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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Filme: O Último Mestre do Ar

O novo filme do diretor e roteirista de O Sexto Sentido, Corpo fechado, Sinais, A vila, A Dama na Água e Fim do tempos tinha tudo pra dar certo. Tinha.

Assumindo a tarefa tripla de adaptar, roteirizar e dirigir já posso adiantar que ele errou feio nas duas primeiras, o que comprometeu definitivamente o filme.

O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010) é um  filme do diretor indiano M. Night Shyamalan que condensou 20 episódios do premiado desenho da Nickelodeon Avatar: a Lenda de Aang (do qual já falei aqui) em pouco menos de duas horas.

Num mundo dividido em quatro poderosas nações, existem pessoas que nascem com o dom de manipular um dos elementos da natureza (Ar, Água, Terra ou Fogo). Apenas uma pessoa em todo o mundo consegue dominar os quatro elementos, o Avatar.

Ponte de ligação entre o mundo dos homens e o espiritual, ele também é responsável por manter o equilíbrio entre as nações.

Só que há 100 anos ele desapareceu misteriosamente e hoje a nação do fogo empreende uma guerra pra expandir seus territórios e exterminar qualquer outro tipo de dominador que não seja de fogo.

É quando numa devastada tribo da água do Sul, um casal de irmãos, Sokka (Jackson Rathbone) e Katara (Nicola Peltz), descobrem um menino enterrado no gelo chamado Aang (Noah Ringer).
Logo ele é capturado pelo príncipe banido da nação do fogo Zuko (Dev Patel) e seu tio Iroh (Shaun Toub) que confirmam que ele é o dominador de ar destinado a ser o Avatar desaparecido há muito tempo. Caberá a Sokka e Katara salvá-lo e ajudá-lo estabelecer novamente o equilíbrio entre as nações.

PONTOS POSITIVOS:
  • Produção caprichada. Figurinos impecáveis. Linda fotografia. Bela trilha sonora.
  • Ao contrário das maldições jogadas na época da divulgação da escalação do elenco, todos os atores interpretam seus papéis competentemente, no ritmo que o filme está disposto a mostrar. Destaque para Dev Patel como um príncipe Zuko bem convincente em sua obsessão e tormento.
  • Edição perfeita, principalmente nas cenas de luta. Diferente dos filmes de ação mais recentes não há cortes bruscos nos confrontos, ou seja, você consegue visualizar e entender toda a evolução da cena. Por conta disso, é claro, nota dez também para as coreografias das lutas.

PONTOS NEGATIVOS:
  • O roteiro contém muita informação que foi condensada em pouquíssimo tempo (1h e 43min). Toda fala é importante. Se o espectador piscar, perde alguma coisa. Isso poderia ser resolvido facilmente se o diretor incluísse mais cenas de ligação, de passagem ou mesmo alívios cômicos que mostrassem o cotidiano dos personagens entre as revelações cruciais para a trama. Não é o que acontece.
  • Outro ponto negativo é o tom do filme. Muito sério e grave. Quase não há cenas leves e os personagens pouco sorriem. Pode parecer besteira, mas esse ponto é o que mais afasta o filme da série de tv e dificulta bastante a identificação com o público-fã da mesma e provavelmente afastará o público em geral. O próprio personagem-título Aang, que é bastante simpático e sorridente no desenho animado, só sorri praticamente umas três vezes, sendo uma um meio-sorriso de agradecimento e duas em recordações de seu treino.
Ironia do destino é pensar que um filme que tem o personagem-título buscando alcançar o equilíbrio consiga passar bem longe do mesmo. Falha da Nickelodeon por ter dado total controle da película a um diretor que só faz filmes de suspense, os quais costumam se levar a sério demais.


RESUMINDO

Visto que vem de uma série animada de grande sucesso de público e crítica que trabalha, com uma linguagem leve e sutil, temas importantes como amizade, espiritualismo, honra e até mesmo política, O Último Mestre do Ar é um filme que tinha tudo pra dar certo, mas naufraga horrivelmente ao tentar se levar muito a sério e se distanciar demais do desenho animado.

CONCLUSÃO

Melhor assistir o desenho animado.

Valeu!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Filme: Toy Story 3

A Pixar Animation conseguiu de novo.
Conseguiu encher salas de cinema de lágrimas e risadas na mesma medida.
Conseguiu também fechar com absoluto sucesso uma trilogia iniciada 15 anos atrás com seu primeiro filme em computação gráfica.

