensação pro leitor. Seu estilo é realista, simples e pouco detalhado, mas consegue dar ênfase em expressões e é mestra em desenhar gente comum, sem músculos ou muitas curvas.

Rascunho de Parlov
O segundo arco, A passagem da Viúva, mostra o trio tentando cruzar uma estrada interestadual bloqueada por um grupo extremista que acredita que o governo matou todos os homens e acha que precisa resistir impedindo a passagem de pessoas (e remédios e mantimentos) de um lado a outro do país.

É a vez da Dr. Mann revelar um pouco de sua motivação e alguns segredos em relação aos experimentos com clonagem que fazia antes de todos os homens do mundo morrerem. Nesse meio tempo somos apresentados de bom grado a episódios reais da História americana que teriam inspirado Vaughn a criar a motivação pra história.

O desenhista convidado Goran Parlov dá um show a parte imitando com sucesso o traço de Pia Guerra, mas conseguindo superá-lo em dois pontos: suas mulheres são mais curvilíneas e seu traço faz a ilusão de movimento bem mais convincente que a desenhista principal da série. Espero mais desenhistas convidados assim.

Uma ótima série adulta que surpreende positivamente a cada nova história e, como já falei na minha resenha anterior, merecia uma adaptação de respeito pra televisão. 

Alô HBO, cadê os produtores de vocês que não lêem isso?

Recomendadíssimo!

Valeu!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Filme: SteamBoy (2004)

Depois do megasucesso destruindo a Tóquio do futuro na ficção-científica Akira, o autor Katsuhiro Otomo tenta destruir a Londres do Século XIX na ficção steampunk animada SteamBoy (2004).

James Ray Steam é um rapaz inglês de 13 anos cuja genialidade como mecânico e inventor só é superada pela do pai Eddy e do avô Lloyd que estão, há bastante tempo, trabalhando numa nova invenção nos Estados Unidos. É quando algo dá errado e seu avô volta sozinho pra casa trazendo consigo a perseguição da perigosa fundação O´Hara, que quer a todo custo colocar as mãos na poderosa “Bola de Vapor” inventada por ele e seu filho no Alaska. Caberá a Ray protegê-la e impedir que a fundação O´Hara atrapalhe a Grande Exposição de 1866 em Londres.

Há mais de dez anos longe da direção em longa-metragens, Otomo assume a tarefa dupla de dirigir e co-escrever a história do garoto inventor.

Trazendo do último sucesso seu esmero na produção, Steamboy se destaca bem como uma grande produção animada, com seqüências cheias de detalhes que, segundo a lenda, levaram quase 10 anos, além do equivalente a 26 milhões de dólares para serem produzidas.

Isso é visível, principalmente nas seqüências finais onde ocorrem as batalhas dentro e fora do gigantesco castelo a vapor que sobrevoa Londres. Outro ponto interessante são as armas, canhões e aparatos voadores mostrados na história. O nível de detalhes no castelo e na própria cidade é absolutamente incrível e merece ser visto numa tela grande ou mesmo em alta definição.

O filme tem boas seqüências de ação na sua metade inicial com a fuga de Ray das máquinas a vapor da fundação O´Hara, primeiro com seu monociclo e depois pegando carona num trem, mas perde força depois.

O roteiro tenta trazer uma discussão anti-armamentista a baila, principalmente pelas palavras do avô de Ray, mas acaba sendo algo bastante superficial.

O problema acaba acontecendo depois da metade, onde a história deveria ganhar mais carga emocional e isso não acontece de forma satisfatória.

Um bom exemplo disso é o pai de Ray, Eddy, que não funciona como um vilão, não tendo a personalidade bem definida e sendo inconstante em suas decisões que não combinam com um personagem obcecado. 

Também há várias outras coisas pequenas, que colocadas juntas atrapalham a apreciação do filme:

- As motivações dos personagens são fracas e mal explicadas. 

