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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Filme: Professora Sem Classe

Esqueça tudo que você sabe sobre filmes de professores no cinema.

Em Professora Sem Classe (Bad Teacher, 2011) novo filme do diretor Jake Kasdan o que impera é o politicamente INcorreto de uma professora que não quer salvar ninguém além de si mesma.

Elizabeth Halsey (Cameron Diaz) é uma professora que está prestes a largar o emprego e casar com um rico descendente. Até o dia em o noivo lhe dá um pé na bunda e ela volta, com muita má vontade, a trabalhar na escola pra poder ao menos pagar as contas. 

É quando aparece o professor substituto Scott Delacorte (Justin Timberlake) e ela decide colocar silicone pra poder atrair o moço, que vem de uma rica família. O problema é que seu salário não paga a operação, e ela começa a aplicar uma série de golpes na escola (e fora dela) pra juntar o dinheiro para a tão sonhada operação.

Escrito por Gene Stupnitsky e Lee Eisenberg, dupla responsável por vários episódios da série de TV The Office, o filme é recheado de palavrões, situações escrachadas e surpreende por não dar quase nenhuma chance a estrutura de comédias certinhas, sejam elas românticas ou besteiróis.

Por exemplo, quando você acha que a trama vai virar um drama escolar, com a revelação de perda do pai por parte de um dos alunos, Elizabeth simplesmente dá um conselho nada maternal, porém bastante sincero ao garoto, subvertendo todas as expectativas, tanto dos espectadores quanto dos personagens que a rodeiam.

É nesse ritmo de surpresa e subversão de gênero narrativo que o filme encanta. É claro que nem tudo será incorreto e mesmo Elizabeth aprende uma lição ao final do filme. Só não espere que isso ocorra logo e nem mesmo que ela fique muito feliz com isso. 

Quem é fã de comédias certinhas e corretas, com final triste e dramático pode não sair muito feliz do filme em si.

Elizabeth é uma personagem boca-suja e oportunista que não ta nem aí pros alunos e muito menos pros colegas de trabalho. Ela encarna todos os clichês de maus professores que já se ouviram por aí. 

Só começa a ensinar mesmo quando é informada do prêmio em dinheiro pago ao professor da turma que tirar a maior nota em exames estaduais. E, mesmo assim, com métodos de ensino pouco recomendáveis.

Cameron Diaz encarna o papel perfeitamente e seu carisma é absolutamente inegável. Mesmo a personagem sendo escrota e incorreta durante quase todo o filme fica difícil torcer contra ela. O que ela evoca no público é uma espécie de amor-bandido que nos faz sorrir a cada vez que se livra de uma situação difícil ou inventa um meio nada convencional pra atingir um fim.

As seqüências em que dirige o carro de marcha-ré e a sua quase transa com o personagem de Justin Timberlake estão entre suas melhores seqüências no filme.

O professor certinho é encarnado com talento por Justin, que não decepciona num papel escrito propositalmente com pouca personalidade.

Destaque positivo para Jason Segel (como o sacana professor de educação física), Phyllis Smith (como uma professora extremamente tímida) e Lucy Punch, cujo personagem tem boas seqüências como a neurótica rival de Elizabeth.

Até mesmo algumas seqüências que já são clichês como a da lavagem de carros são bem executadas pelo diretor.

Que também abusou de Rocks pesados na trilha sonora, o que poderia remeter diretamente ao filme Escola de Rock (com Jack Black), que é bem mais certinho e convencional na estrutura de transformação do personagem.

Uma comédia nada correta que subverte os padrões do gênero de “filme escolar” de forma não recomendada pra menores e se for apreciada sem preconceito e moderação por parte do espectador, poderá render boas risadas.

Recomendado.

Valeu!

Filme: Lanterna Verde

Um show de personagens mal-aproveitados, conflitos superficiais e situações explicadas de forma simplista, quase que subestimando a inteligência do espectador.

