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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Livro: Sangue Quente

Indiscutivelmente, os zumbis estão na moda. Depois de Vampiros, Lobisomens e Super-heróis agora é a vez dos Mortos-Vivos tomarem de assalto a cultura POP.

Sua fome por carne viva e cérebro fresco já foi tema de produções no cinema, nos quadrinhos, na TV e em vários livros de ficção. Todos abordados pelo ponto de vista humano

O que o autor Isaac Marion audaciosamente fez foi diferente. Ele decidiu abordar a questão do ponto de vista dos comedores de cérebro.

Primeiro num conto curto e depois em Sangue Quente (Warm Bodies, 256 págs.) seu primeiro romance que a editora Leya acaba de lançar aqui no Brasil.

R é um zumbi. Após uma praga desconhecida dizimar a civilização humana e transformar muitos em Mortos-Vivos, ele passa a vida (ou melhor, o pós-vida), vagando pelos salões destruídos de um aeroporto, brincando nas escadas rolantes e, eventualmente, indo até a cidade com os outros a procura de carne viva para comer. 

Numa das buscas por alimento, ataca um grupo de adolescentes e, ao devorar o cérebro do líder deles, Perry, tem pequenos flashes de memória da vida e paixões do próprio. Acaba reconhecendo uma delas ali mesmo: sua namorada Julie. Sentindo algo que julgou nunca mais sentir dentro de si mesmo, R impede que outros a devorem e a leva para seu esconderijo no aeroporto.

Ainda nos primeiros estágios de decomposição, R consegue articular algumas sílabas para se comunicar, mas sua diferença dos outros zumbis está no pensamento. Ele raciocina melhor que muitos. Não sabe de sua vida anterior e só lembra a primeira letra (daí o R) de seu nome, mas filosofa, critica, brinca e lamenta sua própria condição de morto-vivo até que a presença da menina ao seu lado começa a lhe despertar algo novo por dentro e por fora. 

R está mudando e vai depender de Julie pra que essa mudança se desenvolva. O problema é que os outros zumbis, os humanos restantes até (a princípio) a própria Julie vão resistir contra isso.

Uma trama que surpreende pela forma como é narrada: por um zumbi. O autor Isaac Marion inova colocando nas palavras de R questões existenciais, críticas sociais e reflexões artísticas através de uma prosa despretensiosa e bem-humorada

R é um zumbi filosófico e melancólico, porém bem espirituoso que enfrenta problemas pra definir a vida em função da própria morte. Essas reflexões e descrições críticas e bem-humoradas do dia-a-dia de um zumbi são o ponto alto da primeira parte do livro.

Na segunda parte, Marion mostra a nova sociedade humana (que cria comunidades dentro de gigantescos estádios esportivos), desenvolve as motivações e psiquês de Julie e Perry e insere as críticas a organização social. Sobrando uma citação rápida a favelas brasileiras.

Apesar do clímax com reviravoltas um tanto cansativas e do final da trama ser cheio de lugares-comuns, a prosa em primeira pessoa é um prato cheio para o autor destilar vários comentários sobre mudanças de visão e o potencial de cada ser humano através do olhar de um zumbi. 

Uma verdadeira metáfora para a chegada da maturidade.

O livro ainda contém ilustrações de partes do corpo humano abrindo cada capítulo (como um manual de anatomia) e o texto faz várias referências e citações a música de Frank Sinatra e John Lennon.

O livro foi distribuído primeiramente nos EUA de forma independente (com o dinheiro do próprio autor) em 2009 e, por causa do sucesso, teve várias reimpressões até ter seus direitos comprados para o cinema e uma grande editora se interessar e lançá-lo oficialmente ano passado.