- A menina Scarlett, mimada herdeira da fundação, fica completamente perdida na trama e, tirando uma cena descartável no final, parece servir apenas pra causar identificação com o público feminino. 

- Os constantes embates entre o pai e avô de Ray nunca são decididos.

- A seqüência final toma muito tempo de projeção sempre com uma nova e completamente descartável reviravolta que não adicionam valor nenhuma a trama principal.

- O epílogo, mostrado em cenas semi-animadas na subida dos créditos finais, parecem mais interessantes que o final do filme.

- Sem falar na verossimilhança da história que é bastante prejudicada por todos esses detalhes.

Resumindo: O tempo gasto nas seqüências de ação poderia ser melhor aproveitado no processo de desenvolvimento e aprofundamento de personagens, o que não acontece tornando a história chata na metade final.

Um filme do gênero steampunk que pode ser apreciado pela ação, pela bela fotografia e pelo grande design de produção, mas que tem um fraco aproveitamento de personagens é o que esperar de SteamBoy.

Pelo menos podemos ficar com as belas imagens e a linda estética steampunk.

Valeu!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Animê: Last Exile

O termo Steampunk foi cunhado no fim da década de 1980 pra definir histórias passadas no século XIX, mas com aparatos tecnológicos com base em vapor (daí o “steam”) e avançados demais pra época. 

Toda uma estética foi desenvolvida a partir de então e outras histórias que não se passavam no século XIX e muito menos na Terra puderam ser consideradas Steampunk por terem características do estilo. O animê (desenho animado japonês) Last Exile é uma delas.

Num mundo onde a água pura é escassa, a humanidade se abriga em cumes de montanhas e navios de guerra voadores são comuns, Claus Valca e Lavie Head são pilotos de Vanships ou Couriers (pequenos e velozes aviões de 2 lugares) que vivem de entregar mensagens e de participar de corridas na cidade onde vivem. 

Numa dessas corridas, um Courier abatido aparece de repente e o piloto, mortalmente ferido, pede que o casal assuma sua missão: levar a menina Alvis, alguns anos mais nova que os dois, até os cuidados de Alex Row, capitão do navio de guerra mais temido dos ares, o Silvana. A menina carrega consigo um grande mistério relacionado ao lendário Exílio, algo que existe dentro da região do planeta conhecida como Grande Fluxo, onde furacões e ciclones nunca cessam.

Apesar de não estar subordinado a nenhuma hierarquia militar, Alex Row navega com o Silvana em missão secreta para o imperador do reino de Anatoray, que há muito tempo está numa guerra com o reino vizinho Disith


Sua missão é tentar alcançar o Exílio para obter o segredo da tecnologia avançada da temida Guilda, uma sociedade a parte que vive em naves acima das nuvens agindo como juiz, júri e até executor para os reinos abaixo.

Essa é a sinopse mais resumida que consegui fazer pra dar apenas uma idéia da trama que permeia os 26 episódios do animê dirigido por Koichi Chigira e produzido pelo estúdio Gonzo (responsável por séries como Gantz, AfroSamurai, Full Metal Panic,  Samurai Girl e outros), que foi exibido em 2003 na TV japonesa e pouquíssimo tempo depois comprado pela TV americana.

Fugindo da tradição de começar primeiro nos mangás (quadrinhos japoneses) o desenho foi feito diretamente pra TV e apresenta um gigantesco investimento do estúdio que mesclou animação computadorizada em grande quantidade com a tradicional feita a mão. 

Ponto positivo para o trabalho dos desenhistas Range Murata e Mahiro Maeda que criaram desde talheres e objetos pequenos a cidades, figurinos e naves característicos dos três povos principais do animê. 

Tudo inspirado em estilos artísticos de países europeus no início do século XX. Segundo os próprios autores, o povo de Anatoray teve inspiração na Alemanha e os Disith na Rússia, por exemplo. Belíssimo trabalho de produção.