Isso mesmo, um dos melhores filmes de 2010 (até agora) é um desenho animado em computação gráfica.

Vá preparando seu lencinho e seu diafragma. Diversão e emoção garantida é o que esperar de Toy Story 3 (2010) que estreou esse mês nos cinemas do Brasil.

O garoto Andy (John Morris), dono dos brinquedos mais famosos do mundo, está com 17 anos e se prepara pra sair de casa e ir para a faculdade.
Decide guardar seus brinquedos no sótão, mas num engano de sua mãe, os brinquedos são jogados fora e vão parar na creche Sunnyside.
Caberá ao caubói de brinquedo Woody (Tom Hanks),  trazer o astronauta Buzz Lightyear (Tim Allen) e seus amigos de volta.

Como já é de praxe da Pixar, o roteiro aposta numa estrutura geral bastante simples, mas que surpreende na complexidade das situações evocadas em piadas, diálogos e cenas para emocionar. Com direito a interessar vários níveis de maturidade, desde os mais pequenos até os mais velhos.

Tudo muito bem pensado por toda a equipe de produção. Apesar do filme ser creditado com apenas quatro roteiristas: Michael Arndt, John Lasseter, Andrew Stanton e o diretor do filme Lee Unkrich.

Se você não viu ou não lembra dos filmes anteriores não tem problema. A abertura do filme diz tudo que você precisa saber sobre os brinquedos e seu dono, inclusive numa bela seqüência que mostra o crescimento do menino Andy registrado pela lente amadora da câmera de sua própria mãe. 

Bela maneira de apresentar os personagens e um prato cheio para criar identificação logo de cara com todos que tiveram uma infância imaginativa com brinquedos ou mesmo mães que registraram seus filhos crescendo.

A produção mostra um grande domínio da narrativa visual conseguindo com cortes rápidos, mudança de ângulos de câmera e trilha sonora incisiva, fazer a transição do clima infantil do filme para um episódio de terror e, posteriormente, para um drama de cadeia com os brinquedos como presidiários (com direito a cena com gaita e tudo).

Sobram também referências a cultura pop, como, por exemplo, o encontro da Barbie (Jodie Benson) com o Ken (Michael Keaton), além de um questionamento bem sutil sobre a sexualidade do boneco.

Poderia citar muitas sequências engraçadas ou emocionantes, mas não teria espaço nesse resenha para tanto e acabaria por estragar a surpresa pra quem pretende assistir o filme. 

Por causa disso destacarei apenas a engraçadíssima sequência de transformação do Sr. Cabeça de Batata (Don Rickles), onde ele finalmente mostra todo o seu potencial, na metade final da película.

Parte técnica e fotografias admiráveis, investindo em cores vibrantes e um belíssimo jogo de luzes, mostrando o esmero da produção. 

Há quem diga que o filme não evoluiu tecnicamente, mas isso é devido a escolha (muito bem) acertada dos produtores que, mesmo com toda a evolução de tecnologia de 15 anos pra cá, preferiram não mexer no desenho dos personagens mantendo assim um estilo próprio que dá identidade e torna homogênea a imagem dos três filmes.

A evolução da técnica é percebível sim, mas nos detalhes como cenários, luz, figurinos e cabelos, por exemplo. Todos trabalhados com técnicas bem modernas. Algumas desenvolvidas na própria Pixar.

A música composta por Randy Newman, que fez os três filmes, é um detalhe a parte. Com uma trilha instrumental orquestrada quase o tempo todo que acompanha e maximiza ações físicas e emoções dos personagens, lembrando desenhos clássicos da própria Disney e outros, como Tom e Jerry.

Um lindo filme que traz de volta personagens muito queridos e, disfarçado de história infantil, consegue abordar temas complexos como abandono, amadurecimento, amizade e desapego.


Difícil não se emocionar. Frases clichês como “Um filme pra toda a família que encantará crianças de todas as idades”, tem toda a razão de ser nesse filme.

Maldade da Pixar nos provocar tantas emoções em apenas uma hora e meia.

Mais um filme de sucesso para a lista deles que, como andam dizendo por aí, ainda não conseguiram fazer filme ruim. 

Recomendadíssimo!