A aposta da editora foi tanta que até um trailer (prática que já é comum aos grandes lançamentos nos EUA) foi desenvolvido para o livro. Confira abaixo (em inglês, claro).
E mesmo assim, com o desfecho um pouco fraco e com o comentário positivo de Stephenie Meyer (autora da série Crepúsculo) na capa, ainda dá pra ser fisgado pela bela construção narrativa de Marion no livro que, uma vez começado, só te fará largá-lo em algumas horas e só quando for absolutamente necessário.

Sem dúvida o livro mais surpreendente de 2011. E que já está com o roteiro pronto e atores escalados pra ser filmado em Hollywood.

Vale (bastante) a pena!

Recomendado.

Valeu!
Ps.:

terça-feira, 10 de maio de 2011

Livro: Abraham Lincoln - Caçador de Vampiros

Numa entrevista recente ao Canal Brasil, o brasileiro José Padilha, idealizador, co-escritor, produtor e diretor do sucesso Tropa de Elite disse que uma das motivações para fazer o filme foi a falta de produções com policiais como heróis no Brasil. 

O comentário do diretor elucida também uma grande diferença cultural entre as culturas brasileira, onde o herói é geralmente marginalizado, e dos EUA, onde heróis geralmente são figuras de autoridade como policiais, soldados ou até mesmo presidentes.

Foi num desses últimos que apostou o autor americano Seth Grahame-Smith em seu último romance, Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros (330 págs., 2010) que a editora Intrínseca lançou no Brasil agora no início de 2011. 

Abraham Lincoln (1809-1865) foi o 16º presidente dos EUA, lembrado por ter comandado o país durante o sangrento período de Guerra Civil (1861-1865), por ter fundado o partido republicano, por ter finalmente abolido a escravidão no país e pelas inúmeras anedotas contadas sobre ele que o fazem conhecido até hoje como Abe, o honesto. 

Resumindo, uma figura lendária e uma das mais interessantes da história americana e (por que não?) mundial, que se torna agora ainda mais intrigante após Grahame-Smith descobrir em 2009 os diários perdidos do 16º presidente americano, que mostram que a principal motivação dele para combater as injustiças foram os sanguinários vampiros.

Óculos escuros, sombrinhas e vampiros.



Perdendo a mãe muito cedo para a misteriosa “doença do leite”, Abe logo descobre que um comerciante vampiro a mordeu após seu pai falhar em pagar uma dívida que tinha com ele. Decide então treinar seu corpo e sua mente para combater durante toda a sua vida aquela praga que parecia ter infestado os EUA.

Seus primeiros esforços são mais atrapalhados do que bem sucedidos até que conhece Henry Sturges, que veio da Inglaterra num dos primeiros esforços para a colonização do Novo Mundo e foi transformado em vampiro a contra-gosto após ter a mulher e filho mortos no massacre de sua vila no final do século XVI.

Vampiro que protegia Abe a mando de Henry.
Com quase 300 anos de idade e um desprezo pelas maldades praticadas pela própria raça, Henry treina Abe e lhe conta tudo que sabe sobre vampiros, começando a lhe passar missões expondo aqueles dos chupadores de sangue que achava que mereciam morrer. 

Tendo que cuidar da própria vida, Abe faz da caça de vampiros uma atividade paralela, quase sempre noturna, enquanto estuda, pula de um emprego a outro, se apaixona e decide lutar também contra as injustiças cometidas pelo Estado como advogado, político e legislador, até se tornar presidente e enfrentar a Guerra Civil americana.

O livro é dividido em três partes que percorrem a vida de Abe desde menino até presidente.

Crânio de vampiro na Guerra.
Cada capítulo abre com trechos de discursos ou cartas reais escritas por Lincoln e ainda conta com reproduções de fotos e quadros de época que mostram figuras vampirescas a espreita de Abraham durante grande parte de sua vida.

A prosa de Seth Grahame-Smith pontua a vida de Abraham Lincoln com batalhas sangrentas e detalhando as motivações do presidente para combater as injustiças desde a tenra infância até a sua morte e além

Alterna trechos subjetivos do diário de Abe com narrações objetivas do próprio autor dando mais credibilidade a trama por causa da constante mudança de “voz narrativa”, estilo adotado por muitos biógrafos famosos.

