Se seu comentário não aparecer de imediato é porque eles são publicados apenas depois de serem lidos por mim.
Isso evita propagandas (SPAM) e possíveis ofensas.
Mas não deixe de comentar!
Mostrando postagens com marcador comédia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comédia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Filme: As Aventuras de Tintin

Diz a lenda que em 1981, quando lia críticas do seu lançamento Os Caçadores da Arca Perdida (o primeiro filme de um tal Indiana Jones), o diretor Steven Spielberg viu sua película ser comparada a histórias de um jovem jornalista que teve origem em quadrinhos franco-belgas, o intrépido e viajado Tintin.

Hergé
Com 23 álbuns produzidos pelo belga Hergé (pseudônimo do quadrinista Georges Remi), o aventureiro personagem, criado em 1929, aquela altura já havia sido traduzido para 40 idiomas diferentes, além de ter estrelado dois filmes e uma animação para o cinema europeu. Apesar disso, Steven Spielberg e a maioria dos americanos, não o conheciam.

O diretor tratou de remediar isso e dois anos mais tarde, se dizendo apaixonado pelos quadrinhos, iniciou negociações com o próprio Hergé para levar o personagem ao cinema. 

O quadrinista, extremamente animado com a perspectiva de seu personagem finalmente fazer sucesso nos EUA, haveria lido o contrato de licenciamento enviado pela produtora e só não assinou por uma causa, ou melhor, uma cláusula que dizia que Spielberg poderia passar a responsabilidade pela direção do filme a outra pessoa se assim quisesse.

Hergé, as vésperas de completar 76 anos de idade, queria que Spielberg dirigisse o filme, mas faleceu meses mais tarde, antes do diretor rever o contrato. 

E foi só mais de 20 anos depois Spielberg retomou as negociações com a viúva do quadrinista para finalmente começar a produção de As Aventuras de Tintin, filme que mescla animação com a mais moderna tecnologia de motion capture (a mesma usada no filme Avatar), que estreou mundialmente em janeiro de 2012 e apresenta o personagem para toda uma nova geração. 

Tintin (voz e trejeitos de Jamie Bell) é um jornalista investigativo de renome que, ao comprar uma réplica miniatura de um navio do século XVII numa feira de rua, se vê envolvido numa caça ao tesouro de um antepassado do dramático e bonachão Capitão Haddock (voz e trejeitos de Andy Serkis), encabeçada pelo malvado Sakharine (voz e trejeitos de Daniel Craig). 

Com a ajuda do sempre fiel cãozinho Milu e dos atrapalhados detetives Dupond e Dupont (vozes e trejeitos de Nick Frost e Simon Pegg) eles viajarão até o Marrocos, passando por tempestades marítimas, naufrágios no deserto do Saara e perseguições alucinantes para descobrir o segredo do navio Licorne.

Spielberg mostra sua assinatura como um grande cineasta dirigindo seu filme mais divertido em muito tempo.


Jamie Bell e Spielberg
Sua habilidade de gerenciar fatores tão diversos quanto atuações em frente a tela verde (o jeito que o filme captou os gestos dos atores), inserções sonoras, renderizações 3D e, principalmente, engenhosos posicionamentos de câmera, se mostra resultado da mistura de uma grande experiência acumulada na sua estrelada carreira com as infinitas possibilidades que um filme em computação gráfica pode gerar.

Isso pode ser comprovado na emoção que o filme passa tanto nas sequências de perseguição (como a centrada no cãozinho Milu no início do filme e na envolvendo vários personagens na metade final), nas lutas no navio pirata (uma homenagem aos filmes de capa-e-espada que deixa Piratas do Caribe no chinelo) e na sequência final no cais do porto (com uma engenhosa luta de guindastes).