Valeu!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Filme: Os Homens que Encaravam Cabras

Os Homens que Encaravam Cabras (The Men Who Stare at Goats, 2010) é o filme que adapta o livro de Jon Ronson (que já comentei aqui) para o cinema.

Apesar de levar o mesmo nome do livro, a produção e direção de Grant Heslov faz questão de frisar nos créditos que é apenas inspirado no livro.

Isso fica claro, pra quem leu o livro, por causa da criação de uma trama de ficção que leva ao Iraque pós-guerra onde houve mudança dos nomes ds envolvidos e criação de alguns personagens.

Bob Wilton (Ewan McGregor) é um jornalista americano de cidade de interior que nunca fez grandes reportagens e acaba de ser deixado pela mulher. Num ímpeto, decide ir ao Iraque logo após a captura de Saddam Hussein para provar que pode fazer grandes reportagens. Lá ele encontra Lyn Cassidy (George Clooney), um empreiteiro que havia sido citado por um de seus entrevistados recentes como um ex-soldado paranormal extremamente poderoso.
Acompanha Lyn em suas andanças pelo Iraque e ouve suas histórias sobre como ele foi treinado em seus poderes pelo exército americano no início dos anos 1980 e sobre o misterioso Laboratório de Cabras.

As lembranças de Lyn são contadas em paralelo a trama principal que se passa em 2003 e envolve as confusões que ele e Bob se metem na reconstrução de um país pós-guerra.

O roteiro, escrito por Peter Straughan, consegue ser fiel na adaptação do livro (que consiste só de histórias reais) principalmente nas lembranças de Lyn, ao mostrar a origem da unidade secreta motivada pelo manual de Jim Channon, que no filme recebeu o nome de Bill Django (interpretado por Jeff Bridges), após suas experiências no Vietnã.

Ainda faz boas referências a reconstrução do Iraque com críticas disfarçadas de episódios trágicômicos inspirados em histórias reais contadas por correspondentes de guerra. 

Uma delas é sequência de tiroteio entre mercenários e seguranças contratados que ocorre por engano num posto de gasolina numa cidade iraquiana. Coisas do pós-guerra.

A história, apesar do tom de comédia inspirado no livro original, consegue, da mesma forma que o original, passar realismo. Principalmente ao exibir personagens confiantes demais em suas próprias habilidades que acabam se tornando trágicos por viver num mundo em que essas habilidades não funcionam muito bem.

George Clooney mostra que não perdeu o tom de comédia impressionando com suas múltiplas expressões e olhar vidrado de alguém que todos considerariam louco. Ótimo ator.

Ewan McGregor faz o papel do jornalista (que também narra a história) e é claramente baseado no escritor Jon Ronson. Apesar de não ser empolgante, como o personagem de Clooney, faz um bom contraponto a ele não sendo caricato demais.

Também há as participações de Jeff Bridges e Kevin Spacey, ambos irretocáveis como, respectivamente, mentor e rival de Clooney nas memórias de seu personagem e cuja presença no fim do filme acaba sendo uma grata surpresa.

O diretor Grant Heslov, amigo de George Clooney e mais conhecido por atuar em papéis coadjuvantes no cinema e na TV, não decepciona como diretor, mostrando firmeza ao estabelecer o tom do filme, sabendo posicionar a câmera e acertando muito bem o tempo das piadas com planos e contra-planos reveladores.

Ótimo também foi o trabalho da produção ao transformar as locações no Novo México em cidades e desertos iraquianos com competência o suficiente para serem aproveitados nos belos planos abertos escolhidos pelo diretor de fotografia. Lindas paisagens desérticas.

Sem falar na trilha sonora bem sugestiva e empolgante que surpreende e faz rir em vários momentos.

Se for obrigado a citar algo decepcionante diria que na telona a comédia enfraquece a denúncia feita no livro original. Mesmo que no início do filme a frase “Há mais verdade nisso do que você acreditaria”, venha estampada em destaque soando quase como um mea culpa do diretor ao fim da película.

Um bom filme com um elenco bem talentoso (três ganhadores de OSCAR) que não decepciona e diverte bastante. 

Pena que, mesmo com um elenco estelar, foi subestimado nas estréias dos cinemas no Brasil, sendo assistido por pouquíssimas pessoas. Uma mostra de como um filme pode ser prejudicado se não houver divulgação. E esse vale a pena ser conferido.