É como pode ser definido Lanterna Verde (Green Lantern, 2011) a aposta da Warner Bros e da DC Comics para tentar alçar um personagem que já foi secundário na HQs (mas que nos últimos anos tem uma base de fãs crescente) ao status de sucesso em outras mídias (a exemplo do que a Marvel fez com o Homem-de-Ferro).

Há milhões de anos uma raça de alienígenas imortais forjaram anéis que manipulam energia da força de vontade e escolheram seres de diferentes partes do universo para usá-los e proteger os inocentes. 

Hal Jordan (Ryan Reynolds) é um piloto de teste talentoso, mas bastante irresponsável, que é escolhido para substituir o alienígena Abin Sur (Temuera Morrison) em sua missão na proteção do setor espacial 2814 (no qual a Terra está incluída). 

Uma vez usando o anel ele conhecerá seus colegas lanternas, enfrentará o cientista Hector Hammond (Peter Sarsgaard) e acabará por confrontar o responsável pela morte de seu predecessor.

O roteiro sem dúvida é o maior problema do filme. Escrito por quatro pessoas (o que quase sempre é um mau sinal) surpreende por prometer muito e cumprir bem pouco, preferindo ficar num nível superficial.

O que não aconteceria se desenvolvessem melhor algumas situações como o passado de Hal (que tem pouquíssimas cenas com o pai) e seus conflitos familiares (cujos irmãos aparecem numa cena até boa só pra serem esquecidos depois). 

Até mesmo o passado e motivação da Dra. Amanda Waller (Angela Basset), explicado num flashback, fará sentido pra quem conhece a personagem dos quadrinhos, mas que não acrescenta nada a trama do filme.

O roteiro abusa de diálogos expositivos (um recurso estilístico não-recomendável) para explicar muitas situações e ainda emprega o uso de narração em seu início, que some de repente pra só voltar no final, com a clara intenção de mostrar que alguém contava a história. O problema é que nunca saberemos quem contava e pra quem era contado.

Há também um excesso de situações que se resolvem de surpresa (num ótimo emprego de deus ex-machina), sem nenhum pouco de sutileza por parte do roteiro. 

A explicação que Sinestro (Mark Strong), por exemplo, usa pra convencer os Guardiões a criarem um anel amarelo energizado pelo medo (que eles combatem há milhões de anos) é totalmente simplista e inverossímil se considerarmos que a raça tem milhões de anos de existência (e deveria compartilhar o equivalente em sabedoria). Uma criança de 5 anos acreditaria nele. Uma de 6, já não dá pra garantir.

A aparição de Hal em situações-chave de confronto do filme (como a revolta de Hammond após ser preso pelo exército e o já citado diálogo entre Sinestro e os Guardiões) também é gratuita e nada explicada, num claro descaso com os espectadores.

Ryan Reynolds apresenta grande carisma e algum conflito como personagem, mas sua incapacidade de esboçar mais que três expressões (e também seu topete impecável) não empolgam em nenhum momento.

O único personagem bem desenvolvido é Hector Hammond, e o ator Peter Sarsgaard se mostra bastante a vontade com o personagem. Só é uma pena que ele perca a vez pro insosso vilão Parallax, cuja motivação não é explicada (ou foi tão mal explicada que eu esqueci).

O design de produção está de parabéns na criação do planeta Oa, dos alienígenas e dos uniformes em CGI, mas a lanterna que abastece o anel ficou bem descaracterizada em relação aos quadrinhos.

Ponto negativo para o trabalho de edição que em determinados momentos parecem fazer o possível pra sabotar o filme. Como na cena da primeira viagem de Hal ao planeta Oa, que é interrompida a todo momento pra vermos partes da primeira transformação de Hector Hammond. Dava pra passar as duas cenas inteiras alternadamente sem prejudicar a história.

A trilha sonora ainda tenta evocar alguma emoção, mas na primeira aparição de Hal ao público, quando soam alguns acordes da trilha clássica de Superman - o filme de 1978 no vôo de partida do personagem, fica parecendo uma muleta emocional gratuita de muito mau-gosto.

