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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Livro: O Primeiro Relato da Queda de um Demônio

O Primeiro Relato da Queda de um Demônio (devir editora, 234págs, 2004) é o livro de estréia da escritora brasileira Marcela Godoy que trata de um triângulo amoroso entre uma humana e dois conhecidos seres sobrenaturais: um vampiro e um lobo.

Por que se diferencia de outros romances do gênero?

Porque Marcela, que também é roteirista de HQs e professora de roteiro na Quanta Academia de Artes, trabalha esse triângulo amoroso de forma bastante orgânica e incidental, apresentando episódios históricos da inquisição espanhola com uma incrível clareza de detalhes, abordando a origem quase bíblica dessas duas raças fantásticas e discutindo a essência do amor e do que nos faz humanos de forma poética e filosófica. 

Azael é o demônio-lobo albino guardião de Lucien, um vampiro rico, bem apessoado e recluso que vive na cidade espanhola de Ávila.

Num baile comemorativo na noite da assinatura do Tratado de Tordesilhas em 1494, eles conhecem a bela Miriam, cortesã preferida de Glauco, um arcebispo e poderoso inquisidor espanhol.

A atração de Lucien por ela é imediata e entre encontros furtivos e cartas secretas de amor, ele e Azael terão que livrá-la do maldoso Glauco para garantir-lhe a felicidade.

O que Lucien, e o próprio Azael, não contavam é que a curiosidade do lobo pela jovem se transformará em um sentimento puro e maior do que ele e sua missão como guardião serão capazes de suportar.

A história é narrada por Azael (já transformado em humano) à própria Morte, que deve julgar o pedido do demônio-lobo que o leve para o além junto com a mulher que carrega nos braços.

Nesse pano de fundo anunciado de romance trágico, autora Marcela Godoy integra conceitos de filosofia platônica, hindu e até mesmo teosófica como base do aprendizado e discussão do demônio-lobo em busca de sua própria humanidade. 

Por exemplo, Os Sete Princípios do Homem, que rondam Azael depois que ele descobre seu sentimento por Miriam, são bases da Teosofia, uma doutrina que envolve conhecimentos filosóficos, científicos e esotéricos de diversas épocas e lugares do mundo divulgados pela ucraniana Helena Blavatsky no fim do século XIX.

O romance também pende para o lado filosófico da física quântica, principalmente pela máxima dita por Azael do "Tempo dotado de vontade" (que é repetida algumas vezes durante a trama) e que guiaria a vida daqueles que não tem força de vontade o suficiente para tomar as rédeas da própria vida.

Marcela ainda surpreende por inserir na narrativa referências ao Sandman de Neil Gaiman (na figura de Onírus, o deus-dos-sonhos) e ao jogo de RPG Vampiro: a Máscara, sucesso no mundo todo no início dos anos 1990.

Na mitologia do jogo, que é reconstruída e ampliada no livro, o primeiro dos vampiros foi Caim, amaldiçoado e marcado eternamente por Deus após matar seu irmão Abel por inveja.

Na trama do livro, logo depois disso, Caim faz um pacto com o anjo caído Lúcifer, que resulta na criação de Seth, o primeiro demônio a caminhar sobre a Terra na forma de lobo. O primeiro Guardião do Mito do Homem.

Dessa forma, a autora estabelece uma genealogia para a origem de Azael, que é mostrado não com a estética ocidental de “demônio = maldade” e sim com a idéia de que demônios são seres vazios, criados para servir de forma cega, sem aspirações ou desejos pessoais. 

É claro que, a partir de um determinado ponto, Azael não consegue mais afastar a curiosidade que tem pelo sentimento que seu mestre Lucien cultiva pela humana e nem sua própria fascinação pela mesma.

É aí que acontece sua primeira transformação em homem, prenunciada desde o início pelo medalhão que carrega no pescoço, e é o significado da “Queda” alardeada no título da obra.

Publicada um ano antes da famosa série Crepúsculo de Stephenie Meyer, o livro não é recomendado para crianças e nem pessoas de cabeça fraca pela complexidade dos conceitos já abordados acima e também por conter várias cenas de sexo (algumas até não-convencionais).