Recomendado.

Valeu!

terça-feira, 15 de junho de 2010

Filme: Kick-Ass - Quebrando Tudo

Todo leitor de quadrinhos já pensou em ser um super-herói.

Bom, talvez isso não se limite só aos leitores de quadrinhos. Provavelmente todas as pessoas já pensaram em ser super-heróis, isso num momento bem específico de suas vidas, claro.

Momento esse que geralmente acaba antes dos 10 anos de idade. Não é o caso dos personagens do divertidíssimo Kick-Ass – Quebrando Tudo (2010), que estréia nessa sexta-feira, 18 de junho, nos cinemas do Brasil.

Dirigido por Matthew Vaughn, o mesmo diretor de Stardust (que já comentei aqui), o filme é um ótimo apanhado de referências a filmes de super-heróis, sobrando ainda seqüências que homenageiam filmes de samurai e jogos de videogame.


Dave Lizewski (Aaron Johnson) é um típico nerd de 16 anos e ávido leitor de quadrinhos que, cansado de ser assaltado na volta da escola pra casa, decide fazer alguma coisa montando um uniforme e saindo pra combater o crime com o nome de Kick-Ass.
Acaba virando sensação ao lutar com alguns marginais e ter sua performance (completamente atrapalhada), filmada e jogada na Internet.
É então que a dupla Big Daddy (Nicolas Cage) e Hit Girl (Chloe Moretz) se inspiram nele e começam a matar mafiosos vestidos de super-heróis. E a culpa cai toda no pobre Kick-Ass.

Roteirizado pelo próprio Matthew Vaughn, com o auxílio de Jane Goldman, o filme é baseado numa idéia e argumento do escritor de quadrinhos Mark Millar, que também a adaptou para uma HQ que foi a sensação dos quadrinhos americanos em 2008, e que deve chegar esse mês as bancas brasileiras.

É a própria Jornada do Herói de Joseph Campbell adaptada a uma linguagem atual com narrações em off do personagem principal.

Que por sinal é muito bem desenvolvido pelo roteiro, assumindo um formato totalmente verossímil, ou seja, você acredita que poderia fazer o que ele faz.

Principalmente pelo fato da produção não poupar sangue e maquiagem pra ilustrar os ferimentos que ele sofre e as porradas que toma.

Apesar do final ser feliz, o filme faz questão de mostrar a realidade a que uma atitude louca como a de Dave pode levar, ou seja, não se pode ignorar uma cara quebrada (ou pior) de vez em quando.

Aaron Johson está muito bem caracterizado como Kick-Ass, um nerd que decide virar super-herói, e sua voz fina é um perfeito e engraçadíssimo contraponto às decisões loucas que toma.

Christopher Mintz-Plasse (o famoso McLovin do filme Superbad), também é um dos destaques do filme, demonstrando talento na passagem de filho-do-chefão-da-máfia-que-só-quer-ser-notado-pelo-pai a falso amigo do herói.

A participação de Nicolas Cage é pequena, mas muito marcante e bem executada, principalmente pelo fato dele não fazer as caras e bocas que costuma fazer em seus filmes. Sua imitação/homenagem a Adam West (o Batman do seriado dos anos 1960) quando coloca o uniforme é impagável. Dá até pra achar que ele ainda pode fazer bons papéis.

Mas a melhor mesmo ainda é Chloe Moretz, a lindinha da Hit Girl, numa personagem divertidíssima (ainda que fuja do realismo do filme) dona das melhores cenas de ação e das melhores falas.
Uma estrela em ascensão desde 500 dias com ela (do qual já falei aqui).
E olha que ela só tem 13 anos.

Copiando a estética de filmes e desenhos japoneses, o filme abusa da violência estilizada, mostrada em cores fortes e vibrantes em cenas recheadas de cortes rápidos como só os melhores filmes de ação podem proporcionar.

Destaque para a sequência da (tentativa) do pulo entre prédios (que remete ao filme do Homem-Aranha) e para o flashback do passado de Big Daddy e Hit Girl feita encima da renderização dos desenhos de John Romita Jr. , um dos melhores desenhistas da Marvel Comics, feitos para a HQ original.

E ainda tem uma seqüência inteira de homenagem a jogos de videogame de tiro. É quando a Hit Girl precisa resgatar seu pai e vemos parte do resgate pela visão dela só com a mãozinha na frente apertando o gatilho contra os mafiosos. Bem legal.