Ele também se mostra inspiradíssimos nos raccords por analogia (cenas de passagem em que um elemento de uma cena se transforma em outro na cena seguinte) utilizados no filme, como as dunas do deserto se transformando em mar revolto nas lembranças/delírios do Capitão Haddock, e também com a transformação das dunas na mão de um personagem em uma sequência posterior.
Sua utilização do ponto de fuga, situando objetos e movimentos importantes a narrativa exatamente na convergência de linhas de profundidade no desenho (técnica inventada por pintores no Renascimento e adotada por cineastas inteligentes) revela muito de sua postura sobre o filme, trabalhado a película como se fosse uma pintura.

O roteiro, escrito a seis mãos pelos ingleses Joe Cornish, Steven Moffat (da série de TV Dr. Who) e Edgar Wright (roteirista e diretor do filme Scott Pilgrim Contra o Mundo), adapta para a telona a trama de dois dos álbuns de Hergé: O segredo do Licorne e O Tesouro de Racham, o Terrível, além de mesclar passagens de um terceiro álbum, O Caranguejo das Pinças de Ouro.

A homenagem e respeito ao criador do personagem são claros em todo o filme.

Em especial na sequência de abertura, com uma animação de silhuetas que faz referências a vários álbuns da série e na cena inicial em que o próprio Hergé aparece como um caricaturista de rua pintando o rosto de Tintin igualzinho ao dos quadrinhos. Uma grande apresentação e transposição do personagem para o estilo quase realista do filme.

O filme se caracteriza também, em sua parte cômica, por prestar homenagens a um tipo de humor antigo, bem mais inocente e centrado em gags físicas típicas de fases áureas dos Trapalhões ou de filmes mais antigos ainda como os estrelados por Charlie Chaplin e Buster Keaton. É um tipo de humor raro de encontrar atualmente em produções pro cinema ou TV, mas que ainda encantam crianças e adultos com disposição de ir ao circo e se encantar com o tão subestimado personagem do palhaço.

Dupont e Dupond
Aliás, os próprios quadrinhos utilizam desse tipo de recurso inocente pra criar seus alívios cômicos, principalmente na figura dos detetives Dupond e Dupont.

Ponto positivo pra equipe do filme por não se preocupar em atualizar o personagem ou mesmo situar suas aventuras em determinada época, deixando suas interações anacrônicas, podendo se ligar a qualquer período.

Não dá pra deixar de esboçar um sorriso quando Tintin diz que sabe o melhor jeito de pesquisar a história do navio e vai direto a uma biblioteca e não digitar no Google.

Necessário dizer também que um dos grandes responsáveis pelo filme foi nada mais, nada menos que Peter Jackson, o diretor responsável pela trilogia Senhor dos Anéis, assumindo aqui a tarefa de produzir o filme ao lado de Spielberg e, eventualmente, ser o diretor de segunda unidade da equipe do filme.

Jackon já declarou inclusive que trocará de lugar com Spielberg na continuação (já confirmada) do filme.

Personagens extremamente cativantes, que já encantaram várias gerações em quadrinhos e TV, apresentados a uma nova geração de um jeito belíssimo e extremamente digno, sem perder em nada de sua essência original é o que esperar de As Aventuras de Tintin.

É Steven Spielberg se superando como não fazia há muito tempo.

Recomendadíssimo!

Valeu!

domingo, 28 de agosto de 2011

Desenho: Bob´s Burguers

Ao contrário do que se pode pensar isso não é um comercial de uma franquia de lanchonetes. É apenas um sopro de frescor e originalidade nas comédias de animação adultas da atualidade.

É assim que é Bob´s Burguers, nova série que estreou em janeiro de 2011 na FOX americana e só chegou agora em agosto aqui no Brasil pelo canal a cabo FX.

Bob é o cozinheiro, administrador e único dono de uma lanchonete fast-food numa cidade costeira americana. Seus únicos empregados são os filhos e sua esposa. Amante do seu próprio trabalho, Bob passa os dias lidando com o espírito inovador da esposa Linda (que sempre lhe tiram de sua zona de conforto), com a descoberta da sexualidade da filha mais velha Tina (que não tem o menor traquejo social), com a empolgação cega e inusitado talento musical de Gene (que lhe rendem vários apuros) e com a inteligência precoce da caçula Louise (que adora ver o circo pegar fogo).