Isso é explicado na introdução do livro, onde Grahame-Smith se insere como personagem e diz que uma das exigências que a pessoa que lhe entregou os diários fez foi que escrevesse sobre eles e não transcrevesse literalmente 100% de tudo que lá estava escrito.

O famoso discurso de Gettysburg com vampiros a espreita.
Escolha acertada do escritor por dar dinâmica e fluidez à narrativa, que é permeada por passagens históricas famosas (e outras nem tanto) da vida de Abraham, mostrando o nível de pesquisa feito em uma vida extensamente discutida e exposta por (segundo Grahame-Smith) mais de 15 mil livros, além de diversos ensaios e filmes desde sua morte.

Outro grande ponto discutido no livro é a escravidão, amplamente defendida na comunidade vampírica da trama simplesmente por fornecer alimento fácil e sem julgo moral aos predadores, que foram os grandes patrocinadores da Guerra civil.

Ou seja, a vitória dos estados do norte, comandados por Lincoln, no fim da guerra acaba se tornando uma alegoria ainda maior à defesa da vida e liberdade humana.

Um livro bem difícil de largar tanto para os fãs de ficção sobrenatural quanto àqueles que gostam de romances históricos.

Um ótimo trabalho de Seth Grahame-Smith, que junto com sua última obra, Orgulho e Preconceito e Zumbis (já resenhada por mim aqui), se mostra um dos maiores autores de atual moda de literatura mashup, que tem como principal característica misturar textos pré-existentes e fatos reais com a imaginação do autor dando origem a novas obras que não desrespeitam a essência da original.

Suspense, romance, terror, vampiros, guerra, ação e fatos históricos são o que esperar da leitura extremamente divertida e informativa desse livro que já teve o sinal verde dado para sua adaptação ao cinema por Tim Burton.

Recomendado.

Valeu!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Desenho: Os Vingadores - os super-heróis mais poderosos da Terra

A compra da Marvel Entertainment pela Walt Disney Company deu muito o quê falar em 2009. Muitas especulações foram feitas e vários artistas deram sua visão do que seria um novo universo de personagens. 

Encontro Disney-Marvel
Brincadeiras a parte, o importante pra nós espectadores são os resultados dessa parceria que só em meados do ano passado começaram a chegar ao grande público.

A animação para TV da Marvel Animation, Os Vingadores: Os super-heróis mais poderosos da Terra (The Avengers: Earth's Mightiest Heroes, 2010), veiculada pelo canal Disney XD é o primeiro fruto dessa união e uma grata surpresa tanto para novos quanto para os fãs de longa data.

As quatro prisões mais avançadas dos EUA sofrem pane em seus sistemas, provocando fugas em massa dos vilões mais perigosos do planeta praticamente ao mesmo tempo. Caberá aos super-heróis mais poderosos da Terra se unirem pela primeira vez para caçar os bandidos e descobrirem quem armou essa ameaça. 

Homem-de-ferro, Thor, Hulk, Homem-formiga e Vespa estrelam os primeiros episódios e só depois (num benvindo respeito a cronologia dos quadrinhos) recebem o reforço de Capitão América, Pantera Negra e Gavião Arqueiro que com a ajuda (nem sempre de boa vontade) da organização militar S.H.I.E.L.D. vão enfrentar a organização terrorista H.I.D.R.A. e vilões como Kang, Líder, Barão Zemo, Loki e vários outros.

Uma série que remete ao heroísmo clássico e consegue juntar esplendidamente referências as várias das fases que o supergrupo teve nos quadrinhos e aproveita muitas das situações já desenvolvidas nos filmes do Hulk e, principalmente, do Homem-de-ferro para apresentar os personagens.

São 26 episódios na (já terminada lá fora) primeira temporada, com mais 26 encomendados para a segunda temporada. 