A trilha original é clássica e empolgante com passagens que lembram filmes como Homem-Aranha e Superman. E a trilha sonora ainda tem músicas impactantes e conhecidas tocadas em momentos de ação. Perfeitas pra empolgar o espectador.

Uma película que não custou nem 30 milhões de dólares (que levou dinheiro do próprio Matthew Vaugn), mas que proporciona diversão garantida pra fazer frente a filmes de mais de 100 milhões de dólares como Homem-Aranha e Batman

No geral um filme bem divertido, apesar de um pouco violento, mas que pode empolgar tanto adolescentes quanto adultos.

Recomendado!

Valeu!

domingo, 30 de maio de 2010

Livro: Os Homens que Encaravam Cabras

O Jornalismo Literário ou Novo Jornalismo é um termo cunhado nos anos 1960 para o jeito de narrar histórias verdadeiras com toda a liberdade criativa de um livro de ficção, com direito a diálogos e tudo. 

O escritor e documentarista inglês Jon Ronson é adepto desse estilo no livro Os Homens que encaravam Cabras (302págs, 2010) que a editora Record lançou no Brasil em Abril desse ano por conta do filme com George Clooney, que teve uma estréia bastante tímida por aqui.

O título chamativo e aparentemente sem sentido é o espelho da prosa irônica de Ronson ao contar a história do famoso Laboratório de Cabras do exército americano.

O laboratório de cabras é um lugar oficialmente reservado ao treino de médicos do exército na extração de balas e tratamento de outras injúrias que poderiam ser sofridas por soldados nos campos de batalha. De acordo com Ronson a primeira versão do laboratório era compreendido por cachorros, mas os soldados tinham muita pena de atirar nas patas dos bichos para os médicos tratarem. Com as cabras, por alguma razão, esse problema foi resolvido.

O problema é que as cabras não foram usadas exclusivamente para esses fins. As pesquisas de Ronson revelam que numa determinada ocasião um homem, só de olhar, chegou a parar o coração de uma cabra.

É em busca desse homem que ele parte no início do livro e suas fontes (todas elas devidamente identificadas) acabam apontando que o exército tinha outras metas tão estranhas quanto parar um coração só com o olhar. 

Coisas como levitação, atravessar paredes, projeção astral, telepatia, visão remota, sons hipnóticos, invisibilidade e controle mental já fizeram parte da pauta do exército americano no início dos anos 1980. E alguns dizem que ainda fazem.

Tudo isso por causa do tenente-coronel Jim Channon que escreveu em 1978 o manual do Primeiro Batalhão da Terra em que descreve como deveria ser o soldado perfeito.

Jim sobrevive a um episódio desastroso na Guerra do Vietnã e apresenta a seus superiores sua idéia de pesquisar novas técnicas para aprimorar os soldados. O exército concorda e, incrivelmente, financia sua viagem a países do extremo Oriente e sua estadia em comunidades hippies norte-americanas. 

Voltando pra casa revigorado, ele apresenta seu manual, que é tido com extrema desconfiança, mas é resgatado pelo major-general Albert Stubblebine III, que vê ali a única saída para o desânimo que parecia corroer o exército americano após o fracasso do país no Vietnã.

Stubblebine é o personagem principal do engraçadíssimo episódio narrado na abertura do livro.

Jon Ronson vai além e acaba descobrindo e expondo toda uma rede de iniciativas tomadas pelo exército desde então. A espuma paralisante e a tortura com drogas ou músicas de um certo dinossauro roxo tocadas continuamente, por exemplo, são algumas das ações que foram grandemente alardeadas em 2002 pela mídia mundial na Guerra do Iraque e podem ter partido de uma deturpação das idéias do manual de Jim Channon.

O autor se insere na história atrás da verdade sobre os experimentos paranormais do governo dos EUA indo atrás de tipos muito estranhos que podem ter sido empregados pelo exército. 

Tem entrevista até com o famoso paranormal Uri Geller, que nos anos 70 vivia aparecendo na televisão entortando e quebrando garfos e colheres de metal com apenas dois dedos.

Segundo Ronson, Geller chegou a dar várias entrevistas nos anos 1980 se dizendo espião do exército e atualmente (em 2003) se dizia reativado, apesar de não querer falar sobre o assunto.