Como é comum nas tramas japonesas, a história começa bem simples, apresentando a dupla principal Claus e Lavie e aos poucos acrescenta outros personagens que vão se mostrando importantes e acrescentando complexidade a narrativa. 

Interessante é dizer que, como também é comum na Japão, mesmo os personagens aparentemente inócuos possuem motivações para fazerem o que fazem, ganhando profundidade e a simpatia do público conforme a história avança.
Um ponto negativo, se é que se pode dizer assim, é que os primeiros episódios gastam muito tempo na seqüência de situações que movem a trama só começando a apresentar algumas motivações, explicações ou mesmo desenvolvendo as relações entre os personagens depois de uns 7 ou 8 episódios. É quase como se os autores quisessem que o espectador se acostumasse com o mundo apresentado antes de explicar alguma coisa.

Ou seja, se você é um cara ansioso ou mesmo alguém que gosta de tudo mastigadinho esse anime não é para você. É claro que não é tão complexo e confuso quanto um Evangelion, por exemplo, mas, pra se ter uma idéia, todos os episódios são entitulados com referências a termos, movimentos ou peças do jogo de xadrez

Não existem muitas respostas óbvias na trama, que acaba se desenvolvendo numa ficção científica com colonização de planetas e terraformaçãomas fique tranquilo que tudo é explicado em algum momento do animê. 

Enquanto as respostas não vêm, existe uma grande chance de você ser conquistado e se pegar admirando o trabalho de produção, o design das naves, as emocionantes cenas de batalhas aéreas, as empolgantes corridas de Couriers (cheia de referências a Star Wars) e a simpatia dos personagens.

Um belo e instingante animê de ficção científica que se encaixa perfeitamente no gênero Steampunk e deve ser consumido pelos amantes do gênero sem moderação.

Ah! Ia me esquecendo: foi exibido aqui no Brasil pelo canal Animax em 2005 e é muito fácil de encontrar a ótima versão dublada disponível na rede.

Recomendado.

Valeu!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Livro: Selva Brasil

Roberto de Sousa Causo é talvez o autor de ficção científica brasileiro mais atuante no meio de 20 anos pra cá, com vários livros publicados, sendo três romances, algumas novelas e histórias curtas e vários contos e ensaios dentro de fanzines, revistas de grande circulação e antologias famosas não só no Brasil, mas em mais de 10 países.

Em seu novo livro, Selva Brasil (112 pág., 2010) pela editora Draco, Causo trabalha com um gênero conhecido como história alternativa, que desenvolve tramas que tentam imaginar como teria sido a História de um lugar se uma determinada situação importante tivesse um desfecho diferente.

O momento escolhido aqui é 1962, ano em que o então presidente Jânio Quadros teria feito planos de invadir as Guianas por acreditar que o Brasil tinha direito histórico a boa parte de seus territórios. Tudo isso revelado num artigo publicado em 1993, após a morte do ex-presidente, em que um jornalista ainda diz que o exército brasileiro teria apoio da Argentina, que tentaria retomar o controle das ilhas Malvinas das mãos da Inglaterra.

Só pra constar: a chamada Guerra das Malvinas realmente aconteceu, inclusive com grandes perdas pro lado argentino (maiores detalhes aqui), mas a iniciativa de Janio nunca foi posta em prática.

A história do livro se passa exatamente em 1993, onde o próprio Causo é narrador e personagem de suas aventuras como sargento do exército numa guerra que já se estende por mais de 30 anos com mais perdas do que ganhos de território na Amazônia brasileira. Retratando o dia-a-dia de um pelotão numa guerra no meio da selva, Causo reconstrói a História brasileira a partir da iniciativa (dessa vez executada) de Jânio, além de reescrever sua própria história. 

A trama, muito bem narrada em primeira pessoa, consegue nos inserir com sucesso nas dificuldades passadas pelos soldados e acaba se tornando difícil de largar justamente pelo fato de tentar dar uma perspectiva brasileira a uma história de guerra. Devo admitir que foi bastante divertido ler nomes como Tadeu, Daniel e Carlos, além de termos como FUNAI, Itamarati, FAB e outros numa história desse tipo.

