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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Livro: A Fórmula da Vida de Adriana Igrejas


No ano passado tive o prazer de ser escolhido como um dos primeiros leitores a apreciar o romance de estréia de uma querida colega de trabalho e é com imensa satisfação que publico hoje aqui no blog a resenha que fiz do livro.

Uma rocambolesca, gostosa e cativante trama de novela televisiva em forma de livro. 

É como posso descrever em poucas palavras o romance de estréia da escritora Adriana Igrejas, A Fórmula da Vida, pela editora LetraCapital com o apoio da Prefeitura de Mesquita-RJ.

É a história de Catarina, uma jovem herdeira atormentada pelo trauma da violenta perda do pai, que morreu dias antes de revelar a fórmula de uma substância capaz de purificar qualquer tipo de água poluída, e de como isso a levou tortuosamente pelos caminhos da vida.

O livro pode ser dividido em três partes:

Na primeira, vemos Catarina conversando com sua psiquiatra enquanto lembra os fatos mais importantes de sua vida desde o assassinato de seu pai. Aos 15 anos, vemos o fim de sua infância e como ela lidou com isso, tentando se reintegrar à sociedade após o baque psicológico, com mudanças de escola, início do treino em artes marciais, busca pela emoção de lutas ilegais e tentativas de fazer justiça com as próprias mãos.

Na segunda parte, Catarina, já formada na faculdade, tenta a sorte trabalhando como zootecnista numa fazenda no interior do Mato Grosso. A mudança brusca da trama é bem justificada por um fato no fim da primeira parte e, entre encontros e desencontros, finalmente presenciaremos um pouco de juízo e o vislumbre de felicidade na vida da personagem.

Na terceira parte, Catarina volta a se confrontar com fantasmas do passado e o mistério da morte de seu pai é, enfim, desvendado, mas não sem esforço e sofrimento da protagonista e com a volta do suspense, da tensão e de ação digna de blockbusters hollywoodianos que fecham a trama com chave de ouro.

Órfã, herdeira milionária, vingadora atormentada, lutadora marcial, justiceira clandestina, zootecnista irascível e mocinha apaixonada são algumas das personas que Catarina assume ao longo dos seis anos desenvolvidos no tempo narrativo do livro.

A autora Adriana Igrejas mistura nesse caldeirão uma série de referências que vão desde as mais clássicas, como Shakespeare e mitos gregos, até as mais atuais da cultura popular resultando numa deliciosa sopa com sabores que agradam a vários gostos.

Seu estilo narrativo lembra um bom folhetim televisivo. Num determinado momento do livro parece que estamos apreciando uma novela de Janete Clair devido às reviravoltas da trama e da força de seus personagens.

A autora também se mostra mestra na ambientação estabelecendo detalhes nas descrições que traduzem com perfeição a vida real para a trama. Destaque para a sequência na escola pública e no trem, tão reais que chegam a assustar.

O que também impressiona são as descrições das cenas de luta que mostram que a autora realmente conhece (ou teve que conhecer) o mundo das artes marciais pra escrever a história. Alguns trechos lembram seriados de ação como Nikita, por causa da força e determinação de suas protagonistas.

 Um belo estudo de personagem numa bela trajetória para encontrar, como foi dito no press-release, a fórmula da vida e uma fórmula DE vida.

Recomendado!
 
Aproveito também pra convidar a todos para o lançamento do livro que será nesse domingo (27/11/2011) às 15hs no Parque de Eventos da Prefeitura de Mesquita que fica na Rua Baronesa de Mesquita, s/No., no Bairro de Cosmorama em Mesquita-RJ. Pertinho da estação de trem de Edson Passos.

Eu já confirmei minha presença pra fazer a leitura de um dos meus trechos favoritos do livro. Compareça, garanta seu exemplar e ajude a prestigiar uma autora nacional.
 
Valeu!
Ps.: Mais informações sobre a obra em: http://aformuladavida.blogspot.com/

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Livro: Frente de Tempestade - Os Arquivos Dresden Vol.1

Num universo onde a magia existe, mas é ignorada pela maioria das pessoas, um bruxo chamado Harry tem que procurar e confrontar um bruxo praticante de magia negra para salvar seus amigos, sua comunidade e sua própria vida.

Não, a sinopse acima não foi escrita como referência a mais um volume de Harry Potter.

É a sinopse mais simples que consegui fazer do romance de estréia do escritor americano Jim Butcher, Frente de Tempestade (322págs, 2011), publicado nos EUA no ano de 2000 e que está a venda desde junho desse ano aqui no Brasil pela Editora Underworld.

Harry Dresden é o único bruxo particular listado na lista telefônica com escritório na cidade de Chicago nos EUA. Como poucas pessoas no mundo acreditam em magia, ele não tem muitos trabalhos a vista, e vive com pouco dinheiro no bolso. Eventualmente, ele dá consultoria para a polícia em casos que não tem muita explicação lógica, o que ajuda bastante a pagar o aluguel. 

Até o dia em que uma série de assassinatos, em que as vítimas têm o coração explodido misteriosamente dentro do peito, o colocam na mira de mafiosos, vampiros, repórteres, traficantes de drogas, demônios e fiscais do conselho branco de magia. Tudo isso por causa de um misterioso e poderoso bruxo praticante de magia negra que dará trabalho para ser identificado e encontrado.

Narrado em primeira pessoa, livro pode ser descrito como uma mistura de romance de detetives e fantasia contemporânea.