É claro que os fãs de fantasia gótica poderão apreciar sem moderação, inclusive com as belas e impactantes ilustrações de Marcelo Campos que acompanham a trama.

A história é fechada, mas existe gancho para continuações e é inevitável o gostinho de "quero-mais" deixado pela construção narrativa ao final da leitura. 

A autora, inclusive já começou a publicar os primeiros capítulos da sequência (intitulada "O Mensageiro de Ararat") em seu blog: http://oblogdamarcelagodoy.blogspot.com/2010/04/1-ultrapassam-em-barbarismo-tudo-o_23.html

Só nos resta esperar que a continuação das aventuras de Azael cheguem logo.

Muito recomendado.

Valeu!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Filme: Cilada.com

Quem vai ao cinema esperando ver um ótimo seriado de TV na tela grande pode ir tirando o cavalinho da chuva. 

Cilada.com (2011), filme nacional dirigido por José Alvarenga Jr. (diretor de Os Normais 1 e 2), passa longe do divertido, inteligente, metalingüístico e até um pouco trash seriado criado e estrelado por Bruno Mazzeo para o canal a cabo Multishow.

O que mais impressiona é que a culpa por isso não pode ser atribuída apenas ao diretor visto que Mazzeo também estrela e divide com Rosana Ferrão o crédito pelo roteiro do filme.

Bruno (Bruno Mazzeo) é exposto traindo a namorada Fernanda (Fernanda Paes Leme) numa festa de casamento e ela, pra se vingar, coloca na internet um vídeo de uma transa em que ele terminou muito rápido. 

A princípio ele tenta refutar o vídeo através de depoimentos de ex-namoradas, depois tenta gravar outro vídeo com uma transa mais longa para só então se dar conta que deve voltar pra namorada.

O roteiro é uma coleção de cenas e piadas até divertidas, mas falha em dois quesitos primordiais: consistência narrativa e identificação do público com o personagem.

Os autores do filme declaram (Mazzeo mesmo disse em várias entrevistas) que se trata de uma comédia ROMÂNTICA, mas fica difícil de crer nisso quando, em determinado ponto do filme, tudo leva a crer que os problemas do personagem serão resolvidos quando ele conseguir dizer “eu te amo”, algo que ele nunca disse a namorada em dois anos de relacionamento.

Outra coisa que atrapalha o romantismo do filme é o fato do roteiro fazer questão de frisar, através de algumas lembranças do personagem (a do acampamento e do cinema), o quanto Fernanda é uma boa namorada pra ele, mas não nos convence em nenhum momento que Bruno é um bom namorado pra ela.

Nem mesmo o comprovado carisma do ator nos fazem torcer pelo personagem visto que depois do vídeo ele tenta se vingar da namorada pegando algumas mulheres (e sem querer um travesti) e só após ter falhado nessas tentativas, com pouquíssimas demonstrações de arrependimento, é que decide falar as palavrinhas mágicas e tentar voltar pra ela.

Num outro tipo de análise, a relação entre os dois estaria mais pra uma co-dependência afetiva. Algo mais doentio num sentido psicológico do que explicitamente romântico.

No quesito comédia o filme é até bom (considerando que o humor é só metade da narrativa).

O destaque aí vai pros personagens que rodeiam o protagonista como o vidente (Luis Miranda) e o cineasta Marconha (Serjão Loroza) que roubam as cenas em que aparecem.

Fúlvio Stefanini também está muito bem caracterizado como chefe de Bruno e sua atuação na sequência em que conversa com a filha por telefone provoca gargalhadas na platéia.

É uma pena que a subtrama em que Stefanini aparecia (mais um exemplo da falta de consistência do roteiro) não tem um fechamento, sendo esquecida num determinado ponto do filme.

Há sim boas idéias que confirmam o talento de Mazzeo pra escrever comédias (como as já citadas seqüências do vidente, cineasta e do chefe), mas outras (como a escatológica seqüência de grupo de apoio a ejaculação precoce) passariam bem melhor sendo apenas idéias.

No final do filme a sensação que se tem é que a história foi construída com base num piada alongada demais permeada por uma coleção de piadas menores que não se sustentam como narrativa longa e, muito menos, como comédia romântica.

É melhor continuar na TV.