O diretor Martin Campbell (que tem dois 007 e os dois Zorros no currículo) se mostra competente apenas nas cenas de ação, demonstrando muita má vontade pela falta de tato e coordenação com todo o resto já citado.

Em relação a semelhança com as HQs, a impressão que se tem é de que foram lidos quadrinhos de várias épocas do personagem e tentaram incluir muitas referências no filme, mas não conseguiram integrar uma ligação orgânica que dê sentido a muitos delas.

A inclusão de Amanda Waller (mesmo que totalmente descaracterizada) no filme dá a entender que poderá haver uma integração entre personagens da DC no cinema (como a Marvel está fazendo), mas é algo difícil de imaginar depois dessa bomba.

Não dá nem pra acreditar que Geoff Johns, o roteirista que atualizou grande parte da mitologia dos Lanternas nos quadrinhos para o século XXI (e hoje é editor de todo universo de super-heróis da DC), foi consultor criativo do filme. O que o dinheiro não faz, né?

Me senti como se estivesse assistindo hoje um episódio do desenho dos Superamigos do início dos anos 80. Quem consegue apreciar aquele desenho hoje em dia por algo além do saudosismo da época poderá até gostar do filme. 

O problema é que com tanta coisa boa que veio depois fica difícil baixar a barra de qualidade.

Um filme que não empolga, encabeçado por um ator canastrão liderado por um diretor preguiçoso num roteiro superficial é o que esperar desse filme.

Valeu!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Filme: Capitão América - O Primeiro Vingador

Melhor do que Thor, mas ainda um nível abaixo de Homem-de-Ferro

É como comparo Capitão América – O primeiro vingador ( Captain América- The First Avenger, 2011) com outros filmes da Marvel Studios. Dirigido por Joe Johnston, que já foi responsável por bons filmes como Rocketeer, Jumanji, Mar de Fogo e Lobisomem, entre outros.

Steve Rogers (Chris Evans) é um jovem franzino órfão de pai soldado e mãe enfermeira que, mesmo com ideais nobres, já foi rejeitado quatro vezes no alistamento para lutar na 2ª.Guerra Mundial em 1942.
Na sua quinta tentativa o jovem é escolhido pelo Dr. Abraham Erskine (Stanley Tucci) para ingressar no exército e participar de um experimento que o transformará no Capitão América, um supersoldado criado para fazer frente ao Caveira Vermelha (Hugo Weaving), o fracassado supersoldado alemão que hoje é chefe da divisão científica do exército nazista, também conhecida como Hydra.

O roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely (dupla responsável por adaptar As Crônicas de Nárnia) cumpre o papel de contar um história bem redonda, equilibrando passagens cômicas, dramáticas e de ação. 

Além de apostar no desenvolvimento do personagem título e de seu interesse romântico de maneira bem satisfatória (o que não ocorreu em Thor, por exemplo).

A trama contém boas saídas que permitem a aceitação de um personagem vestido com a bandeira americana num nível mundial. 

Uma delas é o contraste entre o início é o da carreira do Capitão como simples figura de propaganda americana nos EUA e sua rejeição inicial pelos próprios soldados americanos quando vai aos campos de batalha europeus.

Outra boa sacada foi a concentração das batalhas do Capitão somente contra a Hydra.

A organização, ao querer se destacar como independente, se afasta do exército nazista e torna a figura do Capitão mais verossímil para o espectador, justamente por não colocá-lo em confrontos cujos desfechos já são historicamente conhecidos.

Em relação a adaptação do personagem e sua comparação com as HQs, dá pra perceber que os roteiristas pegaram influências de várias fases do personagem (que já teve sua origem recontada várias vezes). 

O que se destaca, é claro, é sua vestimenta de batalha bem próxima a versão Ultimate do personagem (que teve início nas HQs dos anos 2000) e o parceiro Bucky Barnes (bem mais condizente com versão moderna e séria do personagem).