O clima detetivesco/noir se faz presente em vários clichês do gênero como a narração irônica de Dresden, suas condições cada vez piores de trabalho, o descrédito e crescente desconfiança dos outros personagens para com ele, seu rígido senso moral, sua facilidade em se dar mal e as constantes (mas bem embasadas) reviravoltas na trama. Até mesmo a mulher problemática a procura do marido e um casaco-sobretudo inseparável para o personagem se fazem presente na narrativa.

É claro que esses clichês são apenas o fio-condutor da história, que surpreende por conseguir integrar organicamente elementos fantásticos bastante estranhos ao universo de tramas de detetives como fadas, poções, amuletos, espíritos elementais, artefatos mágicos e manipulação de elementos naturais a um cenário quase que estritamente urbano. 

Tudo isso aparece na trama de forma bem natural e é o maior mérito do autor Jim Butcher. Mérito esse que deveria ser o almejado por qualquer autor: construir uma lógica própria e consistente pro seu universo narrativo. Os elementos mágicos, por exemplo, são explicados com teorias de manipulação energética, tornando o sobrenatural, senão verossímil, pelo menos bastante aceitável.

A trama também decorre de forma bastante rápida e a narrativa faz a leitura fluir muito bem.

Sendo apenas o primeiro volume de uma série com 13 livros públicos até o momento nos Estados Unidos, o livro apresenta uma história completa que serve de apresentação do universo do personagem Harry Blackstone Copperfield Dresden, filho de um ilusionista e nomeado pelo pai em homenagem aos maiores ilusionistas da história. 

Assim como esse, vários elementos do passado do personagem são citados e provocam no expectador aquele gostinho de quero mais. Esse pode ser um dos defeitos da narrativa, que estabelece Harry como personagem verossímil com várias características contraditórias inerentes aos seres humanos, mas é superficial em detalhar suas motivações pra fazer o que faz. É claro que isso pode ser uma simples estratégia pra nos fazer comprar o próximo livro.

Dresden é um personagem fascinante, pois mesmo estando sempre na pior, não abandona seu rígido código moral, que o faz ser cavalheiro com as mulheres e tentar não desobedecer as leis da magia estabelecidas pelo conselho branco. Mesmo assim o rígido Morgan, fiscal do conselho, está sempre na sua cola.

Uma ressalva a essa primeira edição brasileira são os constantes erros tipo: “comoque nem” e “estoutô” encontrados várias vezes durante o volume. Como se o tradutor tivesse deixado como opção para o editor revisar e o editor tenha deixado passar.

Erros até perdoáveis devido a qualidade da trama e a pouca experiência da editora Underworld no mercado, mas que não seriam recomendáveis em novas edições e em futuros volumes da série.

O sucesso da série lá fora deu origem a áudio-livros, vídeo-games, quadrinhos e uma série de tv em 12 episódios exibida pelo canal Sci-fi na temporada 2007.

Uma trama de magia fantástica com ares urbanos contemporâneos tendo como fio-condutor um mistério de assassinatos e o clima noir de romances detetivescos, cheia de ação e reviravoltas surpreendentes e com um personagem fascinante é o que esperar desse livro.

Recomendado!

Valeu!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Livro: O Primeiro Relato da Queda de um Demônio

O Primeiro Relato da Queda de um Demônio (devir editora, 234págs, 2004) é o livro de estréia da escritora brasileira Marcela Godoy que trata de um triângulo amoroso entre uma humana e dois conhecidos seres sobrenaturais: um vampiro e um lobo.

Por que se diferencia de outros romances do gênero?

Porque Marcela, que também é roteirista de HQs e professora de roteiro na Quanta Academia de Artes, trabalha esse triângulo amoroso de forma bastante orgânica e incidental, apresentando episódios históricos da inquisição espanhola com uma incrível clareza de detalhes, abordando a origem quase bíblica dessas duas raças fantásticas e discutindo a essência do amor e do que nos faz humanos de forma poética e filosófica. 

Azael é o demônio-lobo albino guardião de Lucien, um vampiro rico, bem apessoado e recluso que vive na cidade espanhola de Ávila.

Num baile comemorativo na noite da assinatura do Tratado de Tordesilhas em 1494, eles conhecem a bela Miriam, cortesã preferida de Glauco, um arcebispo e poderoso inquisidor espanhol.

A atração de Lucien por ela é imediata e entre encontros furtivos e cartas secretas de amor, ele e Azael terão que livrá-la do maldoso Glauco para garantir-lhe a felicidade.

O que Lucien, e o próprio Azael, não contavam é que a curiosidade do lobo pela jovem se transformará em um sentimento puro e maior do que ele e sua missão como guardião serão capazes de suportar.

A história é narrada por Azael (já transformado em humano) à própria Morte, que deve julgar o pedido do demônio-lobo que o leve para o além junto com a mulher que carrega nos braços.

Nesse pano de fundo anunciado de romance trágico, autora Marcela Godoy integra conceitos de filosofia platônica, hindu e até mesmo teosófica como base do aprendizado e discussão do demônio-lobo em busca de sua própria humanidade. 

Por exemplo, Os Sete Princípios do Homem, que rondam Azael depois que ele descobre seu sentimento por Miriam, são bases da Teosofia, uma doutrina que envolve conhecimentos filosóficos, científicos e esotéricos de diversas épocas e lugares do mundo divulgados pela ucraniana Helena Blavatsky no fim do século XIX.

O romance também pende para o lado filosófico da física quântica, principalmente pela máxima dita por Azael do "Tempo dotado de vontade" (que é repetida algumas vezes durante a trama) e que guiaria a vida daqueles que não tem força de vontade o suficiente para tomar as rédeas da própria vida.

Marcela ainda surpreende por inserir na narrativa referências ao Sandman de Neil Gaiman (na figura de Onírus, o deus-dos-sonhos) e ao jogo de RPG Vampiro: a Máscara, sucesso no mundo todo no início dos anos 1990.