Valeu!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Quadrinhos e Filme: Mundo Fantasma - Ghost World

Geralmente quando se fala em obras envolvendo adolescentes se pensa: sexo, comédia besteirol, aventura sem nexo, drogas e mais sexo. Tudo num estilo leviano e simplista que costuma subestimar a realidade dos jovens.

Exatamente o contrário do que fez Daniel Clowes em Mundo Fantasma - Ghost World (84 pág, 2011), uma das Histórias em Quadrinhos americanas mais premiadas do fim do século XX, que a Gal Editora publicou em abril aqui no Brasil. 

Lançada originalmente em episódios esparsos na revista independente Eightball entre 1993 e 1997 nos EUA, foi compilada num encadernado logo depois, o que bastou para começarem os elogios, prêmios e a citação como novo clássico na revista Time

Enid e Rebecca são duas amigas que, recém-formadas no ensino médio, passeiam pela sua cidadezinha do interior sempre tendo o que falar sobre tudo e todos que encontram pelo caminho. 

Amigas desde pequenas, Enid é a mais reacionária das duas e tem sempre uma história para contar, um estilo diferente de se vestir e um comentário cínico a fazer sobre o que observa. Rebeca é mais contida, romântica que vai sempre nas ondas da amiga. 

Ansiando sempre por algo que as diferencie dos demais, cada uma das duas enfrenta o fim da infância a sua maneira.

Clowes produziu a série num espaço de seis anos, então teve bastante tempo pra planejar cada um dos oito capítulos da história entrando de cabeça em algumas aflições adolescentes como trabalho, sexo, amizade, amor e futuro.

Trabalha essas questões de forma bastante orgânica, lúdica e propositalmente acidental, alternando sempre com situações de humor que revelam o comum exagero e contradições da idade. 

Sobram críticas a programas de TV, estilos musicais, política e sociedade de consumo em geral.

A maior parte dessas críticas vem na voz de Enid, em sua procura por achar um estilo que a defina como adulta, mas sempre revelando ser mais imatura do que se considera.

No primeiro capítulo, por exemplo, Enid é apresentada a contra-gosto a um ex-padre pedófilo por um conhecido que publica uma revista pra juventude neo-nazista e tudo que faz é escutar quase sem reação e dizer alguns palavrões malcriados ao homem.

Tipos estranhos, bizarros e peculiares como esses, que tem toda a possibilidade de existirem de verdade, são freqüentes no álbum.

Os primeiros cinco capítulos tem uma natureza mais episódica, com mais humor e podem ser lidos em qualquer ordem sem prejuízo de entendimento. 

Os três últimos apresentam uma continuidade definida pela imposição do pai de Enid que ela preste vestibular pra uma faculdade bem distante de onde moram.

O vislumbre da possível separação das duas leva a um desenvolvimento melancólico, exaltando bem mais o contraste entre as responsabilidades de adulto e a busca conforto nas lembranças de infância. 

O Mundo Fantasma (Ghost World) do título faz referência a uma misteriosa pixação persistente em vários muros e portões da cidade, mas também pode ser relacionado à única cor além do preto e branco presente no álbum: um fantasmagórico verde-água

Outra possibilidade (mais filosófica) para o título é ressaltar o sentimento infantil de egocentrismo em relação ao mundo, que tornaria as personagens bem mais reais para si mesmas que o etéreo universo onde vivem.


Afinal, que adolescente nunca teve a fase de achar que todos na rua olhavam pra ele?

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A HQ fez tanto sucesso que um filme foi lançado em 2001 com roteiro do próprio Daniel Clowes com colaboração do diretor Terry Zwigoff que, por incrível que pareça, aprofunda muitas das questões desenvolvidas na HQ. 

Em Ghost World - Aprendendo a Viver, o roteiro faz grandes mudanças na trama da HQ e a principal delas é estabelecer uma linha narrativa consistente desde o início (o que não existia nos quadrinhos). Sem falar que alguns personagens mais polêmicos desaparecem e dão origens a outros tão bizarros quanto.

Thora Birch interpreta Enid de forma perfeita em eterno contraste entre postura e idade sempre com o desejo de se reinventar sendo expresso em roupas ou algum comentário pseudo-intelectual na ponta da língua sobre tudo.
Sem falar que está lindíssima.