Chris Evans manda muito bem interpretando o Capitão, principalmente pelo fato de não lembrar em nada seus últimos papéis em filmes como Quarteto Fantástico e Heróis.

Hugo Weaving, que já foi Sr. Smith em Matrix, o elfo Elrond em Senhor dos Anéis e o próprio V em V de Vingança, demonstra mais uma vez grande habilidade interpretativa como Caveira Vermelha e sem dúvida merecia ser melhor desenvolvido pelo roteiro.

Tommy Lee Jones e Stanley Tucci também se destacam fazendo um bom trabalho e demonstrando habilidade e sensibilidade respectivamente como alívio cômico e motivador do personagem título.

A produção de figurinos e ambientação histórica são muito bem feitas. Os tons pastéis predominantes nas cenas em Nova York e na metade inicial do filme em contraste com o tom azulado do final, por exemplo, dão um clima todo especial ao filme.

É só uma pena que depois disso tudo alguns efeitos especiais parecem ter sido feitos as pressas.

Um exemplo são as seqüências de em que o personagem joga o escudo (o que não saiu nada natural) e a corrida atrás do avião no clímax do filme cuja montagem com a paisagem de fundo falsa quase lembrou as aventuras de Chapolin Colorado.

Em última análise um ponto negativo do roteiro é não tentar desenvolver os nazistas como personagens (muito) malvados.

A justificativa provável é que os autores apostaram num conhecimento prévio do público, o que livra a cara deles no ponto de vista do politicamente correto, mas tira a força do confronto final do filme, que perde um pouco o impacto em seu clímax.

No geral um bom filme, que vale o ingresso e nos remete a uma época mais simples quando se sabia quem era o vilão mundial e nos faz lembrar da infância assistindo Indiana Jones enfrentar os nazistas no cinema e na TV.

Recomendado.

Valeu!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Livro: O Primeiro Relato da Queda de um Demônio

O Primeiro Relato da Queda de um Demônio (devir editora, 234págs, 2004) é o livro de estréia da escritora brasileira Marcela Godoy que trata de um triângulo amoroso entre uma humana e dois conhecidos seres sobrenaturais: um vampiro e um lobo.

Por que se diferencia de outros romances do gênero?

Porque Marcela, que também é roteirista de HQs e professora de roteiro na Quanta Academia de Artes, trabalha esse triângulo amoroso de forma bastante orgânica e incidental, apresentando episódios históricos da inquisição espanhola com uma incrível clareza de detalhes, abordando a origem quase bíblica dessas duas raças fantásticas e discutindo a essência do amor e do que nos faz humanos de forma poética e filosófica. 

Azael é o demônio-lobo albino guardião de Lucien, um vampiro rico, bem apessoado e recluso que vive na cidade espanhola de Ávila.

Num baile comemorativo na noite da assinatura do Tratado de Tordesilhas em 1494, eles conhecem a bela Miriam, cortesã preferida de Glauco, um arcebispo e poderoso inquisidor espanhol.

A atração de Lucien por ela é imediata e entre encontros furtivos e cartas secretas de amor, ele e Azael terão que livrá-la do maldoso Glauco para garantir-lhe a felicidade.

O que Lucien, e o próprio Azael, não contavam é que a curiosidade do lobo pela jovem se transformará em um sentimento puro e maior do que ele e sua missão como guardião serão capazes de suportar.

A história é narrada por Azael (já transformado em humano) à própria Morte, que deve julgar o pedido do demônio-lobo que o leve para o além junto com a mulher que carrega nos braços.

Nesse pano de fundo anunciado de romance trágico, autora Marcela Godoy integra conceitos de filosofia platônica, hindu e até mesmo teosófica como base do aprendizado e discussão do demônio-lobo em busca de sua própria humanidade. 