A série foi criada e é produzida por Loren Bouchard, que foi responsável pela animação Filmes Caseiros (1999-2004) do extinto Adult Swim do Cartoon Network e também foi consultor do The Rick Gervais Show (2010), e declarou ter tido a idéia para a série ao imaginar uma família num local de trabalho.

Pertencendo ao gênero de comédia sobre famílias disfuncionais, sucesso em animações como Os Simpsons e Uma Família da Pesada, Bob´s Burguer se diferencia delas por conseguir fazer comédia escrachada e (quase) politicamente incorreta, mas com consistência narrativa.

Isso quer dizer que a trama de cada episódio não pára pra mostrar piadas que não nada a ver com a história como em muitas das animações atuais. A comédia aqui (como toda boa comédia quase sempre imprevisível) é integrada a trama, ou seja, as situações absurdas são sempre explicadas (de uma forma ou de outra) em cada episódio.

Por exemplo, no episódio em que Bob sobe no forro do telhado pra consertar as goteiras, acaba descobrindo que as paredes tem fundo falso e prefere fingir que ficou preso lá ao descobrir que os sogros vem passar uns dias em sua casa.
Isso gera situações engraçadíssimas para o personagem, que passeia pela casa escondido por trás das paredes (e em certo ponto começa a ficar doido), e para seus filhos, que na ausência do pai, aprontam na escola (cada um com seu motivo) e acabam recebendo em casa uma visita do orientador escolar.

Outro episódio legal é quando a cidade promove uma semana de exposição de arte nas ruas e lojas e a esposa de Bob, Linda, convida sua irmã pra expor suas novas telas no restaurante.
O problema é que as todas as pinturas (sem exceção) retratam animais expondo uma parte de sua anatomia que não combina nada com um restaurante.
Prato cheio pros autores discutirem a essência da arte (e da censura) e que também acaba servindo pra discutir o que forma uma verdadeira família.

Sobra até pro Brasil num episódio em que um dos filhos resolve fazer aula de capoeira e Bob tem um desentendimento com o professor.

A série também surpreende por apresentar um bom desenvolvimento e evolução de personagens, em especial os filhos de Bob.

Tina, que nos primeiros episódios é uma pré-adolescente apática e sem personalidade, vai se transformando numa adolescente típica ao poucos, tendo sonhos sensuais com zumbis, enfrentando crises de desespero por (quase) nada e desenvolvendo uma forma bem peculiar (e engraçada) de interagir com o sexo oposto.

Gene, o filho do meio com seu teclado inseparável, acaba revelando ter até um certo talento pra música, mesmo que isso envolva sons nada convencionais.

Mas o destaque vai mesmo pra caçula Louise, com seu chapéu em formato de orelha de coelho (que não tira nem pra tomar banho), sua imaginação fértil e seu dom de manipular os irmãos e todos aqueles que acha que são menos inteligentes do que ela. Num dos episódios finais ela acaba revelando seu desejo nada normal de se tornar uma super-vilã daqui há alguns anos.

E mesmo os filhos quase sempre estragando os planos de Bob pra ter sucesso com o restaurante, as histórias fazem questão de destacar a unidade familiar, frisando o amor dele para com as crianças e também toda a consideração e obediência dos filhos a ele, tornando a série mais normal e verossímil que outras.

Essa primeira temporada da série teve 13 episódios e já foi renovada para a segunda. Espero que tenha a mesma qualidade.


Uma animação nova sobre uma família que administra um restaurante que surpreende por fazer rir com humor (quase) incorreto integrado organicamente a narrativa, abordando temas relevantes de convívio familiar entre pais e filhos semi-adolescentes.