Sobre até pra CIA, pro FBI e pro governo inglês realizarem alguns experimentos em episódios que não ficaram marcados positivamente nas Histórias dos países.

Um livro que começa num tom de comédia baseado em aparentes absurdos que acabam tomando ares assustadoramente reais ao relacionar tortura psicológica, seitas de suicídio em massa e assassinato por queima-de-arquivo com as pesquisas de governos na modalidade de guerra para o século XXI, a guerra psicológica.

Grande trabalho jornalístico e literário de Jon Ronson numa prosa leve e direta que ainda inclui no miolo meia dúzia de fotos de personagens reais de algumas das histórias e uma extensa bibliografia comentada pelo próprio autor para embasar os episódios sobre o qual discorre.

Um bom exemplo de como até mesmo instituições rígidas e aparentemente inquestionáveis como o Exército Americano não estão livres da estupidez humana. Basta ter algum ser humano (e talvez cabras) no meio pra isso.

Recomendado!

Valeu!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Filme: Quincas Berro Dágua (2010)

O filme que chega aos cinemas agora em 2010, Quincas Berro Dágua, tem o roteiro escrito pelo diretor Sérgio Machado, que faz uma ótima adaptação, apesar não tão fiel, do texto do livro. 

Quincas (Paulo José) amanhece morto na manhã de seu aniversário. Todos os seus amigos o esperavam com uma festa surpresa na noite anterior, a qual ele não compareceu. Sua filha Vanda (Mariana Ximenes), que não o via há dez anos, é comunicada de sua morte e tenta com a ajuda dos tios e do marido Leonardo (Wladimir Brichita), dar ao pai um enterro decente. O problema é que seus atuais amigos, que estão no grupo das putas, cachaceiros e vagabundos, parecem ter seus próprios planos pra última noite com o cadáver.

O filme tenta expandir o universo do romance, dando mais importância a alguns personagens e muito mais ênfase ao lado humorístico da história.

Em especial esticando, por assim dizer, a última noite de Quincas, acrescentando três ou quatro novas situações vividas pelo quarteto (que com Quincas vira quinteto) de vagabundos que poderiam muito bem ter saído da cabeça do próprio Jorge Amado, autor da história original (da qual já falei aqui).

Até consegue no lado humorístico, com passagens, piadas e chistes simples, inteligentes e bem estruturados no quarteto de vagabundos, que me lembraram os bons tempos de Os trapalhões.

Mas não se sai muito bem ao criar personagens que não pertenciam a narrativa original como a dona de cabaré Manuela (Marieta Severo), amor de Quincas na sua vida de esbórnia, cuja relação com o vagabundo fica pouco verossímil por não ser bem desenvolvida pelo roteiro. 

Até mesmo a filha Vanda tem a participação bastante esticada no filme, com direito a um arco narrativo independente que fica meio difícil de engolir.

Personagens provavelmente motivados pela fama das atrizes, que mesmo pouco exploradas pelo roteiro, interpretaram muito bem seus papéis, com destaque a Mariana Ximenes que mescla muito bem as emoções de seriedade, tristeza e nostalgia que a personagem sente pelo pai.

Paulo José interpreta um Quincas leve e gozador que, apesar de limitado pela condição de defunto, aproveita muito da narração cínica que faz do além pra traduzir as expressões de seu corpo ao espectador. É difícil, e ao mesmo tempo emocionante, ver um ator da idade e condição dele em toda essa atividade.

Mas a alma do filme é mesmo o quarteto de vagabundos que roubam o defunto, formado por Pastinha (Flávio Bauraqui), Pé-de-vento (Luis Miranda), Curió (Frank Menezes) e cabo Martim (Irandhir Santos) que passam a sensação de estarem totalmente a vontade, apesar de compenetrados, em seus papéis.

De parabéns estão o diretor Sérgio Machado e a preparadora de elenco Fátima Toledo, que já trabalhou em filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite, por conseguirem extrair dos atores emoções verdadeiras e condizentes em todas as cenas.

Em especial ao elenco de apoio, quase todo formado por atores baianos pouco conhecidos, muitos deles provindos do Bando de Teatro Olodum e da série de TV Ó Paí, ó.