Tudo planejado pelo roteirista Christopher Yost, que mostra ter realizado um ótimo trabalho de pesquisa ao utilizar nas histórias quase que somente personagens que teriam sido criados nos quadrinhos, desde vilões obscuros a heróis esquecidos na cronologia atual. O currículo do escritor não é muito extenso, mas apresenta trabalhos significativos na boa série animada X-men: Evolution (de 2002) e em algumas histórias para os quadrinhos oficiais da Marvel Comics.

Yost e sua equipe de roteiristas ganham pontos por desenvolver uma trama quase unificada que mantém o pique até o último episódio com várias sub-tramas ao longo da narrativa. 

O Capitão América, por exemplo, estrela uma história do passado no episódio 6, mas só vai se juntar aos Vingadores no episódio 9
Nesse mesmo episódio 6 aparece também Kang, o conquistador, que só voltaria no episódio 17
O robô Ultron aparece em vários episódios do início, mas só revela sua verdadeira faceta no episódio 22 e assim por diante.

Tudo isso mostra a preocupação que se teve com a história, o que também ocorre com a personalidade individual de cada um dos heróis. 

Temos o carisma cafajeste do Homem-de-ferro, a honra cavalheiresca de Thor, a raiva e esquizofrenia de Bruce Banner/Hulk, a liderança e inadequação do Capitão América, a calma e capacidade de estratégia do Pantera Negra, o amor pela ciência e o pacifismo do Homem-formiga, a intuição e impulsividade de Vespa e a impaciência e determinação do Gavião Arqueiro.

Outro ponto positivo é o estilo do desenho que com certeza foi copiado de animações de sucesso da DcComics (eterna rival da Marvel) como Batman (1992-1995), Superman (1996-2000) e Liga da Justiça (2001-2004), provavelmente apostando na familiaridade do espectador com o traço e na facilidade de animação pela simplicidade do estilo.

Se tiver que citar um fator negativo seria a simplificação das adaptações de algumas tramas da cronologia atual dos quadrinhos para a telinha, mas isso já era esperado num desenho que tem como alvo o público infanto-juvenil e, pelo que já foi citado, com certeza só vai desapontar mesmo aquele tipo de fã mais chato dos quadrinhos.

Uma grande animação com foco no público adolescente que aposta em tramas (levemente) complexas com um bom desenvolvimento de personagens e que serve de preparação para o filme dos Vingadores prometido pra estrear nos cinemas em 2012.

E que venha a segunda temporada do desenho.

Recomendado.

Valeu!

domingo, 1 de maio de 2011

Filme: Thor

A Marvel finalmente começa o que há alguns anos parecia impossível: construir um universo de super-heróis conciso como o dos quadrinhos no cinema.

Sua mais recente incursão nessa empreitada é Thor (2011) dirigido por Keneth Branagh. 

Jane Foster (Natalie Portman) é uma astrofísica que investiga o surgimento de auroras-boreais na noite do Novo México quando, após um evento inexplicável, atropela no meio do deserto um mendigo musculoso que se intitula Thor (Chris Hemsworth). 

Logo é mostrado que Odin (Anthony Hopkins), senhor de Asgard, derrotou e expulsou os Gigantes de Gelo da Terra há mais de mil anos atrás e foi conclamado um deus pelos povos nórdicos da época. 

Criando Thor e Loki (Tom Hiddleston) como irmãos ele tentou coroar o primeiro, mas este se mostrou despreparado pra governar e, depois de uma série de julgamentos mal-feitos (com a influência do irmão) que levaram a promessa de guerra entre reinos, é mandado como castigo para a Terra sem força, poderes e armas. 

Caberá a Jane ajudá-lo a recuperar sua força e voltar a Asgard para impedir a guerra e enfrentar o irmão.