Me fez rir bem mais que os novos episódios dos Simpsons e Uma Família da Pesada.

Recomendado.

Valeu!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Filme: Professora Sem Classe

Esqueça tudo que você sabe sobre filmes de professores no cinema.

Em Professora Sem Classe (Bad Teacher, 2011) novo filme do diretor Jake Kasdan o que impera é o politicamente INcorreto de uma professora que não quer salvar ninguém além de si mesma.

Elizabeth Halsey (Cameron Diaz) é uma professora que está prestes a largar o emprego e casar com um rico descendente. Até o dia em o noivo lhe dá um pé na bunda e ela volta, com muita má vontade, a trabalhar na escola pra poder ao menos pagar as contas. 

É quando aparece o professor substituto Scott Delacorte (Justin Timberlake) e ela decide colocar silicone pra poder atrair o moço, que vem de uma rica família. O problema é que seu salário não paga a operação, e ela começa a aplicar uma série de golpes na escola (e fora dela) pra juntar o dinheiro para a tão sonhada operação.

Escrito por Gene Stupnitsky e Lee Eisenberg, dupla responsável por vários episódios da série de TV The Office, o filme é recheado de palavrões, situações escrachadas e surpreende por não dar quase nenhuma chance a estrutura de comédias certinhas, sejam elas românticas ou besteiróis.

Por exemplo, quando você acha que a trama vai virar um drama escolar, com a revelação de perda do pai por parte de um dos alunos, Elizabeth simplesmente dá um conselho nada maternal, porém bastante sincero ao garoto, subvertendo todas as expectativas, tanto dos espectadores quanto dos personagens que a rodeiam.

É nesse ritmo de surpresa e subversão de gênero narrativo que o filme encanta. É claro que nem tudo será incorreto e mesmo Elizabeth aprende uma lição ao final do filme. Só não espere que isso ocorra logo e nem mesmo que ela fique muito feliz com isso. 

Quem é fã de comédias certinhas e corretas, com final triste e dramático pode não sair muito feliz do filme em si.

Elizabeth é uma personagem boca-suja e oportunista que não ta nem aí pros alunos e muito menos pros colegas de trabalho. Ela encarna todos os clichês de maus professores que já se ouviram por aí. 

Só começa a ensinar mesmo quando é informada do prêmio em dinheiro pago ao professor da turma que tirar a maior nota em exames estaduais. E, mesmo assim, com métodos de ensino pouco recomendáveis.

Cameron Diaz encarna o papel perfeitamente e seu carisma é absolutamente inegável. Mesmo a personagem sendo escrota e incorreta durante quase todo o filme fica difícil torcer contra ela. O que ela evoca no público é uma espécie de amor-bandido que nos faz sorrir a cada vez que se livra de uma situação difícil ou inventa um meio nada convencional pra atingir um fim.

As seqüências em que dirige o carro de marcha-ré e a sua quase transa com o personagem de Justin Timberlake estão entre suas melhores seqüências no filme.

O professor certinho é encarnado com talento por Justin, que não decepciona num papel escrito propositalmente com pouca personalidade.

Destaque positivo para Jason Segel (como o sacana professor de educação física), Phyllis Smith (como uma professora extremamente tímida) e Lucy Punch, cujo personagem tem boas seqüências como a neurótica rival de Elizabeth.

Até mesmo algumas seqüências que já são clichês como a da lavagem de carros são bem executadas pelo diretor.

Que também abusou de Rocks pesados na trilha sonora, o que poderia remeter diretamente ao filme Escola de Rock (com Jack Black), que é bem mais certinho e convencional na estrutura de transformação do personagem.

Uma comédia nada correta que subverte os padrões do gênero de “filme escolar” de forma não recomendada pra menores e se for apreciada sem preconceito e moderação por parte do espectador, poderá render boas risadas.

Recomendado.

Valeu!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Filme: Cilada.com

Quem vai ao cinema esperando ver um ótimo seriado de TV na tela grande pode ir tirando o cavalinho da chuva. 