Na mitologia do jogo, que é reconstruída e ampliada no livro, o primeiro dos vampiros foi Caim, amaldiçoado e marcado eternamente por Deus após matar seu irmão Abel por inveja.

Na trama do livro, logo depois disso, Caim faz um pacto com o anjo caído Lúcifer, que resulta na criação de Seth, o primeiro demônio a caminhar sobre a Terra na forma de lobo. O primeiro Guardião do Mito do Homem.

Dessa forma, a autora estabelece uma genealogia para a origem de Azael, que é mostrado não com a estética ocidental de “demônio = maldade” e sim com a idéia de que demônios são seres vazios, criados para servir de forma cega, sem aspirações ou desejos pessoais. 

É claro que, a partir de um determinado ponto, Azael não consegue mais afastar a curiosidade que tem pelo sentimento que seu mestre Lucien cultiva pela humana e nem sua própria fascinação pela mesma.

É aí que acontece sua primeira transformação em homem, prenunciada desde o início pelo medalhão que carrega no pescoço, e é o significado da “Queda” alardeada no título da obra.

Publicada um ano antes da famosa série Crepúsculo de Stephenie Meyer, o livro não é recomendado para crianças e nem pessoas de cabeça fraca pela complexidade dos conceitos já abordados acima e também por conter várias cenas de sexo (algumas até não-convencionais).

É claro que os fãs de fantasia gótica poderão apreciar sem moderação, inclusive com as belas e impactantes ilustrações de Marcelo Campos que acompanham a trama.

A história é fechada, mas existe gancho para continuações e é inevitável o gostinho de "quero-mais" deixado pela construção narrativa ao final da leitura. 

A autora, inclusive já começou a publicar os primeiros capítulos da sequência (intitulada "O Mensageiro de Ararat") em seu blog: http://oblogdamarcelagodoy.blogspot.com/2010/04/1-ultrapassam-em-barbarismo-tudo-o_23.html

Só nos resta esperar que a continuação das aventuras de Azael cheguem logo.

Muito recomendado.

Valeu!

domingo, 3 de julho de 2011

Livro: Crônica de uma Morte Anunciada

Engraçado como surgem as histórias. 
Imagino que para escrever esta o autor tenha parado um belo dia e pensado: Como tornar interessante uma história em que já se sabe o final desde a primeira linha?

"No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo."

Isso só podia ser obra de Gabriel García Márquez, o escritor colombiano mais premiado de todos os tempos, em Crônica de uma morte anunciada (177pág, 2007), publicada originalmente em 1981 e já na 36º edição brasileira pela editora RECORD

Inaugurador do gênero “realismo fantástico”, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1982 e amigo pessoal de Fidel Castro são alguns epítetos comumente associadas ao autor, que é figurinha fácil em listas de melhores romances do século XX

Seus trabalhos mais conhecidos são Cem anos de solidão (1967) e Amor nos tempos do Cólera (1985), que virou filme em 2007, com participação de Fernanda Montenegro.

Em Crônica de uma morte anunciada, ele conta a história do assassinato do jovem Santiago Nasar, sob vários pontos de vista. 

A palavra crônica se encaixa perfeitamente no título pela preocupação do autor em aproximar a trama de um estilo jornalístico.

O narrador, que logo se revela personagem e testemunha das últimas horas de Santiago, apresenta depoimentos de vários habitantes na pequena vila ribeirinha onde moravam e tenta reconstruir o crime pelo olhar das testemunhas 27 anos depois do ocorrido.

Sabe-se que quem matou foram os irmãos gêmeos Pedro Vicário e Pablo Vicário para vingar a honra da irmã Ângela Vicário, que acusa Santiago Nasar de tê-la desvirginado, como pôde perceber o marido Bayardo San Roman antes de devolvê-la a família na fracassada noite de núpcias.

Gabo (apelido carinhoso do autor), constrói uma verdadeira tapeçaria com os depoimentos colhidos. Ele não se importa, por exemplo, de avançar e retroceder no tempo da narrativa enriquecendo a trama e conquistando o leitor ao ambientar-nos na rotina dos habitantes da pequena vila a margem do rio.

Infográfico feito por uma fã sobre os personagens do livro
O suspense se desenvolve aos poucos com alguns fatos apresentados mais de uma vez, mas sempre com informações novas que ajudam o espectador a montar o contexto em que Santiago foi morto.

A morte anunciada do título se explica pois, no momento do assassinato, quase todos os habitantes da vila já sabiam das intenções dos gêmeos em cometer o crime (eles vinham anunciando isso desde a madrugada anterior), mas ninguém tomou providências mais drásticas para evitá-lo. Cada um com seu motivo, claro.

Em determinado momento do livro (e isso determina a marca de um grande autor), o leitor se vê torcendo por Santiago Nasar, mesmo já sabendo qual será o final da história desde a primeira linha.

O que poucos leitores provavelmente sabem é que García Márquez baseou essa história num assassinato real com diz numa entrevista a revista VEJA em 1980: “...(o livro é) baseado num fato real e escrito de um jeito muito direto, muito rápido. A história é contada logo de saída, pois quis evitar aquele suspense vulgar cheio de armadilhas. Mas todo mundo que leu acabou ficando grudado no livro justamente por isso: acostumado às armadilhas dos livros de suspense, o leitor acaba achando que elas vão aparecer a qualquer momento, e não consegue desgrudar do livro.”

Um livro de poucas páginas, cuja leitura flui bem e pode ser devorado em poucas horas. Uma leitura rápida e ideal para quem quer conhecer o estilo marcante e apaixonante de Gabriel García Márquez.