O roteiro, baseado numa história de J. Michael Straczynski e Mark Protosevich, apresenta a origem do personagem de quadrinhos baseado na mitologia nórdica como criado por Stan Lee e Jack Kirby para a Marvel Comics há quase 50 anos.

Tem sucesso em conseguir equilibrar as seqüências de ação com a carga dramática, principalmente nos conflitos entre Odin e Loki, mas falha ao aprofundar muitos dos personagens e ao resolver os conflitos de Thor, o personagem principal, de forma muito rápida e trivial. 

Basta apenas uma noite na Terra e meia dúzia de sorrisos para Jane Foster pra Thor virar o defensor dos humanos. 

Tirando isso, a trama até apresenta um bom desenvolvimento com destaque para as atuações de Sir Anthony Hopkins, que consegue passar toda a força, fragilidade e amor de Odin pelos filhos quando necessário, e também para Tom Hiddleston, como Loki, cujo semblante contido e carregado revela toda a dor de um personagem que se desenvolve esplendidamente num vilão durante a narrativa.

Não que o ator Chris Hemsworth, que interpreta Thor, faça feio em seu trabalho, mas o personagem, um guerreiro arrogante e egoísta, não teve um roteiro que exigiu muito dele. 

O mesmo poder ser dito de Natalie Portman, que depois de ganhar o Oscar por Cisne Negro, não faz muita força pra interpretar uma Jane Foster pessimamente desenvolvida pela trama.

Destaque para as cenas de ação e para o belíssimo visual da cidade de Asgard, um deslumbramento elaborado pela equipe do filme com muito esmero.

O filme, apesar de poder ser apreciado por qualquer um, acaba se tornando um prato cheio pra fãs dos quadrinhos com menção a várias das fases do gibi, como a que Thor assumiu a identidade do médico Donald Blake.

Além, é claro, de contar com a participação da agência militar secreta S.H.I.E.L.D.(que já apareceu nos filmes do Homem-de-ferro), com pontas de personagens como Clint Barton (o herói Gavião Arqueiro), com referências a radiação gama (que criou o Hulk) e menções a artefatos como o Cubo cósmico

Tudo isso mostra a concisão do universo cinematográfico e a preparação para um cada vez mais certo filme dos Vingadores, equipe que reune os já desenvolvidos na telona: Hulk e Homem-de-ferro, além de Thor e Capitão América (cujo filme está sendo finalizado).

Um conto de inveja entre irmãos e uma conturbada relação familiar permeado por grandes cenas de ação e paisagens de tirar o fôlego é o que esperar de Thor.

Recomendado.

E que venham os Vingadores!

Valeu!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Quadrinhos: Hellblazer - Pandemônio

John Constantine é um verdadeiro filho da p#$@. 

Politicamente incorreto, fumante inveterado, beberrão, ardiloso, zombeteiro, cheio de lábia e manipulador são alguns dos adjetivos comumente atribuídos a ele que é o anti-herói por excelência.

Dono de um passado que envolve a liderança de uma banda de Punk Rock, invocações de demônios mal-feita, uma visita involuntária ao inferno, dois anos de internação num hospício e perda de vários amigos pra uma maldição, Constantine vive tendo que aplicar seu conhecimentos das artes arcanas acumulados em todos esses anos pra tirar amigos de enrascadas ou salvar a própria pele.

Criado por Alan Moore (V de Vingança, Watchmen) em 1985 pra ser coadjuvante numa nova fase do Monstro do Pântano, o mago inglês (idealizado com a cara do cantor Sting) viria a ganhar revista própria alguns anos mais tarde.

Os 23 anos de publicação da revista mensal (na edição 278 nos EUA) pela DcComics americana comprova o sucesso do personagem que já teve publicados vários especiais, minisséries e participações que fez em outros quadrinhos ao longo dos anos. Sem falar no filme de 2005, estrelado por Keanu Reeves.