A deusa Scarlett Johansson é "enfeiada" para viver Rebecca, que é prejudicada pelo roteiro e acaba perdendo um pouco da personalidade que tinha nos quadrinhos.

Steve Buscemi é Seymor, um quarentão amante de jazz e recluso de quem Enid se aproxima como forma de se redimir por ter pregado um trote e por quem acaba se afeiçoando.

A sensibilidade da HQ também está presente no filme e, mesmo com todas as mudanças, dá pra reconhecer a essência da história.

A produção está de parabéns ao aproximar a história da realidade, por exemplo, nos figurinos. Visto que Enid quase sempre repete suas blusas e roupas preferidas, o que é comum na vida real, mas bem difícil de se ver em filmes mais Hollywoodianos.

Produzido e lançado no circuito independente, o filme teve um sucesso bastante aceitável, foi indicado ao OSCAR pelo roteiro e rendeu alguns prêmios de atuação a Steve Buscemi.

Ainda hoje (dez anos depois) é relançado em DVD. Vale a pena procurar.

Uma bela história com um retrato bem fiel, ainda que um pouco verborrágico, do fim da adolescência na década de 1990 é o que esperar de Ghost World, em qualquer uma de suas duas encarnações.

Recomendado.

Valeu!

domingo, 3 de julho de 2011

Livro: Crônica de uma Morte Anunciada

Engraçado como surgem as histórias. 
Imagino que para escrever esta o autor tenha parado um belo dia e pensado: Como tornar interessante uma história em que já se sabe o final desde a primeira linha?

"No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo."

Isso só podia ser obra de Gabriel García Márquez, o escritor colombiano mais premiado de todos os tempos, em Crônica de uma morte anunciada (177pág, 2007), publicada originalmente em 1981 e já na 36º edição brasileira pela editora RECORD

Inaugurador do gênero “realismo fantástico”, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1982 e amigo pessoal de Fidel Castro são alguns epítetos comumente associadas ao autor, que é figurinha fácil em listas de melhores romances do século XX

Seus trabalhos mais conhecidos são Cem anos de solidão (1967) e Amor nos tempos do Cólera (1985), que virou filme em 2007, com participação de Fernanda Montenegro.

Em Crônica de uma morte anunciada, ele conta a história do assassinato do jovem Santiago Nasar, sob vários pontos de vista. 

A palavra crônica se encaixa perfeitamente no título pela preocupação do autor em aproximar a trama de um estilo jornalístico.

O narrador, que logo se revela personagem e testemunha das últimas horas de Santiago, apresenta depoimentos de vários habitantes na pequena vila ribeirinha onde moravam e tenta reconstruir o crime pelo olhar das testemunhas 27 anos depois do ocorrido.

Sabe-se que quem matou foram os irmãos gêmeos Pedro Vicário e Pablo Vicário para vingar a honra da irmã Ângela Vicário, que acusa Santiago Nasar de tê-la desvirginado, como pôde perceber o marido Bayardo San Roman antes de devolvê-la a família na fracassada noite de núpcias.

Gabo (apelido carinhoso do autor), constrói uma verdadeira tapeçaria com os depoimentos colhidos. Ele não se importa, por exemplo, de avançar e retroceder no tempo da narrativa enriquecendo a trama e conquistando o leitor ao ambientar-nos na rotina dos habitantes da pequena vila a margem do rio.

Infográfico feito por uma fã sobre os personagens do livro
O suspense se desenvolve aos poucos com alguns fatos apresentados mais de uma vez, mas sempre com informações novas que ajudam o espectador a montar o contexto em que Santiago foi morto.

A morte anunciada do título se explica pois, no momento do assassinato, quase todos os habitantes da vila já sabiam das intenções dos gêmeos em cometer o crime (eles vinham anunciando isso desde a madrugada anterior), mas ninguém tomou providências mais drásticas para evitá-lo. Cada um com seu motivo, claro.

Em determinado momento do livro (e isso determina a marca de um grande autor), o leitor se vê torcendo por Santiago Nasar, mesmo já sabendo qual será o final da história desde a primeira linha.