Cilada.com (2011), filme nacional dirigido por José Alvarenga Jr. (diretor de Os Normais 1 e 2), passa longe do divertido, inteligente, metalingüístico e até um pouco trash seriado criado e estrelado por Bruno Mazzeo para o canal a cabo Multishow.

O que mais impressiona é que a culpa por isso não pode ser atribuída apenas ao diretor visto que Mazzeo também estrela e divide com Rosana Ferrão o crédito pelo roteiro do filme.

Bruno (Bruno Mazzeo) é exposto traindo a namorada Fernanda (Fernanda Paes Leme) numa festa de casamento e ela, pra se vingar, coloca na internet um vídeo de uma transa em que ele terminou muito rápido. 

A princípio ele tenta refutar o vídeo através de depoimentos de ex-namoradas, depois tenta gravar outro vídeo com uma transa mais longa para só então se dar conta que deve voltar pra namorada.

O roteiro é uma coleção de cenas e piadas até divertidas, mas falha em dois quesitos primordiais: consistência narrativa e identificação do público com o personagem.

Os autores do filme declaram (Mazzeo mesmo disse em várias entrevistas) que se trata de uma comédia ROMÂNTICA, mas fica difícil de crer nisso quando, em determinado ponto do filme, tudo leva a crer que os problemas do personagem serão resolvidos quando ele conseguir dizer “eu te amo”, algo que ele nunca disse a namorada em dois anos de relacionamento.

Outra coisa que atrapalha o romantismo do filme é o fato do roteiro fazer questão de frisar, através de algumas lembranças do personagem (a do acampamento e do cinema), o quanto Fernanda é uma boa namorada pra ele, mas não nos convence em nenhum momento que Bruno é um bom namorado pra ela.

Nem mesmo o comprovado carisma do ator nos fazem torcer pelo personagem visto que depois do vídeo ele tenta se vingar da namorada pegando algumas mulheres (e sem querer um travesti) e só após ter falhado nessas tentativas, com pouquíssimas demonstrações de arrependimento, é que decide falar as palavrinhas mágicas e tentar voltar pra ela.

Num outro tipo de análise, a relação entre os dois estaria mais pra uma co-dependência afetiva. Algo mais doentio num sentido psicológico do que explicitamente romântico.

No quesito comédia o filme é até bom (considerando que o humor é só metade da narrativa).

O destaque aí vai pros personagens que rodeiam o protagonista como o vidente (Luis Miranda) e o cineasta Marconha (Serjão Loroza) que roubam as cenas em que aparecem.

Fúlvio Stefanini também está muito bem caracterizado como chefe de Bruno e sua atuação na sequência em que conversa com a filha por telefone provoca gargalhadas na platéia.

É uma pena que a subtrama em que Stefanini aparecia (mais um exemplo da falta de consistência do roteiro) não tem um fechamento, sendo esquecida num determinado ponto do filme.

Há sim boas idéias que confirmam o talento de Mazzeo pra escrever comédias (como as já citadas seqüências do vidente, cineasta e do chefe), mas outras (como a escatológica seqüência de grupo de apoio a ejaculação precoce) passariam bem melhor sendo apenas idéias.

No final do filme a sensação que se tem é que a história foi construída com base num piada alongada demais permeada por uma coleção de piadas menores que não se sustentam como narrativa longa e, muito menos, como comédia romântica.

É melhor continuar na TV.

Valeu!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Quadrinhos e Filme: Mundo Fantasma - Ghost World

Geralmente quando se fala em obras envolvendo adolescentes se pensa: sexo, comédia besteirol, aventura sem nexo, drogas e mais sexo. Tudo num estilo leviano e simplista que costuma subestimar a realidade dos jovens.

Exatamente o contrário do que fez Daniel Clowes em Mundo Fantasma - Ghost World (84 pág, 2011), uma das Histórias em Quadrinhos americanas mais premiadas do fim do século XX, que a Gal Editora publicou em abril aqui no Brasil. 