Recomendado.

Valeu!

Ps.: entrevista completa de Gabo a VEJA: http://veja.abril.com.br/especiais/35_anos/ent_marquez.html

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Livro: A Corrida do Rinoceronte

A função de um livro de ficção é nos livrar de nossos problemas por alguns minutos, horas ou mesmo dias. Um BOM livro de ficção pode até nos ensinar alguma coisa enquanto faz isso. Um ÓTIMO livro de ficção faz tudo isso enquanto nos torna mais conscientes de nós mesmos.

É nessa terceira categoria que dá pra enquadrar A Corrida do Rinoceronte (160págs), primeiro romance publicado pelo contista e novelista brasileiro Roberto de Sousa Causo (cujo último livro foi resenhado por mim aqui).

Editado pela Devir Livraria em 2006, o livro é definido como um romance contemporâneo com elementos fantásticos. 

Eduardo Câmara é um programador brasileiro que vai morar na cidade americana de South River, Califórnia, após ser recrutado por uma grande empresa. 

Sendo estrangeiro e mulato, começa a sentir o preconceito das pessoas da cidade para com ele.

Algo que nunca tinha sentido no Brasil, pois sua pele é clara para um negro.

Não resiste a um desejo de infância e compra um Chevrolet Camaro z/28 1969, vendido barato num posto de gasolina.

Acaba tendo que prestar esclarecimentos na delegacia de polícia, pois o antigo dono do carro participava de corridas ilegais

É quando o Rinoceronte-Negro aparece e ninguém parece vê-lo além de Eduardo. Ele segue o bicho e acaba sendo levado a trilhas secretas entre árvores cortadas ilegalmente.

Por causa de uma vizinha envolvida com o tráfico de drogas, se vê dentro das corridas ilegais e ainda tem que lidar com a insistência de seu chefe para que trabalhe na revisão de um software secreto do governo.

Tudo isso parece estar conectado de alguma forma e Eduardo, forçado pela visão quase-real do rinoceronte, vai ser jogado bem no meio e ser obrigado a tomar alguma providência.

A narrativa de Causo cativa pelas descrições vívidas da vida de um brasileiro no exterior, principalmente ao explorar o preconceito racial americano, bem mais forte que o brasileiro.

Um tema que o autor desenvolve de maneira sutil, porém eloqüente. Fazendo com que o personagem ganhe consciência de suas raízes sem abandonar a linha narrativa. 

Sua construção da trama surpreende pelo desenrolar imprevisível (apesar de bem fundamentado) que se desenvolve de forma gradual com um final inesperado pelo leitor e um clímax digno de um grande filme de ação.

Um ponto interessante é a construção da cidade fictícia de South River, que ganha muita personalidade nas palavras do autor. Seja pelo formato das ruas, pela história da sua fundação e pelas figuras ilustres ou injustiçadas historicamente (com as quais Eduardo se envolve), a cidade é um grande personagem da trama.

A quase-fantasmagórica figura do rinoceronte, que invade a trama logo no início (e faz participações importantes e pontuais) fascina pela construção descritiva, mas acabou se tornando uma decepção para mim, pois apesar de suas intenções serem claras, eu esperava uma explicação definitiva (e talvez sobrenatural)  para sua origem. O quê claramente não foi intenção do autor, talvez por destoar do clima urbano da narrativa.

Causo conta no pósfacio que certa vez teve um sonho com um rinoceronte que ficou na sua memória durante muito tempo e o incluiu na história para exorcizar essa experiência.

A cidade de South River surge na trama, segundo ele, em resposta a um desafio feito a escritores brasileiros para que escrevessem uma história num país diferente, mas com tempero brasileiro.

E ele consegue isso de várias formas. Pela sensualidade contida da policial Jennifer Adams, pelas memórias de infância de Eduardo e pela descoberta de sua identidade racial, justamente o ponto que pode fazer muitos leitores mais conscientes de si mesmo.

Um instigante suspense contemporâneo com subtexto ecológico e racial cheio de street machines dignas do filme Velozes & Furiosos e um rinoceronte mítico é que o esperar desse livro.

Recomendado.

Valeu!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Quadrinhos: Hellblazer - Pandemônio

John Constantine é um verdadeiro filho da p#$@. 

Politicamente incorreto, fumante inveterado, beberrão, ardiloso, zombeteiro, cheio de lábia e manipulador são alguns dos adjetivos comumente atribuídos a ele que é o anti-herói por excelência.

Dono de um passado que envolve a liderança de uma banda de Punk Rock, invocações de demônios mal-feita, uma visita involuntária ao inferno, dois anos de internação num hospício e perda de vários amigos pra uma maldição, Constantine vive tendo que aplicar seu conhecimentos das artes arcanas acumulados em todos esses anos pra tirar amigos de enrascadas ou salvar a própria pele.

Criado por Alan Moore (V de Vingança, Watchmen) em 1985 pra ser coadjuvante numa nova fase do Monstro do Pântano, o mago inglês (idealizado com a cara do cantor Sting) viria a ganhar revista própria alguns anos mais tarde.

Os 23 anos de publicação da revista mensal (na edição 278 nos EUA) pela DcComics americana comprova o sucesso do personagem que já teve publicados vários especiais, minisséries e participações que fez em outros quadrinhos ao longo dos anos. Sem falar no filme de 2005, estrelado por Keanu Reeves.

Arte de Rick Veitch em 1985
Junto com o Monstro do Pântano de Alan Moore e o Sandman de Neil Gaiman foi um dos que ajudaram a fundar o selo VERTIGO (de quadrinhos adultos) da editora em 1993.

É óbvio que com tantas edições e histórias, existem várias fases diferentes do personagem dependendo da equipe criativa por trás dele, mas algumas características são mantidas.