O texto ainda faz citações a Guimarães Rosa e Jorge Luis Borges e a trama acaba se desenvolvendo espetacularmente em algo que lembra uma mistura de Coração das Trevas de Joseph Conrad com a lenda do Experimento Filadélfia, um experimento militar secreto realizado com o navio de guerra americano USS Eldrige, já abordada em vários livros e filmes (e é mais detalhado aqui). 

Boa parte dos termos utilizados no livro vem da experiência pessoal do autor no exército e de uma extensa pesquisa sobre armas, plantas e geografia amazônica. O autor, que mora em São Paulo, ainda admite no posfácio sua fascinação por tudo que remete a maior floresta do mundo, falando também sobre algumas das várias histórias que já escreveu sobre a selva.

Um livro curto, de leitura fácil que dá uma aula de história ao mesmo tempo que diverte e surpreende pelo tempero brasileiro num suspense alternativo de ficção científica.

Ótima prova que o Brasil ainda é capaz de produzir bons autores que não desistem de dar uma cara reconhecível a ficção científica nacional.

Recomendado!

Valeu!

sábado, 2 de outubro de 2010

Quadrinhos: Muchacha

O novo álbum do cartunista Laerte pela Quadrinhos na Cia chama-se Muchacha (96 pág, 2010) e é uma compilação de tiras já publicadas anteriormente no jornal Folha de São Paulo.

Provavelmente a série diária com uma mesma história de maior duração do autor, Muchacha apresenta um programa de TV e seus bastidores num Brasil do ano de 1958, com direito a travestis, loucos internados, jornalistas oportunistas, taras não-convencionais, morcegos comunistas, propagandas politicamente incorretas e homens do futuro.

Capitão Tigre é um programa infantil sobre um espadachim mascarado que vive para salvar seu amor Sulfana das garras do tirano Rei Almedar e do traiçoeiro Milhafre.


Tudo começa quando o patrocinador do programa muda e exige incluir naves espaciais e alienígenas na história típica de capa-e-espada. Isso provoca um surto em Lairo Villa, o interprete do herói, que assume a identidade do personagem e provoca um grande rebuliço, gerando reações adversas em todo o elenco.


Laerte, que trabalhou muitos anos escrevendo pra TV e recentemente lançou um álbum sobre suas lembranças da telinha desde a infância, destila todo seu conhecimento de área nessa tira, fazendo questão de mostrar o lado sórdido, e muito mais interessante, dos bastidores de programas do tipo.

Exibindo um grande domínio da narrativa, Laerte divide a série em várias frentes, abordando não só o personagem principal, mas desenvolvendo personagens igualmente carismáticos como o ator injustiçado (e travesti) Djalma, o escritor mau-caráter Cabayba e o morcego de desenho animado Frederico, um estereótipo do que de pior se falava sobre o comunismo na época.

Definido pelo autor como um “Graphic-Folhetim”, Muchacha é uma grande homenagem a TV e retrata de forma bem legal os costumes da década de 50, com direito a citações e aparições de figuras ilustres da época como Ângela Maria, Elizete Cardoso e Ivon Curi. Sem falar nos trechos de músicas em espanhol que dão ritmo a algumas das tiras.

Vale ressaltar que é uma experiência bem diferente ler uma tira por dia separadamente do que lê-las de uma vez na seqüência do álbum. Enquanto que lendo diariamente podia existir uma dificuldade para o leitor se situar e até mesmo no entendimento de algumas viradas na trama, ao lê-as todas juntas se consegue perceber a maestria das escolhas narrativas do autor que consegue amarrar muito bem todas as pontas soltas e dar unidade a história.

Interessantíssimo trabalho do autor que conquista pelo ritmo de leitura ágil e consegue ser, ao mesmo tempo, sensual e inocente, além de muitíssimo bem estruturado.