Arte de Rick Veitch em 1985
Junto com o Monstro do Pântano de Alan Moore e o Sandman de Neil Gaiman foi um dos que ajudaram a fundar o selo VERTIGO (de quadrinhos adultos) da editora em 1993.

É óbvio que com tantas edições e histórias, existem várias fases diferentes do personagem dependendo da equipe criativa por trás dele, mas algumas características são mantidas.

As principais são seu inseparável sobretudo (ou capote) e o fato de John recorrer a magia somente em último caso, preferindo depender de sua própria astúcia e charme pessoal para sair da maioria das situações na base da conversa. Mas é claro que nem sempre isso é possível.

Seu primeiro escritor na revista própria foi Jamie Delano que estabeleceu os principais pontos do passado sofrido do personagem tornando-o mais humano. É Delano que retorna agora numa história escrita pra edição especial de 25 anos do personagem lançada em março pela Panini editora aqui no Brasil.

John Constantine: HellBlazer – Pandemônio (132págs, 2010) é uma história completa que traz Constantine de visita ao Iraque após a Guerra do Golfo e a queda de Saddam.

Depois de um sonho premonitório com tanques de guerra, jogos de azar e mulheres com cabeça de leão, John encontra uma misteriosa muçulmana de burca (peça de roupa que só deixa visível os olhos) no metrô de Londres

Vai atrás dela e se vê envolvido num atentado terrorista. Descobrindo ser tudo um esquema do governo, John é ameaçado e mandado ao Iraque para ajudar no interrogatório de um prisioneiro.

Tudo porquê ninguém consegue ficar na mesma sala com o homem por muito tempo sem sofrer algum tipo de ataque de pânico involuntário com conseqüências bem nojentas. É quando John se vê no meio de um jogo entre demônios, D´jinns (gênios) e deuses sumérios esquecidos que pode custar sua vida.

O roteiro de Delano é bastante crítico e atual, tendo sucesso ao fazer John destilar comentários ácidos sobre a suposta segurança almejada pela constante vigilância imposta aos ingleses pelo medo após os atentados de 11 de setembro.

Uma ligação com o caso do brasileiro Jean Charles, morto por policiais londrinos ao ser confundido com um terrorista, por exemplo, pode ser feita.

A trama também promove o retorno de um demônio velho conhecido de Constantine, mas fica a dever na aparição das divindades sumérias que poderiam ser melhor aproveitadas (ou contextualizadas) por parte do autor, ou mesmo com um glossário por parte dos editores.

Delano também parece definir abertamente a idade do mago inglês (algo raramente feito com um personagem de quadrinhos tão duradouros) como algo próximo aos 60 anos (mas com corpinho de 40), ao contextualizar um flashback de sua infância no fim de década 1950. É bem provável que a editora reveja isso em pouco tempo já que o personagem não tem nenhuma previsão de cancelamento.

Os desenhos do escocês Jock (pseudônimo de Mark Simpson) são um caso a parte. Num estilo anguloso quase surrealista que lembra bastante Bill Sienkiewicz (artista de Elektra Assassina), Jock se destaca, entre outras coisas, pela divisão irregular de quadros na página que dão bastante dinâmica a narrativa. 

Sua escolha de cores que dominam ambientes e, as vezes páginas inteiras, são o ponto forte do álbum. Ajudando a criar e estabelecer os climas inóspitos dos lugares que John visita, desde o verde frio de Londres, passando pelo marrom claro e seco do deserto ao vermelho desesperador do inferno.

Uma boa história do personagem que mesmo sendo um filho da p#$@, ainda consegue estar no coração de muitos leitores por discutir temas relevantes como segurança, ética, guerra, tortura, responsabilidade social e vingança, demonstrando que o mago inglês desbravador do inferno (Hellblazer) ainda tem força pra mais 25 anos de sucesso.

Recomendado.

Valeu!

domingo, 27 de março de 2011

Filme: TRON- O Legado

Admito que fiquei com medo de assistir esse filme. Minha expectativa era grande, mas o excesso de críticas ruins me fez adiar a apreciação do filme até agora. 