Lançada originalmente em episódios esparsos na revista independente Eightball entre 1993 e 1997 nos EUA, foi compilada num encadernado logo depois, o que bastou para começarem os elogios, prêmios e a citação como novo clássico na revista Time

Enid e Rebecca são duas amigas que, recém-formadas no ensino médio, passeiam pela sua cidadezinha do interior sempre tendo o que falar sobre tudo e todos que encontram pelo caminho. 

Amigas desde pequenas, Enid é a mais reacionária das duas e tem sempre uma história para contar, um estilo diferente de se vestir e um comentário cínico a fazer sobre o que observa. Rebeca é mais contida, romântica que vai sempre nas ondas da amiga. 

Ansiando sempre por algo que as diferencie dos demais, cada uma das duas enfrenta o fim da infância a sua maneira.

Clowes produziu a série num espaço de seis anos, então teve bastante tempo pra planejar cada um dos oito capítulos da história entrando de cabeça em algumas aflições adolescentes como trabalho, sexo, amizade, amor e futuro.

Trabalha essas questões de forma bastante orgânica, lúdica e propositalmente acidental, alternando sempre com situações de humor que revelam o comum exagero e contradições da idade. 

Sobram críticas a programas de TV, estilos musicais, política e sociedade de consumo em geral.

A maior parte dessas críticas vem na voz de Enid, em sua procura por achar um estilo que a defina como adulta, mas sempre revelando ser mais imatura do que se considera.

No primeiro capítulo, por exemplo, Enid é apresentada a contra-gosto a um ex-padre pedófilo por um conhecido que publica uma revista pra juventude neo-nazista e tudo que faz é escutar quase sem reação e dizer alguns palavrões malcriados ao homem.

Tipos estranhos, bizarros e peculiares como esses, que tem toda a possibilidade de existirem de verdade, são freqüentes no álbum.

Os primeiros cinco capítulos tem uma natureza mais episódica, com mais humor e podem ser lidos em qualquer ordem sem prejuízo de entendimento. 

Os três últimos apresentam uma continuidade definida pela imposição do pai de Enid que ela preste vestibular pra uma faculdade bem distante de onde moram.

O vislumbre da possível separação das duas leva a um desenvolvimento melancólico, exaltando bem mais o contraste entre as responsabilidades de adulto e a busca conforto nas lembranças de infância. 

O Mundo Fantasma (Ghost World) do título faz referência a uma misteriosa pixação persistente em vários muros e portões da cidade, mas também pode ser relacionado à única cor além do preto e branco presente no álbum: um fantasmagórico verde-água

Outra possibilidade (mais filosófica) para o título é ressaltar o sentimento infantil de egocentrismo em relação ao mundo, que tornaria as personagens bem mais reais para si mesmas que o etéreo universo onde vivem.


Afinal, que adolescente nunca teve a fase de achar que todos na rua olhavam pra ele?

\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\


A HQ fez tanto sucesso que um filme foi lançado em 2001 com roteiro do próprio Daniel Clowes com colaboração do diretor Terry Zwigoff que, por incrível que pareça, aprofunda muitas das questões desenvolvidas na HQ. 

Em Ghost World - Aprendendo a Viver, o roteiro faz grandes mudanças na trama da HQ e a principal delas é estabelecer uma linha narrativa consistente desde o início (o que não existia nos quadrinhos). Sem falar que alguns personagens mais polêmicos desaparecem e dão origens a outros tão bizarros quanto.

Thora Birch interpreta Enid de forma perfeita em eterno contraste entre postura e idade sempre com o desejo de se reinventar sendo expresso em roupas ou algum comentário pseudo-intelectual na ponta da língua sobre tudo.
Sem falar que está lindíssima.

A deusa Scarlett Johansson é "enfeiada" para viver Rebecca, que é prejudicada pelo roteiro e acaba perdendo um pouco da personalidade que tinha nos quadrinhos.