O que poucos leitores provavelmente sabem é que García Márquez baseou essa história num assassinato real com diz numa entrevista a revista VEJA em 1980: “...(o livro é) baseado num fato real e escrito de um jeito muito direto, muito rápido. A história é contada logo de saída, pois quis evitar aquele suspense vulgar cheio de armadilhas. Mas todo mundo que leu acabou ficando grudado no livro justamente por isso: acostumado às armadilhas dos livros de suspense, o leitor acaba achando que elas vão aparecer a qualquer momento, e não consegue desgrudar do livro.”

Um livro de poucas páginas, cuja leitura flui bem e pode ser devorado em poucas horas. Uma leitura rápida e ideal para quem quer conhecer o estilo marcante e apaixonante de Gabriel García Márquez.

Recomendado.

Valeu!

Ps.: entrevista completa de Gabo a VEJA: http://veja.abril.com.br/especiais/35_anos/ent_marquez.html

Filme: Se beber, Não Case! Parte II

Fazer uma continuação de um filme de sucesso é algo complicado. Ou você aposta numa abordagem nova com risco de perder público, ou você recicla as situações do primeiro filme e as reapresenta com uma nova roupagem.

Foi a segunda opção que escolheu o diretor Todd Phillips em Se Beber, Não Case! Parte II (The Hangover- part II, 2011), seqüência direta da película de 2009 que surpreendeu arrecadando quase 10 vezes os custos de produção (só nos EUA).

Alan (Zach Galifianakis), Phil (Bradley Cooper)  e Stu (Ed Helms) estão de volta pra mais um casamento. É a vez de Stu, que tentando esquecer as aventuras do primeiro filme, vai casar com uma linda oriental no seu país de origem: Tailândia. Querendo fazer um casamento calmo sem despedidas de solteiro, ele não contava com a intrusão do Sr. Chow (Ken Jeong), que vai fazê-los ter uma noite maluca e perder o irmão da noiva em Bangkok as vésperas do casamento.


O diretor, com a ajuda de Craig Mazin e Scott Armstrong reescreveram e maquiaram o roteiro do primeiro filme nessa continuação.

A estrutura é a mesma do primeiro, inclusive com cenas praticamente repetidas (numa espécie de auto-homenagem do diretor), como a preparação do casamento, a ligação desesperada, o flashback (onde se passa quase toda a trama), a resolução que cai do céu e a corrida para casar.

É claro que algumas situações novas são dignas de serem citadas como o macaco fumante (que substitui o bebê do primeiro filme), a heterogênea paisagem tailandesa, a visão que Alan faz de si mesmo e dos amigos e a queda de Stu por prostitutas (que em Bangkok escondem um segredo a mais).

Destaque positivo de atuação vai pro barbudo Zach Galifianakis, mais engraçado e louco (ainda que inofensivo) como Alan e suas caras de choro irresistíveis.

O destaque negativo vai para Paul Giamatti, que já fez papéis memoráveis em vários filmes, e aqui tem uma participação relâmpago e bem genérica. Devia estar precisando de dinheiro.

Uma seqüência memorável é a que Alan, após meditar no mosteiro budista, tem flashes de memória sobre a noite perdida. A reinterpretação de algumas cenas pela ótica distorcida do personagem é, senão hilária, bem surpreendente.

A lente do diretor explora bem o submundo de Bangkok e exalta de forma interessante os contrastes da cidade através de cenários e paisagens, mas isso acaba provocando uma percepção de falta de crítica social na  história (crítica essa que poderia enriquecer o filme).

A trama não vai ser muita novidade pra quem assistiu o original, mas com certeza o espectador vai sair do cinema com dificuldade de esquecer algumas cenas.

Infelizmente algumas pela morbidez, quase como um acidente de estrada em que você não quer olhar, mas olha assim mesmo e tem pesadelos a noite.

O filme apresenta aspectos interessantes o suficiente pra não te fazer perder dinheiro se for ver no cinema, mas aconselho esperar o dvd.

Valeu!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Livro: A Corrida do Rinoceronte

A função de um livro de ficção é nos livrar de nossos problemas por alguns minutos, horas ou mesmo dias. Um BOM livro de ficção pode até nos ensinar alguma coisa enquanto faz isso. Um ÓTIMO livro de ficção faz tudo isso enquanto nos torna mais conscientes de nós mesmos.