Por exemplo, Os Sete Princípios do Homem, que rondam Azael depois que ele descobre seu sentimento por Miriam, são bases da Teosofia, uma doutrina que envolve conhecimentos filosóficos, científicos e esotéricos de diversas épocas e lugares do mundo divulgados pela ucraniana Helena Blavatsky no fim do século XIX.

O romance também pende para o lado filosófico da física quântica, principalmente pela máxima dita por Azael do "Tempo dotado de vontade" (que é repetida algumas vezes durante a trama) e que guiaria a vida daqueles que não tem força de vontade o suficiente para tomar as rédeas da própria vida.

Marcela ainda surpreende por inserir na narrativa referências ao Sandman de Neil Gaiman (na figura de Onírus, o deus-dos-sonhos) e ao jogo de RPG Vampiro: a Máscara, sucesso no mundo todo no início dos anos 1990.

Na mitologia do jogo, que é reconstruída e ampliada no livro, o primeiro dos vampiros foi Caim, amaldiçoado e marcado eternamente por Deus após matar seu irmão Abel por inveja.

Na trama do livro, logo depois disso, Caim faz um pacto com o anjo caído Lúcifer, que resulta na criação de Seth, o primeiro demônio a caminhar sobre a Terra na forma de lobo. O primeiro Guardião do Mito do Homem.

Dessa forma, a autora estabelece uma genealogia para a origem de Azael, que é mostrado não com a estética ocidental de “demônio = maldade” e sim com a idéia de que demônios são seres vazios, criados para servir de forma cega, sem aspirações ou desejos pessoais. 

É claro que, a partir de um determinado ponto, Azael não consegue mais afastar a curiosidade que tem pelo sentimento que seu mestre Lucien cultiva pela humana e nem sua própria fascinação pela mesma.

É aí que acontece sua primeira transformação em homem, prenunciada desde o início pelo medalhão que carrega no pescoço, e é o significado da “Queda” alardeada no título da obra.

Publicada um ano antes da famosa série Crepúsculo de Stephenie Meyer, o livro não é recomendado para crianças e nem pessoas de cabeça fraca pela complexidade dos conceitos já abordados acima e também por conter várias cenas de sexo (algumas até não-convencionais).

É claro que os fãs de fantasia gótica poderão apreciar sem moderação, inclusive com as belas e impactantes ilustrações de Marcelo Campos que acompanham a trama.

A história é fechada, mas existe gancho para continuações e é inevitável o gostinho de "quero-mais" deixado pela construção narrativa ao final da leitura. 

A autora, inclusive já começou a publicar os primeiros capítulos da sequência (intitulada "O Mensageiro de Ararat") em seu blog: http://oblogdamarcelagodoy.blogspot.com/2010/04/1-ultrapassam-em-barbarismo-tudo-o_23.html

Só nos resta esperar que a continuação das aventuras de Azael cheguem logo.

Muito recomendado.

Valeu!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Filme: Cilada.com

Quem vai ao cinema esperando ver um ótimo seriado de TV na tela grande pode ir tirando o cavalinho da chuva. 

Cilada.com (2011), filme nacional dirigido por José Alvarenga Jr. (diretor de Os Normais 1 e 2), passa longe do divertido, inteligente, metalingüístico e até um pouco trash seriado criado e estrelado por Bruno Mazzeo para o canal a cabo Multishow.

O que mais impressiona é que a culpa por isso não pode ser atribuída apenas ao diretor visto que Mazzeo também estrela e divide com Rosana Ferrão o crédito pelo roteiro do filme.

Bruno (Bruno Mazzeo) é exposto traindo a namorada Fernanda (Fernanda Paes Leme) numa festa de casamento e ela, pra se vingar, coloca na internet um vídeo de uma transa em que ele terminou muito rápido. 

A princípio ele tenta refutar o vídeo através de depoimentos de ex-namoradas, depois tenta gravar outro vídeo com uma transa mais longa para só então se dar conta que deve voltar pra namorada.