Steve Buscemi é Seymor, um quarentão amante de jazz e recluso de quem Enid se aproxima como forma de se redimir por ter pregado um trote e por quem acaba se afeiçoando.

A sensibilidade da HQ também está presente no filme e, mesmo com todas as mudanças, dá pra reconhecer a essência da história.

A produção está de parabéns ao aproximar a história da realidade, por exemplo, nos figurinos. Visto que Enid quase sempre repete suas blusas e roupas preferidas, o que é comum na vida real, mas bem difícil de se ver em filmes mais Hollywoodianos.

Produzido e lançado no circuito independente, o filme teve um sucesso bastante aceitável, foi indicado ao OSCAR pelo roteiro e rendeu alguns prêmios de atuação a Steve Buscemi.

Ainda hoje (dez anos depois) é relançado em DVD. Vale a pena procurar.

Uma bela história com um retrato bem fiel, ainda que um pouco verborrágico, do fim da adolescência na década de 1990 é o que esperar de Ghost World, em qualquer uma de suas duas encarnações.

Recomendado.

Valeu!

domingo, 3 de julho de 2011

Filme: Se beber, Não Case! Parte II

Fazer uma continuação de um filme de sucesso é algo complicado. Ou você aposta numa abordagem nova com risco de perder público, ou você recicla as situações do primeiro filme e as reapresenta com uma nova roupagem.

Foi a segunda opção que escolheu o diretor Todd Phillips em Se Beber, Não Case! Parte II (The Hangover- part II, 2011), seqüência direta da película de 2009 que surpreendeu arrecadando quase 10 vezes os custos de produção (só nos EUA).

Alan (Zach Galifianakis), Phil (Bradley Cooper)  e Stu (Ed Helms) estão de volta pra mais um casamento. É a vez de Stu, que tentando esquecer as aventuras do primeiro filme, vai casar com uma linda oriental no seu país de origem: Tailândia. Querendo fazer um casamento calmo sem despedidas de solteiro, ele não contava com a intrusão do Sr. Chow (Ken Jeong), que vai fazê-los ter uma noite maluca e perder o irmão da noiva em Bangkok as vésperas do casamento.


O diretor, com a ajuda de Craig Mazin e Scott Armstrong reescreveram e maquiaram o roteiro do primeiro filme nessa continuação.

A estrutura é a mesma do primeiro, inclusive com cenas praticamente repetidas (numa espécie de auto-homenagem do diretor), como a preparação do casamento, a ligação desesperada, o flashback (onde se passa quase toda a trama), a resolução que cai do céu e a corrida para casar.

É claro que algumas situações novas são dignas de serem citadas como o macaco fumante (que substitui o bebê do primeiro filme), a heterogênea paisagem tailandesa, a visão que Alan faz de si mesmo e dos amigos e a queda de Stu por prostitutas (que em Bangkok escondem um segredo a mais).

Destaque positivo de atuação vai pro barbudo Zach Galifianakis, mais engraçado e louco (ainda que inofensivo) como Alan e suas caras de choro irresistíveis.

O destaque negativo vai para Paul Giamatti, que já fez papéis memoráveis em vários filmes, e aqui tem uma participação relâmpago e bem genérica. Devia estar precisando de dinheiro.

Uma seqüência memorável é a que Alan, após meditar no mosteiro budista, tem flashes de memória sobre a noite perdida. A reinterpretação de algumas cenas pela ótica distorcida do personagem é, senão hilária, bem surpreendente.

A lente do diretor explora bem o submundo de Bangkok e exalta de forma interessante os contrastes da cidade através de cenários e paisagens, mas isso acaba provocando uma percepção de falta de crítica social na  história (crítica essa que poderia enriquecer o filme).

A trama não vai ser muita novidade pra quem assistiu o original, mas com certeza o espectador vai sair do cinema com dificuldade de esquecer algumas cenas.