As principais são seu inseparável sobretudo (ou capote) e o fato de John recorrer a magia somente em último caso, preferindo depender de sua própria astúcia e charme pessoal para sair da maioria das situações na base da conversa. Mas é claro que nem sempre isso é possível.

Seu primeiro escritor na revista própria foi Jamie Delano que estabeleceu os principais pontos do passado sofrido do personagem tornando-o mais humano. É Delano que retorna agora numa história escrita pra edição especial de 25 anos do personagem lançada em março pela Panini editora aqui no Brasil.

John Constantine: HellBlazer – Pandemônio (132págs, 2010) é uma história completa que traz Constantine de visita ao Iraque após a Guerra do Golfo e a queda de Saddam.

Depois de um sonho premonitório com tanques de guerra, jogos de azar e mulheres com cabeça de leão, John encontra uma misteriosa muçulmana de burca (peça de roupa que só deixa visível os olhos) no metrô de Londres

Vai atrás dela e se vê envolvido num atentado terrorista. Descobrindo ser tudo um esquema do governo, John é ameaçado e mandado ao Iraque para ajudar no interrogatório de um prisioneiro.

Tudo porquê ninguém consegue ficar na mesma sala com o homem por muito tempo sem sofrer algum tipo de ataque de pânico involuntário com conseqüências bem nojentas. É quando John se vê no meio de um jogo entre demônios, D´jinns (gênios) e deuses sumérios esquecidos que pode custar sua vida.

O roteiro de Delano é bastante crítico e atual, tendo sucesso ao fazer John destilar comentários ácidos sobre a suposta segurança almejada pela constante vigilância imposta aos ingleses pelo medo após os atentados de 11 de setembro.

Uma ligação com o caso do brasileiro Jean Charles, morto por policiais londrinos ao ser confundido com um terrorista, por exemplo, pode ser feita.

A trama também promove o retorno de um demônio velho conhecido de Constantine, mas fica a dever na aparição das divindades sumérias que poderiam ser melhor aproveitadas (ou contextualizadas) por parte do autor, ou mesmo com um glossário por parte dos editores.

Delano também parece definir abertamente a idade do mago inglês (algo raramente feito com um personagem de quadrinhos tão duradouros) como algo próximo aos 60 anos (mas com corpinho de 40), ao contextualizar um flashback de sua infância no fim de década 1950. É bem provável que a editora reveja isso em pouco tempo já que o personagem não tem nenhuma previsão de cancelamento.

Os desenhos do escocês Jock (pseudônimo de Mark Simpson) são um caso a parte. Num estilo anguloso quase surrealista que lembra bastante Bill Sienkiewicz (artista de Elektra Assassina), Jock se destaca, entre outras coisas, pela divisão irregular de quadros na página que dão bastante dinâmica a narrativa. 

Sua escolha de cores que dominam ambientes e, as vezes páginas inteiras, são o ponto forte do álbum. Ajudando a criar e estabelecer os climas inóspitos dos lugares que John visita, desde o verde frio de Londres, passando pelo marrom claro e seco do deserto ao vermelho desesperador do inferno.

Uma boa história do personagem que mesmo sendo um filho da p#$@, ainda consegue estar no coração de muitos leitores por discutir temas relevantes como segurança, ética, guerra, tortura, responsabilidade social e vingança, demonstrando que o mago inglês desbravador do inferno (Hellblazer) ainda tem força pra mais 25 anos de sucesso.

Recomendado.

Valeu!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Quadrinhos: VERTIGO da Editora Panini

Já está na segunda edição em bancas o almanaque VERTIGO (na sua quinta encarnação brasileira), só com histórias do selo de quadrinhos adultos da editora americana DCComics (a mesma de Batman Super-homem).

O selo VERTIGO foi criado no fim dos anos 80 para incentivar escritores e desenhistas a criarem histórias com temáticas mais maduras, com o objetivo de conquistar leitores que procuravam algo diferenciando dos quadrinhos tradicionais da DC, direcionados a um público infantil e juvenil.

Nos quadrinhos da VERTIGO é comum encontrar tramas abordando sexo, drogas, política, violência e religião, de maneira muito pouco sutil, o que não dá pra fazer numa história comum de super-heróis.

Só pra citar algumas obras e seus autores famosos que já passaram pela VERTIGO: Monstro do Pântano de Alan Moore, Sandman de Neil Gaiman, 100 Balas de Brian Azzarello, Fábulas de Bill Willingham, Y - O último Homem de Brian K. Vaughn, Preacher de Garth Ennis, HellBlazer e muitas outras.
No Brasil, o selo VERTIGO tem uma história complicada. Já foi publicado, se não me engano, por 8 editoras diferentes, sendo que muitas delas cancelaram títulos deixando histórias pela metade, por causa de vendas baixas e complicações contratuais. É claro que as vendas baixas tiveram muito a ver com a (quase) inexistência de divulgação dos títulos, o que levou diretamente a preços muito altos pelas edições, consequência das baixas tiragens dos exemplares. Sem divulgação fica difícil, né?

A editora Panini, que atualmente faz um bom trabalho publicando as HQs de super-heróis tanto da DC quanto da Marvel Comics, foi quem investiu nessa última empreitada do selo lançando o almanaque VERTIGO e algumas edições especiais que retomam histórias deixadas incompletas pela editora PixelMedia, que detinha os direitos do selo anteriormente.

O atual almanaque VERTIGO tem 132 páginas e 5 histórias diferentes. Todas elas inéditas, ao menos em quadrinhos, no Brasil.