E, justiça seja feita, TRON: O Legado (TRON: Legacy, 2010) dirigido pelo estreante Jospeh Kosinski, não é um filme ruim.

7 anos depois de sua aventura no mundo virtual (retratada no filme de 1982), o programador Kevin Flynn (Jeff Bridges) desaparece misteriosamente deixando sua empresa ENCOM e seu filho Sam Flynn (Garrett Hedlund) ao julgo do destino. Passados 20 anos desde seu desaparecimento, seu amigo Alan (Bruce Boxleitner) recebe uma mensagem eletrônica e avisa Sam que o pai pode estar vivo.

O jovem Flynn vai ao antigo fliperama do pai e é transportado para o mundo virtual onde descobrirá uma conspiração do programa CLU (um jovem Jeff Bridges) para tomar de assalto o mundo virtual e até o real.

Roteirizado a quatro mãos por Edward Kitsis e Adam Horowitz, responsáveis por vários episódios da série LOST, o filme tem uma trama bem estruturada em termos de filme de ação, porém bastante superficial dada às implicações que a existência de um mundo virtual praticamente independente poderia trazer. 

O primeiro filme foi uma verdadeira revolução digital pelo pioneirismo no uso de computação em larga escala em sua pós-produção e fez bastante sucesso por isso, mas também compartilhava do mesmo problema de roteiro. O que não foi grande coisa na época já que o mundo computadorizado apenas começava a ser explorado no cinema.

Hoje em dia, com tantas produções sobre mundos virtuais já produzidas (vide Matrix e outros), esse TRON: O Legado já chega datado por seu roteiro que se preocupou mais em homenagear o filme de 1982 do que situar a trama num mundo mais palpável.

Apesar disso consegue empolgar na atuação de Jeff Bridges em três papéis bastante distintos: o empreendedor Kevin Flynn de 1989, o invejoso vilão CLU e o quase “mestre-zen” do Kevin Flynn atual.

Boa composição do ator que, ajudado por seu rejuvenescimento digital, cativa em todas as cenas que aparece.

Grande fase de Bridges, que tem tido várias indicações a prêmios nos últimos dois anos, inclusive ganhando o OSCAR em 2010 por outro filme.

Outro ponto empolgante é a trilha sonora da dupla francesa Daft Punk que, emulando sons eletrônicos dos anos 1980, consegue criar músicas que homenageiam a trilha original e concebem perfeitamente a emoção de cada cena.

Prato cheio não só pra quem gosta de música eletrônica, mas também pra quem viveu a época homenageada. 

Mas o principal mesmo é o visual do filme.

Atualizando os efeitos do primeiro, esse filme impressiona bastante pela paleta de cores escolhida, por rejuvenescer as cenas de ação do filme anterior e por criar muitas novas seqüências computadorizadas na pós-produção.

Seqüências que, se não se destacam pelos detalhes ou pelo nível de computação gráfica utilizada, causam um grande impacto visual no espectador.

Um bom filme de ação, que apesar do roteiro fraco, se destaca pela atuação de seu protagonista, pelos efeitos e pela empolgante trilha sonora com apelo oitentista.

Não é uma maravilha da sétima arte, mas valeria o ingresso pra ver no cinema.

Recomendado.
Valeu!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Livro: Crônicas do Mundo Emerso 1 - A Garota da Terra do Vento

A Fantasia é um gênero literário que após um período de baixa voltou com força total no final dos anos 1990 com o sucesso de livros como Harry Potter e versões em filme de O Senhor dos Anéis

Desde então surgem a cada dia novos autores que almejam alcançar apenas metade do sucesso de J.K. Rowling e J.R.R. Tolkien

E com essa verdadeira avalanche de novos títulos, trilogias e infindáveis séries nas livrarias, até agora pouquíssimos conseguiram. Principalmente devido a qualidade extremamente duvidosa desses novos textos.
 