O roteiro é uma coleção de cenas e piadas até divertidas, mas falha em dois quesitos primordiais: consistência narrativa e identificação do público com o personagem.

Os autores do filme declaram (Mazzeo mesmo disse em várias entrevistas) que se trata de uma comédia ROMÂNTICA, mas fica difícil de crer nisso quando, em determinado ponto do filme, tudo leva a crer que os problemas do personagem serão resolvidos quando ele conseguir dizer “eu te amo”, algo que ele nunca disse a namorada em dois anos de relacionamento.

Outra coisa que atrapalha o romantismo do filme é o fato do roteiro fazer questão de frisar, através de algumas lembranças do personagem (a do acampamento e do cinema), o quanto Fernanda é uma boa namorada pra ele, mas não nos convence em nenhum momento que Bruno é um bom namorado pra ela.

Nem mesmo o comprovado carisma do ator nos fazem torcer pelo personagem visto que depois do vídeo ele tenta se vingar da namorada pegando algumas mulheres (e sem querer um travesti) e só após ter falhado nessas tentativas, com pouquíssimas demonstrações de arrependimento, é que decide falar as palavrinhas mágicas e tentar voltar pra ela.

Num outro tipo de análise, a relação entre os dois estaria mais pra uma co-dependência afetiva. Algo mais doentio num sentido psicológico do que explicitamente romântico.

No quesito comédia o filme é até bom (considerando que o humor é só metade da narrativa).

O destaque aí vai pros personagens que rodeiam o protagonista como o vidente (Luis Miranda) e o cineasta Marconha (Serjão Loroza) que roubam as cenas em que aparecem.

Fúlvio Stefanini também está muito bem caracterizado como chefe de Bruno e sua atuação na sequência em que conversa com a filha por telefone provoca gargalhadas na platéia.

É uma pena que a subtrama em que Stefanini aparecia (mais um exemplo da falta de consistência do roteiro) não tem um fechamento, sendo esquecida num determinado ponto do filme.

Há sim boas idéias que confirmam o talento de Mazzeo pra escrever comédias (como as já citadas seqüências do vidente, cineasta e do chefe), mas outras (como a escatológica seqüência de grupo de apoio a ejaculação precoce) passariam bem melhor sendo apenas idéias.

No final do filme a sensação que se tem é que a história foi construída com base num piada alongada demais permeada por uma coleção de piadas menores que não se sustentam como narrativa longa e, muito menos, como comédia romântica.

É melhor continuar na TV.

Valeu!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Quadrinhos e Filme: Mundo Fantasma - Ghost World

Geralmente quando se fala em obras envolvendo adolescentes se pensa: sexo, comédia besteirol, aventura sem nexo, drogas e mais sexo. Tudo num estilo leviano e simplista que costuma subestimar a realidade dos jovens.

Exatamente o contrário do que fez Daniel Clowes em Mundo Fantasma - Ghost World (84 pág, 2011), uma das Histórias em Quadrinhos americanas mais premiadas do fim do século XX, que a Gal Editora publicou em abril aqui no Brasil. 

Lançada originalmente em episódios esparsos na revista independente Eightball entre 1993 e 1997 nos EUA, foi compilada num encadernado logo depois, o que bastou para começarem os elogios, prêmios e a citação como novo clássico na revista Time

Enid e Rebecca são duas amigas que, recém-formadas no ensino médio, passeiam pela sua cidadezinha do interior sempre tendo o que falar sobre tudo e todos que encontram pelo caminho. 

Amigas desde pequenas, Enid é a mais reacionária das duas e tem sempre uma história para contar, um estilo diferente de se vestir e um comentário cínico a fazer sobre o que observa. Rebeca é mais contida, romântica que vai sempre nas ondas da amiga. 

Ansiando sempre por algo que as diferencie dos demais, cada uma das duas enfrenta o fim da infância a sua maneira.