Lugar Nenhum é a quadrinização do texto de Neil Gaiman (que já foi série de TV e livro) e conta a história do contador londrino Richard Mayhew,que tinha uma vida chata e sem-graça até salvar uma mulher misteriosa chamada Lady Porta, última herdeira de uma importante família de Londres Abaixo, o submundo mágico existente nos subterrâneos da cidade de Londres.

Após esse breve encontro, a vida de Richard vira de ponta cabeça e ele tem que seguir por uma estranha jornada pelo submundo londrino para conseguir que tudo volte ao normal.

Roteirizada por um mediano Mike Carey e desenhada pelo ótimo Glenn Fabry é a série com maior apelo comercial por trazer o nome de Neil Gaiman, garantia de vendas do selo.

HellBlazer, que traz história da revista mais antiga do selo (com 262 edições americanas até agora) e mostra as aventuras do mago urbano inglês John Constantine (que já teve um filme com Keanu Reeves no papel principal).

O Barato da Vida (publicada nos EUA na edição 175 de HellBlazer) conta o reencontro de Constantine com sua irmã na Inglaterra após ter ficado quase 2 anos nos Estados Unidos e ter sido dado como morto.

O condomínio onde sua irmã mora tem sido afetado uma aura maléfica que motiva atos violentos e depressivos em todos os moradores do local.  Tudo aponta para a bondosa velhinha que mora com os filhos no último andar.

Como sempre, Constantine tem que se meter em algo que não esperava, mas dessa vez para tentar salvar sua família.

Também roteirizada por Mike Carey, tem a volta de Steve Dillon (revelado em Hellblazer há mais de 10 anos) nos desenhos.


Sandman apresenta: A Tessalíada também traz um personagem conhecido, vindo da história Um Jogo de você do Sandman de Neil Gaiman.


Thessaly é a última das bruxas da Tessália.

Extremamente poderosa e com algumas centenas de anos de idade, ela vive pacatamente disfarçada como uma jovem aluna de uma faculdade em Nova York até que é atacada por enormes cães demoníacos, que destroem seu apartamento e matam um colega de faculdade, a obrigando a partir numa jornada para descobrir quem está tentando matá-la.

Tudo isso acompanhada por um galante e falador fantasma que diz ter sido morto por ela há muitos anos atrás.

Roteiro de Bill Willingham e desenhos de Shawn McManus.

Escalpo é uma HQ totalmente inédita por aqui e acaba se tornando a grande surpresa da edição tanto por não envolver magia quanto por tratar de um tema bastante polêmico: a questão indígena americana.


Dashiell Cavalo-Ruim volta a sua reserva indígena depois de 15 anos, encontra velhos desafetos e arruma bastante confusão até que é contratado por seu tio Lincon Corvo-Vermelho, líder da reserva, como policial pra tentar botar ordem na casa.

Acontece que seu tio está envolvido em vários esquemas criminosos e caberá a Dashiell, que trabalha disfarçado para o FBI, desmascará-lo.

Sexo, drogas e jogo mostram a realidade decadente de uma nação indígena nos dias de hoje.

Roteiro de Jason Aaron e arte de R. M. Guerá.

Vikings, apesar de também ser totalmente inédita por aqui, já chega com uma certa fama por ter sido bastante elogiada lá fora.


Mais de mil anos atrás Sven, um habilidoso guerreiro varegue, é obrigado a retornar para casa no norte da Europa após ter notícias da morte do pai.

Seu tio Gorm tomou tudo que era do pai de Sven para si e mantém o povo do vilarejo controlado na base da fome e da violência.

Sven não tem o interesse em nada além do dinheiro deixado por seu pai, mas vai ter que reagir as investidas de seu tio, preocupado que ele reclame o lugar de seu pai como líder de seu povo.

Escrito por Brian Wood (o mesmo de Local) e desenhado por Davide Gianfelice.

Mesmo tendo a mesma premissa do filho pródigo que a casa torna, tanto Escalpo quanto Vikings são boas surpresas. Sendo que Escalpo empolga já na primeira edição, enquanto Vikings tem um ritmo mais lento.

HellBlazer tem uma história curta e consistente, com apresentação de novos e interessantes personagens  que mereciam novas aparições, mas o melhor da trama são as suspeitas de John que prometem ganchos para novas emoções nas próximas edições.

Lugar Nenhum é um suspense que ainda não empolgou em duas edições, apesar de ótima arte de Fabry ,e A Tessalíada surpreende positivamente no uso da metalinguagem para descrever a jornada de Thesssaly, apesar da personagem ainda não ter cativado o suficiente para merecer maior atenção.

Como todo almanaque ou revista de mix, VERTIGO é uma revista de qualidade variável, mas bastante acima da média dos atuais quadrinhos em banca. Boa para quem tá afim de experimentar coisas novas e não gosta de ver sua inteligência subestimada por (algumas) histórias de super-heróis.

Resta esperar que esta nova empreitada do selo VERTIGO no Brasil, ao contrário das anteriores, tenha uma longa vida pela Panini.

Recomendado!

Valeu!
Ps.: Ah! Vale a pena acessar o site da Panini para a linha VERTIGO com ótimas referências e informações sobre todas as séries  http://web.hotsitepanini.com.br/vertigo/

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Livro: Diários do Vampiro Vol.1 - O Despertar

Romance vampiresco adolescente que foi escrito pela autora L.J. Smith em 1991, bem antes do sucesso da série Crepúsculo.
Diários do Vampiro - O Despertar (Galera Record, 2009, 236pgs.) é o primeiro volume de uma saga que conta a história do vampiro Stefan e da colegial Elena, que juntos formarão as três pontas de um triângulo amoroso com o também vampiro Damon, o irmão mais velho de Stefan.