Recomendado!

Valeu!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Filme: Te Amarei Para Sempre

Baseado no livro de Audrey Niffenegger, A Mulher do Viajante No Tempo (do qual já falei aqui), a película, que tem Brad Pitt como um dos produtores executivos, é dirigida pelo alemão Robert Schwentke

Te Amarei para Sempre (The Time Traveler´s Wife, 2009), é um filme sensível, melancólico, com passagens de fantasia, e muito romântico.

Henry (Eric Bana) viaja no tempo, mas o faz involuntariamente e nunca controla pra onde vai. Clare (Rachel McAdams) é visitada por ele nessas viagens desde os seis anos e quando finalmente o encontra no tempo presente eles engatam um romance e finalmente se casam, mas sua condição de viajante faz com que nem tudo seja as mil maravilhas.

Roteiro bem adaptado do livro original que chama a atenção por “enxugar” boa parte das passagens de Audrey, que é mestra no detalhamento. Incrivelmente ele ainda consegue mostrar boa parte do que acontece no livro nas sutilezas das imagens.

Destaque para os ganchos do fim que remetem a cenas do início, fechando o filme com maestria.

Grande trabalho de adaptação de Bruce Joel Rubin que destoa do livro pelo fato de ser mais otimista e condescendente em algumas situações.

Não há do que se reclamar do casal de atores principal.

Eric Bana está muito bem como Henry, conseguindo passar todo o sofrimento do personagem na maioria das vezes só pelo olhar. É o grande responsável pela melancolia do filme.

Mas o destaque mesmo fica para a bela Rachel McAdams, extremamente expressiva e verossímil, passando com sucesso o deslumbramento da juventude e sabedoria da maturidade que a personagem vive no filme.
Chama a atenção seus grandes olhos, que o diretor soube usar sem pena.
Acaba se tornando daqueles tipos de mulheres que dá vontade de pegar no colo, fazer carinho e levar pra casa. Paixão imediata.

Belíssima fotografia e direção de arte que apostaram em cores sóbrias e realistas para o tempo presente em contraste com tons mais vibrantes quando Henry viaja no tempo.

Destaque para a locação escolhida para a casa da família de Clare e o bosque que a rodeia.

Grande trabalho dos maquiadores, cabeleireiros e figurinistas por pontuar bem a passagem dos anos através de roupas e cortes de cabelo, principalmente os de Clare.

Trilha sonora original melancólica que tem o piano e violino clássicos como base, cumprindo otimamente bem o seu papel de passar quase despercebida em algumas cenas e emocionar na medida certa em outras.

Direção extremamente competente que usa de pequenos detalhes e movimentos de câmera inventivos e sutis para pontuar passagens importantes.

Três seqüências não me saem da mente.

A primeira é quando Clare acorda na casa de Henry após transarem pela primeira vez. O movimento da câmera que começa em seu rosto e continua rotacionando a visão por cima da cama traduz muitíssimo bem a estranheza e o deslumbramento da personagem.

A segunda é a seqüência que mostra a passagem dos anos na casa do casal. A câmera passeia pelos cômodos da casa, quase que num sentido giratório para mostrar o casal em várias tarefas do dia-a-dia enquanto vai envelhecendo. Tudo isso com cortes escondidos para dar a impressão que foi tudo feito numa mesma filmagem.
A terceira é mais ao fim do filme quando Clare está deitada triste em sua cama. De repente, a “vemos” de cima e um tic-tac de relógio pode ser ouvido ao fundo pontuando o movimento em sentido horário da câmera que registra o fim da cena.

Destaque também para a seqüência final do filme, filmada quase que exatamente como uma das seqüências iniciais, fechando um belo ciclo.

Lindo filme que apesar do título brasileiro água-com-açúcar remete a um romance bem real e que conquista pelo conjunto, te fazendo acreditar que o amor pode sim vencer as barreiras do tempo.

Recomendado!

Valeu!
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