É nessa terceira categoria que dá pra enquadrar A Corrida do Rinoceronte (160págs), primeiro romance publicado pelo contista e novelista brasileiro Roberto de Sousa Causo (cujo último livro foi resenhado por mim aqui).

Editado pela Devir Livraria em 2006, o livro é definido como um romance contemporâneo com elementos fantásticos. 

Eduardo Câmara é um programador brasileiro que vai morar na cidade americana de South River, Califórnia, após ser recrutado por uma grande empresa. 

Sendo estrangeiro e mulato, começa a sentir o preconceito das pessoas da cidade para com ele.

Algo que nunca tinha sentido no Brasil, pois sua pele é clara para um negro.

Não resiste a um desejo de infância e compra um Chevrolet Camaro z/28 1969, vendido barato num posto de gasolina.

Acaba tendo que prestar esclarecimentos na delegacia de polícia, pois o antigo dono do carro participava de corridas ilegais

É quando o Rinoceronte-Negro aparece e ninguém parece vê-lo além de Eduardo. Ele segue o bicho e acaba sendo levado a trilhas secretas entre árvores cortadas ilegalmente.

Por causa de uma vizinha envolvida com o tráfico de drogas, se vê dentro das corridas ilegais e ainda tem que lidar com a insistência de seu chefe para que trabalhe na revisão de um software secreto do governo.

Tudo isso parece estar conectado de alguma forma e Eduardo, forçado pela visão quase-real do rinoceronte, vai ser jogado bem no meio e ser obrigado a tomar alguma providência.

A narrativa de Causo cativa pelas descrições vívidas da vida de um brasileiro no exterior, principalmente ao explorar o preconceito racial americano, bem mais forte que o brasileiro.

Um tema que o autor desenvolve de maneira sutil, porém eloqüente. Fazendo com que o personagem ganhe consciência de suas raízes sem abandonar a linha narrativa. 

Sua construção da trama surpreende pelo desenrolar imprevisível (apesar de bem fundamentado) que se desenvolve de forma gradual com um final inesperado pelo leitor e um clímax digno de um grande filme de ação.

Um ponto interessante é a construção da cidade fictícia de South River, que ganha muita personalidade nas palavras do autor. Seja pelo formato das ruas, pela história da sua fundação e pelas figuras ilustres ou injustiçadas historicamente (com as quais Eduardo se envolve), a cidade é um grande personagem da trama.

A quase-fantasmagórica figura do rinoceronte, que invade a trama logo no início (e faz participações importantes e pontuais) fascina pela construção descritiva, mas acabou se tornando uma decepção para mim, pois apesar de suas intenções serem claras, eu esperava uma explicação definitiva (e talvez sobrenatural)  para sua origem. O quê claramente não foi intenção do autor, talvez por destoar do clima urbano da narrativa.

Causo conta no pósfacio que certa vez teve um sonho com um rinoceronte que ficou na sua memória durante muito tempo e o incluiu na história para exorcizar essa experiência.

A cidade de South River surge na trama, segundo ele, em resposta a um desafio feito a escritores brasileiros para que escrevessem uma história num país diferente, mas com tempero brasileiro.

E ele consegue isso de várias formas. Pela sensualidade contida da policial Jennifer Adams, pelas memórias de infância de Eduardo e pela descoberta de sua identidade racial, justamente o ponto que pode fazer muitos leitores mais conscientes de si mesmo.

Um instigante suspense contemporâneo com subtexto ecológico e racial cheio de street machines dignas do filme Velozes & Furiosos e um rinoceronte mítico é que o esperar desse livro.

Recomendado.

Valeu!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Filme: X-Men - Primeira Classe

Quando a Fox Filmes anunciou que o quinto filme da franquia X-men ia mostrar a juventude dos heróis mutantes muito se especulou sobre seu conteúdo e vários fãs torceram o nariz. 

Quando saíram as primeiras fotos com figurinos toscos parecia que o barco ia mesmo afundar, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário

O diretor Matthew Vaughn, cujos dois últimos filmes foram os ótimos Stardust e Kick-Ass (resenhados por mim aqui e aqui), mostrou que ainda não perdeu a mão quando se trata de ação, heróis e fantasia em X-men : Primeira Classe (X-men: First Class, 2011).