Stefan chega na cidadezinha americana de Fell´s Church e matricula-se como aluno num colégio de ensino médio com a intenção de se estabelecer na cidade.


Conhece Elena, de 17 anos, a garota mais popular do colégio, que lembra a mulher que ele amou no passado e fica com medo de se aproximar dela. Mas ela não vai deixar o inesperado sentimento que surge por ele passar batido. É claro que eles vão se apaixonar.


A primeira metade do livro é bem cansativa e maçante por perder muito tempo nas descrições de Elena, suas amigas, seus sentimentos e suas tentativas de se aproximar de Stefan.


A história melhora um pouco nos momentos de lembrança, ao contar um pouco da origem de Stefan e de seu irmão, mas só passa a ficar mais interessante mesmo depois da chegada de Damon a cidade, pois aí se estabelece o conflito na trama. O problema é que já se passou mais da metade do livro até isso acontecer.


Um ponto forte do livro é o fato dos vampiros serem do tipo clássico, com dentes pontudos, poderes mentais, metamorfoses animais e, apesar de estarem protegidos por um anel-amuleto, são vulneráveis ao sol, podendo inclusive perder a vida se não tomarem cuidado. É claro que nenhum desses motivos salvam o livro.


Sem falar que a história perde muito da credibilidade, na minha opinião, ao não conseguir explicar com sucesso porquê diabos um vampiro da Itália do século XV, ou seja, que tem por volta de 500 anos de idade, frequentaria uma escola de Ensino Médio. Provavelmente isso será explicado nos volumes posteriores (ou não).


Claramente um livro de apresentação, sem muito a oferecer a um público mais maduro, posso dizer que esse primeiro volume é um livro declaradamente feito para meninas adolescentes por dar muita importância ao dia-a-dia da personagem Elena, que muitas vezes parece superficial, lembrando aqueles clichês de patricinhas americanas (inclusive sendo líder de torcida).


A história só engata pra valer na promessa de confronto do final que, é claro, deixa pra acontecer no próximo livro (a qual provavelmente não lerei). Mas quem gostou de Crepúsculo pode vir a gostar de ler umas das séries em que Stephenie Meyer se inspirou (ou plagiou, mesmo).


O primeiro de uma série já com 7 livros publicados no EUA, que com certeza será um sucesso de vendas por aqui, aproveitando por tabela a moda dos vampiros adolescentes e a fama do seriado de TV Vampire Diaries (que se baseou nele), exibido no canal a cabo Waner Channel desde outubro de 2009.
Recomendado pra quem quiser ler algo sobre vampiros (um pouco) melhor do que o que está na moda. É claro que se você quiser ler algo muito melhor, os romances de Anne Rice, ou mesmo o Drácula de Bram Stoker estão sempre por aí.


Valeu!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Autor: Lourenço Mutarelli

Lourenço Mutarelli é um cara sujo.

Quando digo sujo não é referente à higiene, ou mesmo a seus relacionamentos (já que não o conheço), mas sim ao cenário escolhido para os personagens de suas expressões artísticas.

Minha intenção nesse post (que ficou um pouco grande) é divulgar o autor e sua obra, fazendo um pequeno apanhado de sua carreira e resenhar três obras suas, duas de grande repercussão e uma mais recente.

Mutarelli é desenhista. Dono de um estilo expressionista (distorcido), mas com um nível de detalhamento espetacular em seus quadros, fazendo contraponto com a quase caricatura em seus desenhos de personagens, que se destacam por serem feios.
Mutarelli é escritor. E sua prosa tenta imitar sua arte ao escrever sobre fracassados, decadentes, pessoas que chegam no fundo do poço e que são obrigadas a enfrentar situações maiores ou menores que elas para poder se superar (ou não).

Tendo cursado faculdade de Belas Artes e trabalhado como desenhista nas revistinhas da Turma da Mônica, Lourenço começou a fazer sucesso de crítica nos quadrinhos em 1991 ao publicar o álbum Transubstanciação, que desenhou e escreveu.

O ápice de sua carreira de quadrinista, porém, só se deu em 1999 a partir do álbum, O Dobro de Cinco (Devir editora), início da chamada “Trilogia do Acidente”, que em 4 álbuns (isso mesmo 4), conta as várias (des)aventuras do detetive particular Diomedes em busca do desaparecido mágico Enigmo. Os outros álbuns da trilogia são O Rei do Ponto e A Soma de Tudo parte 1A Soma de Tudo parte 2.


É a saga de um investigador nada convencional. Diomedes é baixo, gordo e tem mais de 50 anos. Cheio de problemas financeiros e no relacionamento com sua esposa, acaba vendo no caso do ilusionista desaparecido a solução de todos os seus problemas.

Mas nada é o que parece ser e, entre falsos herdeiros, artistas de circo decadentes, poetas malditos, policiais corruptos, prostitutas, assassinos seriais, venenos, viagens intercontinentais e quadrinistas convencidos, Diomedes se engana se as coisas sairão como ele gostaria. Afinal, segundo ele, o mágico é a única criatura na face da Terra que tem o direito de desaparecer.
O próprio autor já declarou que pretendia matar Diomedes no primeiro álbum, que tem o final em aberto, mas não fez isso devido ao sucesso do personagem e decidiu produzir continuações a sua trama.

Uma ótima história de detetives que quase toca o sobrenatural, cheia de frases de efeito, reviravoltas e citações a filosofia e a mitologia grega, tudo isso envolto em um grande mistério, em páginas permeadas de aparições de personagens famosos entre os figurantes é o que esperar dessa trilogia em 4 livros.

Recomendado!