Clowes produziu a série num espaço de seis anos, então teve bastante tempo pra planejar cada um dos oito capítulos da história entrando de cabeça em algumas aflições adolescentes como trabalho, sexo, amizade, amor e futuro.

Trabalha essas questões de forma bastante orgânica, lúdica e propositalmente acidental, alternando sempre com situações de humor que revelam o comum exagero e contradições da idade. 

Sobram críticas a programas de TV, estilos musicais, política e sociedade de consumo em geral.

A maior parte dessas críticas vem na voz de Enid, em sua procura por achar um estilo que a defina como adulta, mas sempre revelando ser mais imatura do que se considera.

No primeiro capítulo, por exemplo, Enid é apresentada a contra-gosto a um ex-padre pedófilo por um conhecido que publica uma revista pra juventude neo-nazista e tudo que faz é escutar quase sem reação e dizer alguns palavrões malcriados ao homem.

Tipos estranhos, bizarros e peculiares como esses, que tem toda a possibilidade de existirem de verdade, são freqüentes no álbum.

Os primeiros cinco capítulos tem uma natureza mais episódica, com mais humor e podem ser lidos em qualquer ordem sem prejuízo de entendimento. 

Os três últimos apresentam uma continuidade definida pela imposição do pai de Enid que ela preste vestibular pra uma faculdade bem distante de onde moram.

O vislumbre da possível separação das duas leva a um desenvolvimento melancólico, exaltando bem mais o contraste entre as responsabilidades de adulto e a busca conforto nas lembranças de infância. 

O Mundo Fantasma (Ghost World) do título faz referência a uma misteriosa pixação persistente em vários muros e portões da cidade, mas também pode ser relacionado à única cor além do preto e branco presente no álbum: um fantasmagórico verde-água

Outra possibilidade (mais filosófica) para o título é ressaltar o sentimento infantil de egocentrismo em relação ao mundo, que tornaria as personagens bem mais reais para si mesmas que o etéreo universo onde vivem.


Afinal, que adolescente nunca teve a fase de achar que todos na rua olhavam pra ele?

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A HQ fez tanto sucesso que um filme foi lançado em 2001 com roteiro do próprio Daniel Clowes com colaboração do diretor Terry Zwigoff que, por incrível que pareça, aprofunda muitas das questões desenvolvidas na HQ. 

Em Ghost World - Aprendendo a Viver, o roteiro faz grandes mudanças na trama da HQ e a principal delas é estabelecer uma linha narrativa consistente desde o início (o que não existia nos quadrinhos). Sem falar que alguns personagens mais polêmicos desaparecem e dão origens a outros tão bizarros quanto.

Thora Birch interpreta Enid de forma perfeita em eterno contraste entre postura e idade sempre com o desejo de se reinventar sendo expresso em roupas ou algum comentário pseudo-intelectual na ponta da língua sobre tudo.
Sem falar que está lindíssima.

A deusa Scarlett Johansson é "enfeiada" para viver Rebecca, que é prejudicada pelo roteiro e acaba perdendo um pouco da personalidade que tinha nos quadrinhos.

Steve Buscemi é Seymor, um quarentão amante de jazz e recluso de quem Enid se aproxima como forma de se redimir por ter pregado um trote e por quem acaba se afeiçoando.

A sensibilidade da HQ também está presente no filme e, mesmo com todas as mudanças, dá pra reconhecer a essência da história.

A produção está de parabéns ao aproximar a história da realidade, por exemplo, nos figurinos. Visto que Enid quase sempre repete suas blusas e roupas preferidas, o que é comum na vida real, mas bem difícil de se ver em filmes mais Hollywoodianos.

Produzido e lançado no circuito independente, o filme teve um sucesso bastante aceitável, foi indicado ao OSCAR pelo roteiro e rendeu alguns prêmios de atuação a Steve Buscemi.

Ainda hoje (dez anos depois) é relançado em DVD. Vale a pena procurar.