Em plena Guerra Fria, um jovem Charles Xavier (James McAvoy) é recrutado pela CIA (Agência Central de Inteligência) para formar uma equipe e deter um grupo de mutantes liderados por Sebastian Shaw (Kevin Bacon) que planeja começar uma guerra entre os EUA e a URSS. Nesse meio tempo ele faz amizade com o futuro Magneto, Erik Lehnsherr (Michael Fassbender), que quer se vingar de Shaw por ele ter assassinado sua mãe nos idos da 2ª Guerra Mundial.

Começando exatamente após a descoberta dos poderes de Magneto em 1944 (inclusive com a mesma cena do primeiro filme dos X-men reproduzida quadro-a-quadro), esse novo filme já tem o trunfo de remeter diretamente às origens do supergrupo de mutantes tanto nos quadrinhos, quanto no cinema.

Reproduz com sucesso todo o clima dramático do primeiro filme, cujo diretor Bryan Singer aqui vira produtor, e ainda consegue superá-lo nas cenas de ação melhor coreografadas e editadas.

A questão do preconceito e aceitação de uma nova raça volta a baila e é brilhantemente situada nos anos 1960, época de várias conflitos e revoluções ao redor do mundo. A crise dos mísseis em Cuba, por exemplo, ganha uma significação toda especial com a presença dos mutantes no desfecho do filme.

O diretor e os produtores mostraram coragem e ousadia ao escolher um grupo de mutantes quase que totalmente novos para serem utilizados no filme. Apenas três personagens dos filmes anteriores reaparecem em suas versões mais jovens, os já citados Professor X e Magneto, e também a metamorfa Mística (aqui interpretada por Jennifer Lawrence). 

E mesmo com todo o pano de fundo de recrutamento e espionagem ainda sobra tempo pra desenvolver os personagens-chave, através de cenas breves que mostram a descoberta dos poderes de Charles e Eric e, já quando adultos, seus constantes embates filosóficos sobre a posição que deviam ocupar no mundo. Tudo isso enquanto conversam recrutando, treinando os poderes ou jogando xadrez

A jovem Mística (que quase não falava nos filmes anteriores) ganha muitos diálogos, sentimentos conflitantes e um arco próprio que (dividida entre o Professor e Magneto) poderia resumir a linha dramática do filme. 

Todos os três atores desse trio estão muito bem em seus papéis, mas o destaque vai mesmo para Michael Fassbender e o ódio contido do futuro Magneto, nítidos em suas expressões faciais e dureza corporal.

Menção honrosa para a divertida e obstinada Moira MacTaggert de Rose Byrne, pro tímido e reprimido Hank McCoy de Nicholas Hoult (que vira o selvagem Fera) e para o poderoso psicopata alegre Sebastian Shaw, cujo intérprete Kevin Bacon se mostra extremamente a vontade no papel.

Ponto positivo também para as seqüências de ação, extremamente bem coreografadas e editadas, como já disse acima.

No clímax do filme, por exemplo, o diretor consegue dividir a ação em três frentes distintas que se apresentam de forma brilhantemente alternada sem prejuízo de compreensão para o espectador.

Além disso, o diretor mostra que sabe do assunto em várias cenas. Destaque para a seqüência de transformação de Hank McCoy, num belo uso da nervosa câmera subjetiva em que a gente “vê” com os olhos do personagem.

E também ao mostrar ao mesmo tempo, em alguns diálogos-chave do filme, os rostos dos dois personagens envolvidos através do reflexo em superfícies espelhadas sem precisar dividir a tela ao meio, recurso que dilui a experiência de imersão do espectador.

Sem sombra de dúvida o melhor filme da franquia até agora, que se desenvolve belamente se apoiando no clima do primeiro filme e em apenas dois dos personagens mais populares do grupo. 

Apesar disso, Ciclope e Tempestade tem pequenas aparições e Wolverine, novamente interpretado por Hugh Jackman, tem até uma fala, mas nada que interfira na narrativa e provavelmente aconteceu só pra agradar aos fãs mais ardorosos.

Vingança, preconceito, ética, política e ação (muita ação) envolvidos no contexto histórico de incertezas da Guerra Fria é o que esperar desse ÓTIMO filme.

Recomendadíssimo!

Valeu!
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