Em 2002, já famoso no meio dos quadrinhos nacionais, Mutarelli surpreende ao lançar timidamente, junto com última parte da história de Diomedes, um romance literário chamado O Cheiro do Ralo, que acabou virando filme em 2006, com direção de Heitor Dhalia e um Selton Mello escrotamente perfeito no papel principal, além do próprio Lourenço fazendo uma participação como ator.

O Cheiro do Ralo (Devir editora, 2002) é a tragicômica história de um homem (que no cinema foi chamado de Lourenço, mas no livro não chega a ter nome) em direção ao fundo do poço.

Dono e único balconista de uma loja de compra de objetos usados, ele começa a sentir um insistente cheiro de merda vindo do banheiro de seu escritório.

Seu trabalho é passar os dias negociando e, às vezes, humilhando seus clientes e em troca dá dinheiro por objetos velhos. Ele se apaixona obsessivamente pela bunda de uma garçonete que mal lembra o nome e o rosto e termina com sua noiva, enquanto tenta de tudo para acabar com o cheiro de merda que sai do ralo do banheiro. Chega ao ponto de achar que o cheiro vem dele.
Narrada pelo próprio personagem a história tem passagens engraçadíssimas, as vezes de humor-negro, que dão charme a trama e amenizam o verdadeiro objetivo que é mostrar o processo de decadência de um personagem.

Mestre das descrições cotidianas e das frases curtas, Mutarelli conseguiu como ninguém imprimir realismo e dinâmica a história que é devorada por um bom leitor em poucas horas. Com uma prosa ácida, divertida, suja e sexy, este ainda é seu melhor romance.

Recomendado.

Escreveu mais quatro romances e algumas peças de teatro desde o sucesso feito pel´O Cheiro do Ralo. Em contrapartida lançou apenas mais um álbum em quadrinhos em 2005. Em 2006 declarou em várias entrevistas que não pretendia mais fazer quadrinhos, pois desenhava muito lentamente e viu na literatura uma chance de ganhar a vida sem precisar ter tanto trabalho.

Dizem que para ser um bom escritor basta escrever sobre o que conhece e Lourenço Mutarelli leva isso ao pé da letra. Suas histórias são, em sua grande maioria, urbanas e contemporâneas, quase sempre se passando na cidade onde ele mora, São Paulo. A prosa de Mutarelli tem o ponto forte de fazer você ler páginas e páginas de situações que podem parecer triviais, mas que estabelecem o tom e a credibilidade de seus personagens.

Seus personagens são pessoas decadentes, atormentadas por erros do passado, tocados pela loucura. Quase um retrato do próprio autor que admite tomar remédios controlados em prevenção a depressão a aos ataques de síndrome do pânico que teve quando mais jovem. Hoje ele é casado, tem um filho e diz viver no momento mais feliz de sua vida, mas admite ainda ter muita coisa estranha pra tirar de sua mente distorcida e colocar no papel.
Seu último romance, Miguel e os Demônios (Companhia das Letras, 2009), me deixou um pouco perturbado ao comprovar isso.


É a história de Miguel, um policial quarentão que, divorciado da esposa e sem a guarda do filho, volta a morar com o pai. Namora uma manicure com duas filhas pequenas e outros problemas do passado e, ao ir investigar a descoberta de uma múmia mexicana atrás de uma parede, fica fascinado por alguém que pode colocar em risco seu relacionamento com seu chefe, sua namorada e seu emprego.

Escrito propositalmente com a estrutura de um roteiro de cinema, Mutarelli dá mais espaço ao diálogo do que a narrativa e consegue repetir o estilo do seu romance de maior sucesso ao criar frases curtas e descritivas que dinamizam e agilizam a leitura. Mas diferente de O Cheiro do Ralo, esse livro não tem o humor como elemento de diluição da tensão e pode ser classificado sem medo na categoria dos dramas policiais contemporâneos. Ou dos dramas apocalípticos pós-modernos. Depende do ponto de vista.

Policiais truculentos, pedofilia, seitas satânicas, teorias da conspiração, travestis, múmias, auto-multilação e vingança pessoal permeiam esse romance quase apocalíptico.

Na minha opinião, não chega a ser melhor que O Cheiro do Ralo, mas com certeza supera seu romance anterior A Arte de Produzir Efeito Sem Causa (Companhia das Letras, 2008), em que o personagem principal também volta para a casa do pai depois de se afastar da esposa, mas num contexto completamente diferente, claro.


Mesmo um pouco repetitivo, Mutarelli, depois de nove álbuns de quadrinhos, cinco romances e quatro peças de teatro, ainda é um autor nacional contemporâneo de qualidade surpreendentemente alta.

Só pra atualizar, depois da ponta como segurança que fez no filme d´O Cheiro do Ralo, Mutarelli decidiu investir na formação de ator. Fez algumas pontas em curtas, atuou em peças de teatro e aceitou o convite para estrelar o segundo filme baseado em um livro seu, O Natimorto, que já foi exibido em vários festivais pelo país e teve pré-estréia em São Paulo.

E um filme baseado em O Dobro de Cinco também já tem sido divulgado pela rede, inclusive com foto e trailer, mas parece que falta grana para começar a produção.
É mesmo um pena que ele não faça mais quadrinhos. Mas que venham mais romances e filmes!

Recomendadérrimo!

Valeu!!

Links Interessantes sobre o autor:
=== Seu perfil e seus álbuns de quadrinhos pela editora Devir: http://www.devir.com.br/mutarelli/index.htm
+ Escreveu para o projeto Amores Expressos em 2007:  http://blogdolourencomutarelli.blogspot.com/
=== Seu blog atual, jogado às moscas desde setembro de 2009: http://lourencomutarelli.blogspot.com/
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