Uma bela história com um retrato bem fiel, ainda que um pouco verborrágico, do fim da adolescência na década de 1990 é o que esperar de Ghost World, em qualquer uma de suas duas encarnações.

Recomendado.

Valeu!

domingo, 3 de julho de 2011

Livro: Crônica de uma Morte Anunciada

Engraçado como surgem as histórias. 
Imagino que para escrever esta o autor tenha parado um belo dia e pensado: Como tornar interessante uma história em que já se sabe o final desde a primeira linha?

"No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo."

Isso só podia ser obra de Gabriel García Márquez, o escritor colombiano mais premiado de todos os tempos, em Crônica de uma morte anunciada (177pág, 2007), publicada originalmente em 1981 e já na 36º edição brasileira pela editora RECORD

Inaugurador do gênero “realismo fantástico”, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1982 e amigo pessoal de Fidel Castro são alguns epítetos comumente associadas ao autor, que é figurinha fácil em listas de melhores romances do século XX

Seus trabalhos mais conhecidos são Cem anos de solidão (1967) e Amor nos tempos do Cólera (1985), que virou filme em 2007, com participação de Fernanda Montenegro.

Em Crônica de uma morte anunciada, ele conta a história do assassinato do jovem Santiago Nasar, sob vários pontos de vista. 

A palavra crônica se encaixa perfeitamente no título pela preocupação do autor em aproximar a trama de um estilo jornalístico.

O narrador, que logo se revela personagem e testemunha das últimas horas de Santiago, apresenta depoimentos de vários habitantes na pequena vila ribeirinha onde moravam e tenta reconstruir o crime pelo olhar das testemunhas 27 anos depois do ocorrido.

Sabe-se que quem matou foram os irmãos gêmeos Pedro Vicário e Pablo Vicário para vingar a honra da irmã Ângela Vicário, que acusa Santiago Nasar de tê-la desvirginado, como pôde perceber o marido Bayardo San Roman antes de devolvê-la a família na fracassada noite de núpcias.

Gabo (apelido carinhoso do autor), constrói uma verdadeira tapeçaria com os depoimentos colhidos. Ele não se importa, por exemplo, de avançar e retroceder no tempo da narrativa enriquecendo a trama e conquistando o leitor ao ambientar-nos na rotina dos habitantes da pequena vila a margem do rio.

Infográfico feito por uma fã sobre os personagens do livro
O suspense se desenvolve aos poucos com alguns fatos apresentados mais de uma vez, mas sempre com informações novas que ajudam o espectador a montar o contexto em que Santiago foi morto.

A morte anunciada do título se explica pois, no momento do assassinato, quase todos os habitantes da vila já sabiam das intenções dos gêmeos em cometer o crime (eles vinham anunciando isso desde a madrugada anterior), mas ninguém tomou providências mais drásticas para evitá-lo. Cada um com seu motivo, claro.

Em determinado momento do livro (e isso determina a marca de um grande autor), o leitor se vê torcendo por Santiago Nasar, mesmo já sabendo qual será o final da história desde a primeira linha.

O que poucos leitores provavelmente sabem é que García Márquez baseou essa história num assassinato real com diz numa entrevista a revista VEJA em 1980: “...(o livro é) baseado num fato real e escrito de um jeito muito direto, muito rápido. A história é contada logo de saída, pois quis evitar aquele suspense vulgar cheio de armadilhas. Mas todo mundo que leu acabou ficando grudado no livro justamente por isso: acostumado às armadilhas dos livros de suspense, o leitor acaba achando que elas vão aparecer a qualquer momento, e não consegue desgrudar do livro.”

Um livro de poucas páginas, cuja leitura flui bem e pode ser devorado em poucas horas. Uma leitura rápida e ideal para quem quer conhecer o estilo marcante e apaixonante de Gabriel García Márquez.

Recomendado.

Valeu!

Ps.: entrevista completa de Gabo a VEJA: http://veja.abril.com.br/especiais/35_anos/ent_marquez.html
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