Não é o caso da italiana Licia Troisi, formada em Astrofísica, que publicou em 2004 o primeiro dos livros da trilogia Crônicas do Mundo Emerso - A garota da Terra do Vento (320págs.) lançado pela Editora Rocco em 2006 aqui no Brasil. 

Nihal é uma menina de 12 anos que quer ser uma guerreira. Sempre se destacou pela força e resistência, sem falar nos cabelos azuis, orelhas pontudas e olhos cor de violeta. Morando na cidade-torre de Salazar, uma das maiores da Terra do Vento, ela foi criada desde bebê pelo ferreiro Livon, mestre em confecção de armas e veterano de muitas batalhas. 

O que ela não imagina é que é a última semi-elfa viva no Mundo Emerso (um continente com nove terras habitadas), e seu desejo de lutar vai levá-la a conhecer magos e ninfas, cavalgar com cavaleiros-dragão, viajar pra terras distantes, descobrir suas origens e perder entes-queridos. Tudo isso antes de conseguir, com muito custo, ser treinada como guerreira e vislumbrar o mal que a guerra faz. 

Guerra essa movida pelo misterioso Tirano, que ao conquistar a Grande Terra (o território central do continente) com seu exército alguns anos atrás, se move sistemática e violentamente por outras terras destruindo e matando tudo que se opõe a ele.

Mapa original da autora
Com uma construção de mundo digna de um Tolkien (com direito a mapa do continente e tudo), a autora se inspira no mestre em vários momentos pra redigir sua trama. Não dá pra ler sobre o Tirano e não lembrar de Sauron, por exemplo. 

Mas ela acaba se distanciando do autor de Senhor dos Anéis ao não dar tanta ênfase a descrições (extremamente) detalhadas de ambientes e focar mais na ação.

Isso acaba sendo um ponto bastante positivo, pois dinamiza a narrativa que pode ser assimilada rapidamente sem perda de entendimento ou esquecimento de nomes de pessoas ou lugares da história.

E mesmo com uma trama um pouco batida, em que seis anos se passam do início ao fim do primeiro volume, a autora consegue inovar principalmente ao trazer uma personagem feminina como centro da narrativa.

Nihal foi criada por um homem e sempre viveu no meio masculino, criando uma espécie de defesa psicológica desenvolvendo jeito, sonhos e irascibilidade de menino, mas conforme cresce vai descobrindo sua própria fragilidade

Não são raros os momentos em que chora, mas sempre depois de lutar, enfrentar desafios e se provar pros outros e pra si mesma.

Ela termina esse primeiro livro aos 18 anos e, depois de matar muitos Fâmins (uma espécie de ogro ruivo criado pelo Tirano), acaba tendo um vislumbre de sua própria feminilidade.

Essas primeiras Crônicas são compostas de três livros que aparentemente (já que ainda não li outros) fecham a história de Nihal, mas a série é um sucesso tão grande na Itália que Licia Troisi já escreveu mais duas trilogias que se passam nesse mesmo universo enfocando personagens e épocas diferentes.

Outro indicador de seu sucesso são as adaptações em quadrinhos do livro lançadas pela Panini Editora na Itália e o jogo de computador baseado na história de Nihal sendo desenvolvido atualmente. (Mais detalhes em http://www.cronachedelmondoemerso.it/home)

Um belo estudo de personagem inserido numa trama de fundo fantasioso e medieval é o que esperar desse primeiro volume.

Fiquei com muita vontade de ler os próximos.

Recomendado!

Valeu!

Ps.: Pra quem quiser saber mais sobre a série:
Site especial da Rocco pros livros (em português): http://www.mundoemerso.com.br/
Site oficial da autora (em italiano e inglês): http://www.liciatroisi.it/
Blog de fã com quadrinhos e várias informações (em português): http://mundoemersobr.blogspot.com/
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