Infelizmente algumas pela morbidez, quase como um acidente de estrada em que você não quer olhar, mas olha assim mesmo e tem pesadelos a noite.

O filme apresenta aspectos interessantes o suficiente pra não te fazer perder dinheiro se for ver no cinema, mas aconselho esperar o dvd.

Valeu!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Filme: Bruna Surfistinha

Tirando uns pequenos problemas com drogas, deve ser fácil ser uma garota de programa. 

É o que concluí após a sessão de Bruna Surfistinha (2011), primeiro longa-metragem do diretor Marcus Baldini.

O filme é baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, best-seller de 2005 onde a ex-garota de programa Raquel Pacheco (que ficou famosa em 2004 por criar um blog de histórias de clientes) conta parte de sua trajetória, motivações e curiosidades de programas que fez como a prostituta Bruna Surfistinha.

Estruturado de forma episódica, o filme mostra Raquel (Deborah Secco) antes de ser prostituta, entrando pra “vida”, aprendendo a profissão, montando seu flat, conhecendo as drogas, criando o blog, fazendo sucesso e sendo dominada pelas drogas até se esgotar.

Apesar de conseguir divertir em muitos momentos, o roteiro peca por não detalhar a motivação dos personagens. 

A voz de Deborah Secco narra boa parte da história, mas mesmo assim depois que você sai do cinema fica com dificuldade de lembrar porque ela começou a ser prostituta.

Existe até um esboço de explicação que não é desenvolvido (como a indiferença do pai e o ódio do irmão), sendo sumariamente abafado por outros aspectos.

Aspectos esses que ele aborda melhor, como a diversidade de clientes, o relacionamento entre as prostitutas, as dificuldades da carreira e o malefício das drogas.

Além da falta de motivação, outro aspecto negativo é que, mesmo tendo o sexo como pano de fundo, o filme pouco menciona a questão da responsabilidade sexual, as paixões das prostitutas e gravidez indesejada além de ignorar completamente qualquer tipo de DST.

Ou seja, tirando um ou outro sonho, aspiração ou problema com droga, o filme apresenta um olhar bastante machista sobre o assunto visto que as garotas de programas do filme são quase robôs sexuais, transando muito e praticamente sem reclamações.

Sem falar na parte final que lembra aquelas histórias de ascensão-queda-retorno como se a personagem fosse algum tipo de artista, político ou mesmo estrela da música que aprende a lição e muda completamente no fim, o que não ocorre aqui, afinal ela tem uma meta a cumprir.

O que salva o filme é sem dúvida o elenco muito bem escolhido com atores talentosos ou ao menos carismáticos que mantém os olhos do espectador pra tela. 
 
Deborah Secco está lindíssima como Bruna Surfistinha e sua transformação de adolescente tímida a mulher-fatal é bastante admirável. Belo trabalho de composição da atriz que, mesmo com tantos problemas de roteiro, consegue tornar o filme assistível. 

Atuação elogiosa também de Cássio Gabus Mendes, que como Huldson, consegue fazer milagres pelo papel pouco desenvolvido.

Mas o destaque mesmo vai pra Drica Moraes, como a cafetina Larissa, que rouba sempre as cenas em que aparece com suas expressões e jeito de falar bem peculiares, conseguindo imprimir realidade e profundidade a uma personagem escrita no limite do cartunesco. Uma atriz acostumada com comédias que merecia mais papéis dramáticos no cinema.

O filme ainda tem uma boa direção de fotografia que faz questão de mostrar os corpos nus tanto das garotas quanto dos homens em diferentes posições e modalidades sexuais em eterno contraste entre o belo, o feio e o aceitável.

Um filme bastante razoável cujo roteiro funciona melhor como pequenas anedotas episódicas e falha como narrativa longa, sendo salvo pelo talento e carisma dos protagonistas que carregam o filme nas costas.

Valeu!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 
Tweet