A direção de arte foi muito feliz na ambientação do filme ao manter o caráter atemporal da narrativa original, inclusive com os figurinos dos personagens bem caracterizados para se passar em qualquer lugar da Bahia, dos anos 60 ao início do século XXI.

A câmera firme de Sérgio Machado e do diretor de fotografia Toca Seabra, apesar de pouco inventiva, não decepciona ao explorar ambientes, mas prefere destacar as ótimas performances dos atores.

Filmado em locações em toda a cidade de Salvador, com muitas delas no próprio Pelourinho, é um filme que agrada visualmente.

Grande comédia nacional bem adaptada do texto de Jorge Amado, que se baseia em situações absurdas, mas muito bem desenvolvidas, e numa ótima química de todos os atores, em especial do quarteto principal.

Mais uma prova que, nesse ano de 2010, o cinema nacional já se mostra vindo a toda pra competir de igual para igual com os estrangeiros.

Recomendado!

Valeu!

Livro: A morte e a morte de Quincas Berro Dágua

Dizem que Quincas Berro Dágua, o “pai dos vagabundos”, foi um homem que morreu três vezes na Bahia de todos os santos. 

Sua primeira morte foi moral, quando abandonou a família após sua aposentadoria de respeitável funcionário público pra viver entre putas, bêbados, jogadores, capoeiristas e vagabundos. Sua segunda morte se dá quando amanhece morto num quartinho imundo depois de dez anos longe da família original. A terceira morte se dá após o seu velório, quando quatro de seus companheiros vagabundos roubam o cadáver com o objetivo de lhe dar uma última noite de festa pelos becos da capital baiana. 

O que aconteceu antes, durante e depois dessas mortes só Jorge Amado (1912-2001) pôde contar.

E contou magnificamente na obra A morte e a morte de Quincas Berro D´água que começou a ser publicada em capítulos a partir de 1959 na revista Senhor, e que em 1961, foram reunidos em formato de livro.

O “cachaceiro-mor de Salvador”, o “filósofo esfarrapado da Rampa do mercado”, o “senador da gafieiras”, Quincas Berro Dágua, o “vagabundo por excelência” eis como o tratavam os jornais, onde por vezes sua sórdida fotografia era estampada.

Um romance de mais de 50 anos de publicação que trabalha com valores extremamente atuais. Uma crítica a alta sociedade baiana na prosa informal, perspicaz e cínica de Jorge Amado feita de forma leve e contendo passagens engraçadíssimas.

Nem agora, morto e estirado num caixão, com velas aos pés, vestido de boas roupas, ele se entregava. Ria com a boca e com os olhos, não era de admirar se começasse a assoviar. E, além do mais, um dos polegares – o da mão esquerda – não estava devidamente cruzado sobre o outro, elevava-se no ar, anárquico e debochativo.
– Jararacas! – disse de novo, e assoviou gaiatamente.

Jorge Amado narra como observador, mas, pegando carona nas Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, pontua o texto com algumas pequenas intromissões de Quincas trabalhando o realismo fantástico e o humor de algumas obras posteriores.


– Está um senhor – gabou o Negro Pastinha. – Um defunto porreta!
Quincas sorriu com o elogio, o negro retribuiu-lhe o sorriso:
– Paizinho... – disse comovido e cutucou-lhe as costelas com o dedo, como costumava fazer ao ouvir uma boa piada de Quincas.

Um livro curto (120 páginas) e bem rápido de ler que se destaca pela leveza com que faz as críticas sociais e morais, pelos personagens muito bem caracterizados (especialidade de Jorge Amado), e pelo humor que só a informalidade e baianidade de seus textos podem promover.

Como fora então morrer de repente num quarto na ladeira do Tabuão? Era coisa de não se acreditar, os mestres de saveiro escutavam a notícia sem conceder-lhe completo crédito. Quincas Berro Dágua era dado a mistificações, mais de uma vez embrulhara meio mundo.

Eleito em 2006, o melhor romance do autor numa enquete feita entre escritores e editores por uma revista especializada, o livro ainda teve uma nova edição lançada em 2008 pela editora Companhia das Letras. 

Essa edição vem acompanhada de ilustrações, fotos e um posfácio de Affonso Romano de Sant´Anna que conta a história de cabo Plutarco, o homem que teria sido a inspiração pra Jorge Amado escrever a história de Quincas.

Recomendadíssimo!

Valeu!
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